OPINIÃO
22/08/2018 00:27 -03 | Atualizado 22/08/2018 00:27 -03

A inteligência emocional conta?

Conheça os 4 conceitos sobre o potencial de aprendizagem que podem ajudar líderes em tempos de incerteza.

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Líderes devem ter atenção ao potencial de aprendizagem de cada um de seus funcionários.

Durante o século 19, uma medida foi criada para mensurar o potencial de inteligência de cada pessoa, o famoso QI (Quociente de Inteligência). Com o passar do tempo, esse parâmetro passou a ser questionado por especialistas no assunto. Por meio de estudos, neurocientistas, psicólogos e pedagogos provam que nosso cérebro não nasce "pronto", mas se transforma e se desenvolve. Nada muito diferente do que acontece com os músculos do nosso corpo, que podem ganhar forma e intensidade de acordo com os estímulos. O importante é o treino, ou os diferentes inputs que estamos abertos a receber.

Hoje, após a queda do conceito de QI, muito vem se falando sobre o potencial de aprendizagem, que nada mais é do que a capacidade de cada um de usar seu repertório de experiências anteriores para se adaptar ao novo. O famoso ditado popular "gato escaldado tem medo de água fria" traduz claramente essa ideia.

Porém, não é tão simples mensurar esse potencial de aprendizagem, visto que ele não é uma regra exata, mas varia de acordo com diversas situações às quais somos submetidos, além de nossas próprias características psíquicas. O componente emocional que organizamos nos 3 primeiros anos de vida é decisivo para a aprendizagem futura.

De acordo com a medicina contemporânea, até essa idade, serão formadas 90% das conexões que usamos para o resto da vida. Toda essa 'bagagem' de experiências interfere futuramente na maneira como lidamos com os outros no trabalho, em como aceitamos (ou não) desafios, como criamos, planejamos e executamos tarefas. No mundo dos negócios, cada vez mais voltado para dados e estatísticas, é fundamental não cairmos na armadilha de tentar mapear, mensurar ou até mesmo rotular potenciais de aprendizagem das nossas equipes e pessoas.

Existem 4 conceitos sobre o potencial de aprendizagem que podem ajudar líderes em tempos de incerteza:

1. A inteligência não é uma medida única. O potencial de aprendizagem varia de acordo com a área de desafio.

Howard Gardner, psicólogo da Universidade de Harvard, desenvolveu a Teoria das Inteligências Múltiplas. Ele propôs que a vida humana requer o desenvolvimento de vários tipos de inteligências e que cada ser humano desenvolve um tipo diferente. Considerando isso, podemos afirmar que Stephen Hawkings não é mais inteligente que um jogador de futebol, por exemplo. Basicamente, o que Gardner propõe é que uma pessoa pode aprender rapidamente questões relacionadas à matemática e ter uma aprendizagem mais lenta em outra área como, por exemplo, música. Se considerarmos a teoria de Gardner, o teste de QI se torna obsoleto, pois é baseado principalmente em um único tipo de inteligência, focado em cálculos e resultados.

2. Líderes têm papel fundamental no desenvolvimento de suas equipes.

Reuven Feuerstein, criador da a Teoria da Experiência da Aprendizagem Mediada, levanta a questão da importância do mediador no processo de aprendizagem e privilegia sua figura, pois mais que um transmissor de conhecimentos, ele dá significado às informações. Se aplicarmos essa teoria no mundo corporativo, podemos dizer que os líderes possuem esse papel de mediador e, segundo Feuerstein, é justamente nas interações sociais que as pessoas produzem processos de aprendizagem que possibilitam apropriar-se de conhecimentos e reelaborá-los. Nesse sentido, os líderes devem se questionar se realmente são bons estimuladores de aprendizagem, e as organizações devem assumir também a tarefa de incentivá-los e capacitá-los.

3. Como Darwin dizia: "atenção à influência do meio".

O ambiente pode ser (ou não) um importante fator de estímulo ao desenvolvimento. Conheça, descubra e redescubra a cultura da sua empresa. Analise o quanto suas equipes e pessoas estão de fato conectadas com esses valores. A relação profissional-empresa deve ser uma relação de troca, mas é importante que ambos os lados vejam valor nessa troca. Uma cultura de excelência, voltada para metas de resultados, tende a ser um ambiente de aprendizagem mais complexo para perfis mais criativos, que aprendem muito a partir de erros e acertos, de forma menos processual. Dessa forma, é fundamental para um líder entender como cada membro da sua equipe aprende, em que condições e que tipo de desafio impulsiona seu aprendizado.

4. Sim. Emoções e negócios têm tudo a ver!

A capacidade de aprendizagem está muito correlacionada a aspectos emocionais. O jornalista científico Daniel Goleman trouxe em seu livro Inteligência emocional que a capacidade cognitiva é uma forma muito poderosa de prever o sucesso na — muito mais que o QI. O estudioso ensina que o controle das emoções é essencial para o desenvolvimento da inteligência de um indivíduo, além de ser o principal responsável pelo sucesso ou insucesso de uma pessoa.

Em tempos de VUCA (sigla americana para Volatilidade, Incerteza, Complexidade e Ambiguidade), novas habilidades são esperadas dos líderes: capacidade de navegar em meio ao caos e confusão, manter a eficiência em ambiente imprevisível e repleto de mudanças, capacidade de agir sem ter 100% de certeza sobre as coisas e a capacidade de antecipar e reagir às mudanças. Ou seja, mais do que nunca, precisamos estar abertos a aprender, desapegar do conforto que o conhecido nos traz e seguir adiante.

E como dizia a famosa peixinha Dori no desenho animado "continue a nadar".

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.