MULHERES
04/12/2018 06:58 -02 | Atualizado 04/12/2018 06:58 -02

Eu e todas as santas virgens assassinadas

Na minha escola católica, meninas que morreram evitando ser estupradas eram tidas como exemplos a seguir. Foi lá que aprendi que minha sexualidade não me pertencia, mas quaisquer pecados cometidos contra ela, sim.

Kelsey Dake for HuffPost

Maria Goretti tinha apenas 11 anos em 1902, quando foi assassinada enquanto se defendia de um homem que queria estuprá-la. Alessandro Serenelli, um jovem que vivia perto de sua família na cidade italiana de Le Ferriere, a vinha assediando havia algum tempo, querendo fazer sexo com ela, e decidira matá-la se ela recusasse mais uma vez. Apesar de ele a ameaçar com um furador de 25 centímetros, ela continuou a resistir, gritando "Deus não deseja isso", enquanto a apunhalava.

Maria morreu um dia depois de seus ferimentos. Serenelli confirmou mais tarde que não a havia penetrado – a não ser com as 14 estocadas com o furador. Ou seja, Maria morreu ainda virgem. Em 1950 ela foi canonizada.

A verdade é que não faltam meninas e mulheres assassinadas por homens sexualmente predatórios. O que diferenciou Maria Goretti de tantas outras foi que ela defendeu seu hímen com a própria vida. Ela se tornou a santa padroeira das vítimas de estupro, ironicamente, considerando que ela não chegou a ser estuprada.

No colégio católico onde estudei, no início dos anos 2000, Santa Maria Goretti era vista como exemplo a ser seguido. Algumas outras ex-alunas de escolas católicas com quem conversei nas últimas semanas também se recordam de sua figura casta. Maria Goretti era uma das escolhas mais populares nos dias em que nos vestíamos de santas. Ela morreu com 11 anos, eternizando-se na faixa etária dos adolescentes. Uma mulher que estudou em St. Louis, Missouri, se recordou: "O nome de crisma era escolhido muitas vezes em função de uma santa que a pessoa admirava muito. Maria era um dos nomes de crisma preferidos, por causa de Maria Goretti."

Minha escola chegou a dar o nome dela ao nosso clube de castidade, do qual o corpo docente encorajava os estudantes a participar: era o Clube Santa Maria Goretti. Naquela idade – quando eu era adolescente, irritável mas impressionável --, eu deveria ter sido um alvo perfeito para esse tipo de clube. Eu era virgem (tanto por opção quanto por circunstância, sendo a circunstância o fato de ninguém estar me convidando a deixar de sê-lo) e pretendia continuar assim até o dia de me casar (mesmo que alguém começasse a me convidar, como eu torcia que acontecesse). Dez anos de estudo em colégio católico me haviam enchido de doutrina e valores, e eu adorava racionalizar posições que, mais tarde na vida, passaria a achar repulsivas. Eu acreditava que a fé em Deus requer nosso sacrifício, até mesmo martírio. Acreditava que proteger a vida de um inocente exigia que um feto teria que ser carregado no ventre até nascer, mesmo que isso colocasse minha própria vida em risco, mesmo se a gravidez fosse fruto de um estupro – porque aquele bebê não tinha pedido para me ferir.

Mas um clube de castidade que levava o nome de uma menina de 11 anos assassinada por um predador sexual – essa ideia provocou uma quebra na minha fé. Para mim, o clube de castidade foi um passo longe demais, um deslize que arrancou o véu que ocultava o lado oculto e gótico da feminilidade católica. Eu não conseguia entender por que a igreja podia achar preferível eu morrer do que permitir que um pênis entrasse em minha vagina.

Não era uma questão de proteger inocentes ou fazer escolhas pessoais virtuosas, pensei – era equiparar quase completamente o hímen intacto da mulher a seu valor como pessoa. Era sinal de um sistema de valor que preferiria me ver morta que me ver tendo sobrevivido a um estupro.

As audiências de Brett Kavanaugh e Christine Blasey Ford, cheias de evocações da suposta juventude católica devota do juiz e de acusações plausivelmente negáveis sobre seu comportamento, trouxeram muitas lembranças de volta para muitas mulheres americanas. Eu própria não imaginava que isso aconteceria; tenho a sorte de nunca ter sofrido nada como o que aconteceu com Blasey Ford naquela noite de 1982. Mas quando ela falou de como os dois rapazes riram dela – uma recordação gravada "indelevelmente no hipocampo" – e da mão tampando sua boca enquanto eles a atacavam, as imagens me pareceram familiares, de alguma maneira.

Depois de uma infância marcada pelas manhãs de domingo passadas na missa e dias letivos que incluíam um horário regular para orações, a primeira vez que realmente tomei consciência do ódio à mulher que está entranhado na tradição cristã foi no ensino médio. Como presente de crisma, uma amiga da família me dera uma pequena Bíblia encapada em couro branco, com páginas barradas em ouro. A crisma é um sacramento que supostamente assinala nossa decisão adulta confirmada de seguir a igreja. Imbuída de toda minha nova maturidade religiosa, decidi ler um capítulo da palavra do Senhor todas as noites – não histórias bíblicas reescritas para crianças, mas o texto da própria Biblia.

Crescer como mulher e católica muitas vezes quer dizer internalizar, ou no mínimo ignorar convenientemente, toda uma arquitetura milenar de doutrina, escrituras e folclore antifeminina.

Eu esperava transcendência, mas, como se tivesse passado por engano pela porta errada, mergulhei no horror. Entendi rapidamente que aquelas histórias da Bíblia dos livros infanto-juvenis passam por cima ou censuram fortemente os relatos de brutalidade casual em relação às mulheres e de exploração sexual delas, além das leis que permitiam tudo isso. Em Deuteronômio, por exemplo, fui saber que, se um homem estuprar uma noiva virgem no campo, o homem deve ser morto, por ter privado outro homem de sua noiva prometida. Se ele o fizer na cidade, a mulher também terá que morrer: ela não gritou alto para pedir socorro, logo, deve ter sido cúmplice. Me lembro de ter lido aquele trecho com atenção intensa – o papel fino da minha Bíblia, as palavras pragmáticas, minha perplexidade enojada.

Agora, pensando no relato de Christine Blasey Ford, quando ela contou como resistiu à tentativa de estupro, com a mão de seu agressor tampando sua boca, enquanto os amigos deles faziam festa ali perto, eu entendo. Se o grito de socorro de uma mulher é sufocado e ninguém o ouve, o próprio estupro pode ser deletado ou pode se transformar em algo completamente diferente: um pecado compartilhado, um encontro mutuamente consentido.

Crescer como mulher e católica muitas vezes quer dizer internalizar, ou no mínimo ignorar convenientemente, toda uma arquitetura milenar de doutrina, escrituras e folclore antifeminina. Quando Deborah Ramireza veio a público e alegou que Kavanaugh lhe mostrou sua genitália numa festa de universitários em Yale, ela recordou que, como católica devota, "não ia tocar em um pênis enquanto não fosse casada", dizendo que se sentiu "constrangida, envergonhada e humilhada". Eu entendi o medo dela, aquela sensação de repúdio à possibilidade de ser contaminada pelo contato com a genitália de um homem. Essa vergonha e humilhação também imbuem outras denominações cristãs – o Deuteronômio não pertence ao Vaticano. Mas a Igreja Católica se orgulha de ser construída sobre mais do que apenas a Bíblia – sobre suas tradições milenares que foram transmitidas desde os primórdios da igreja.

Sempre senti que a parte mais puramente católica de minha educação sexual era a evocação dos santos e da Virgem Maria. Os evangélicos e os protestantes das principais denominações podem compartilhar certas táticas com os católicos (os anéis de pureza, demonstrações nas quais um pedaço de fita adesiva vai ficando menos adesiva depois de ser grudada às mangas de vários garotos), mas os santos, esses seres semi-míticos, são o jeitinho especial que o catolicismo tem de reconhecer quem está seguindo melhor os preceitos divinos.

As santas que nos eram apresentadas como exemplos para seguirmos eram quase universalmente virgens, a começar pela própria Mãe de Deus. Os católicos colocam ênfase especial sobre Maria, que é descrita como a Rainha do Céu e é objeto de várias aparições diante de santas e santos pelo mundo afora. Apesar de ela ter sido esposa e mãe, a Igreja considera que Maria se manteve sexualmente casta até a morte. Isso lhe teria permitido permanecer pura, livre do pecado.

"Me ensinaram na escola que Maria morreu sem nunca ter pecado em toda sua vida e que ela nunca fez sexo na vida", recordou Stephanie, que cursou um colégio católico em Nova York. Embora costume ser ensinado às meninas católicas que o sexo dentro do casamento é belo e autorizado por Deus, a pureza vitalícia de Maria deixa implícito que o sexo no casamento é pelo menos um pouquinho pecaminoso.

A ideia é que os santos intercedam a nosso favor. Basicamente, você reza para um santo, e este usará sua influência superior para orar para você no além. É como se seu pedido fosse espiritualmente retuitado pela conta de uma celebridade. Os santos são designados padroeiros de determinados grupos ou categorias, em função das circunstâncias de sua vida e morte. Por exemplo, São Brás, que era médico e virou mártir ao ser decapitado, é o santo padroeiro dos problemas de garganta e do sufocamento. Santa Maria Goretti não constitui anomalia: as santas padroeiras das vítimas de estupro normalmente não foram vítimas de estupro, elas mesmas. Foram mulheres que conseguiram se fazer assassinar em vez de ser violentadas.

As santas Inês e Lucia foram santas romanas que consagraram sua castidade a Deus e rejeitaram as investidas de homens pagãos. Por terem rejeitado seus pretendentes, foram presas, torturadas e depois mortas. As duas foram sentenciadas a ser levadas a bordéis e estupradas, mas Inês foi protegida quando Deus cegou os homens que tentavam violentá-la, enquanto Lúcia não pôde ser arrastada ao bordel, nem por uma junta de bois.

A beata Antonia Mesina tinha apenas 16 anos quando foi morta a pedradas quando resistia a uma tentativa de estupro, em 1935. "Na autópsia", diz uma hagiografia publicada no site Savior.org, "os médicos determinaram que o corpo de Antonia não fora pecaminosamente violado". Isso deveria ser irrelevante à questão da castidade dela, mas foi notado com cuidado, como que para evitar qualquer sugestão de que ela fosse impura demais para ser venerada.

A mácula do pecado do estuprador é muito facilmente transferida à vítima: quando ela não chega a ser vítima, isso é visto como prova de sua virtude. Como tantas outras narrativas que colocam a culpa na vítima, esta encerra a implicação cruel de que uma pessoa que é estuprada pode ser considerada culpada disso. Mesmo que você resista, que lute, que grite, quando um homem consegue lhe estuprar, o pecado também é seu. Ou, pelo menos, você perdeu virtude.

Nem todos os colégios católicos têm um clube de castidade que leva o nome de Santa Maria Goretti. Quanto mais converso com outras ex-alunas de colégios católicos, mas penso que o clima de devoção no meu colégio era exacerbado.

Meu colégio tinha uma das vistas mais católicas do país: o campus da University of Notre Dame, com seus gramados verdes e seus teólogos conservadores, ficava do outro lado da rua. A universidade é uma instituição religiosa conservadora, mas não tanto quanto o meu colégio. Exemplo: um ano o bispo John D'Arcy mandou cancelar o convite enviado ao então governador, o democrata católico Joe Kernan, para ser o orador na formatura de minha turma, porque ele era a favor do direito ao aborto. Este ano, Kernan recebeu da Notre Dame o prestigioso prêmio Rev. Edward Frederick Sorin, C.S.C..

Todo semestre eu fazia um curso obrigatório de teologia. Moral, Vida Católica, Sacramentos. O sexo era um dos tópicos de quase todas essas disciplinas. Nos incentivavam a não fazer sexo antes do casamento por muitas razões: porque o sexo dentro do casamento seria belo e aprovado por Deus; porque devíamos preservar nossa virgindade e entregá-la de presente ao nosso marido; porque poderíamos pegar clamídia e morrer; porque Deus criou o orgasmo para a finalidade única da procriação; porque Maria conseguiu se segurar e continuar casta, portanto nós também conseguiríamos.

Eu não paquerava porque tinha medo. Não dancei coladinha na festa de formatura, porque tive medo. Eu não saía com rapazes, porque tinha medo. "Estou sendo uma boa menina", eu me dizia, e a igreja concordava.

Nos diziam explicitamente para sermos como a Virgem Maria e como Maria Goretti, mas isso é dito implicitamente a todos os católicos. Os santos e santas fazem parte da tessitura da Igreja, com suas figuras humanas aprovadas por Deus. As mulheres católicas ouvem que, se quisermos ser boas, precisamos ser mais como essas mulheres. Nosso entendimento cultura da moralidade evoluiu um pouco com o tempo, mas a moral dos santos católicos permanece fossilizada.

Em 1950, quando o papa Pio XII canonizou Maria Goretti, ele a louvou, dizendo que "com coragem esplêndida ela se entregou a Deus e à Sua graça, entregando a vida para proteger sua virgindade", e recomendou aos pais que a encarem como exemplo de "como criar os filhos que Deus lhes deu e ensiná-los a viver com virtude, coragem e santidade".

"Que exemplo luminoso para os jovens", aplaudiu o papa João Paulo II em carta de 2002 para marcar o centenário da morte de Maria Goretti.

Mesmo as santas apócrifas, como Santa Úrsula, mártir virgem ao lado de suas supostas 11 mil aias também mártires virgens, podem ser tecnicamente removidas de nossos catálogos de santas, mas continuam obstinadamente entranhadas nas paredes da Igreja. Elas estão nos nomes de nossas igrejas e escolas, são evocadas na literatura e nas lendas. Estão presentes em nossos próprios nomes – inúmeros católicos recebem nomes de santos e santas, e, mesmo que não o tenhamos sido, muitas vezes há um santo ou santa com nosso nome, como Santa Clara, acólita de São Francisco de Assis que fugiu de sua vida prevista de esposa para tornar-se freira celibatária. Minha amiga me disse recentemente que, devido a seu nome do meio, Rosa, ela tomou conhecimento de Santa Rosa de Lima, que tentou se desfigurar para que pudesse evitar o casamento e respeitar seu voto de castidade.

Vistas por uma ótica, todos esses relatos são histórias de mulheres heroicamente altruístas. Sob outra, podem ser vistas como histórias de mulheres que tinham medo de homens, um medo compreensível e mortal, ou, no mínimo que agiam como se tivessem medo. Para mim, ser boa menina e ter medo de homens pareciam ser duas coisas muito parecidas.

Por isso, quando eu estava no colégio eu não frequentava festas com garotos, porque tinha medo. Eu não paquerava, porque tinha medo. Na festa de formatura, não dancei coladinha, porque tive medo. Eu não saía com rapazes porque tinha medo. "Estou sendo uma boa menina", eu me dizia, e a igreja concordava. As supervisoras da festa de formatura me elogiaram por guardar lugar para o Espírito Santo, como se eu o tivesse feito por um ato de força moral extrema.

A Igreja Católica pede a seus fiéis, uma congregação imensa e espalhada pelo mundo, para engolirem tanta doutrina que parece evidentemente absurdo, desnecessário ou até cruel. Para alguns fiéis, é doutrina demais. Mesmo entre os que permanecem na igreja, muitos simplesmente ignoram doutrinas como a proibição do uso de anticoncepcionais (98% das católicas americanas em idade reprodutiva já usaram anticoncepcionais, segundo relatório de 2011 do Instituto Guttmacher). Tanto assim que existe até um termo especial para designar os fiéis que escolhem quais doutrinas que vão seguir: são os "católicos de cafeteria".

Minha educação católica conseguiu me convencer que a religião é tudo ou nada. Tentei ser tudo, mas acabei escolhendo ser nada. Um ano depois de me formar no colégio católico, eu estudava numa universidade secular e já tinha deixado de ser católica praticante. Eu me identificava como católica não praticante, porque uma vez que você tenha sido batizada na Igreja você é considerada católica para sempre, mesmo que pare de praticar a religião. Na faculdade, conheci muitos católicos não praticantes.

"Não praticante" parece sugerir algo que se deixou de fazer, como deixar de frequentar a academia ou pagar nosso seguro. É verdade – não venho cumprindo minhas obrigações de católica. Mas o termo que me vem à mente quando penso no meu catolicismo não é "não praticante", mas "latente". O catolicismo está ali, no meu sangue e nas minhas sinapses, indelével em meu subconsciente, como se essas histórias estivessem apenas silenciosas, à espera do estímulo certo para voltarem à consciência.

Apesar de ter virado não praticante, sempre me senti de algum modo grata à minha educação católica por me conservar no caminho correto e, depois, por me dar algo contra o qual me rebelar. Acho que estou realmente agradecendo ao catolicismo por me incentivar a ser destemida; estou sendo grata pelo sentimento que a religião fomentou em mim de que minha sexualidade não me pertencia, embora quaisquer pecados fossem cometidos contra ela me pertencessem, sim.

Talvez eu sinta que essas regras me protegeram, ou pelo menos me ensinaram a viver num mundo que opera segundo essas regras. Elas só não me ensinaram a acreditar nelas, no final. Elas me treinaram rigorosamente – a mim e às minhas amigas – a conhecer a estrutura e lógica de uma ideologia contra a qual muitas de nós nos voltaríamos com um fervor preciso que só pode nascer da familiaridade.

Penso na mão tampando minha boca. Penso em Maria Goretti, apenas uma menininha, gritando para seu agressor, angustiada, "Deus não deseja isso". Não "eu não quero isso". O que ela queria ou deixava de querer não vem ao caso nesta história. Talvez exista outra história em que o que ela desejava seria importante.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.