Opinião

Como é ser uma menina que escreve código

O conselho que dou a outras meninas na área da tecnologia é ficar firmes e confiantes. Homens e mulheres são igualmente capazes de fazer qualquer coisa, desde que se decidam e mergulhem fundo. Só é preciso muita persistência e muito esforço.

Como "techie" (pessoa que curte tecnologia ou trabalha com ela) mulher, você sofre os efeitos dos papéis de gênero implacáveis, diariamente.

Veja minha história. Tenho 17 anos e sou obcecada por computadores desde o momento em que minha família teve o primeiro (isso foi na época em que os monitores eram enormes de profundidade, o sistema funcionava com Windows clássico e a internet era acessada por portas ethernet, com acesso discado).

Naquela época, antes até de começar a frequentar a escola, minha infância era cheia de ambição pela tecnologia e de desejo de mexer com ela. Eu não entendi realmente que o gênero tinha tanto poder no mundo da tecnologia até chegar ao ensino médio.

As pessoas te olhavam de um jeito estranho se você fugisse das normas de qualquer maneira. É no ensino médio que todo o mundo começa a se enquadrar em categorias - os nerds, os atletas, os descolados. Ninguém necessariamente chamava os outros assim, mas em nossas cabeças e nossos corações, todos sabíamos que havia uma separação nítida. Era normal.

No mundo tech, as pessoas te olhavam de jeito estranho se você não era homem. Isso também era normal.

No verão do ano em que fiz a oitava série, fui a um acampamento tech, passar uma semana aprendendo a programar em C++. Eu não pensava muito em papéis de gênero até ir para o acampamento (quem pensa nisso num acampamento de férias?). Assim que cheguei ao lugar, observei uma coisa: não havia meninas. Nenhuma.

Num primeiro momento, me assustei. "O que vou fazer com garotos em todo lugar?" Mesmo nessa época, eu já sentia a intimidação avassaladora do outro gênero.

Mas então, fez sentido para mim. Talvez as meninas não se interessem em passar o dia todo sentadas diante de um computador, escrevendo código. Ou talvez pensem que não têm inteligência suficiente para fazer isso e que isso é coisa de meninos. É esse o problema.

Eu passei aquela semana inteira fazendo força para enxergar os caras como meus iguais. Para mim, parecia que eles sempre sabiam muito mais que eu, que usavam palavras mais compridas e, basicamente, que eram programadores melhores. Eu me sentia uma fracassada quando tropeçava num problema que eles resolviam numa boa, mas me mantive forte e continuei a trabalhar para eliminar os bugs. Nem é preciso dizer que foi uma semana difícil, mas não deixei o fato de esta área ser impactada de homens me puxar para baixo. Mesmo que esses caras tivessem mais experiência e conhecimentos que eu, eu podia passar o mesmo tempo que eles aprendendo o currículo e ainda podia criar os mesmos programas com sucesso.

Quando chegou o colegial, fiquei animadíssima quando soube que nosso colégio tinha uma academia de engenharia. Me inscrevi nela na hora. Todos os dias eu tinha uma aula dedicada a design e engenharia. Todos os dias eu ficava numa sala cheia de meninos que achavam que já eram melhores que eu, antes mesmo de verem o que eu sabia fazer. Eles pensavam que eu não daria conta do recado porque sou menina. É altamente desanimador quando você passa sua carreira colegial num ambiente que não a recebe bem nem confia em você.

Na primavera do meu segundo ano no colegial, ouvi falar de uma oportunidade fantástica para meninas que curtem tecnologia: Girls Who Code (meninas que escrevem código). Era uma chance para eu mergulhar fundo no mundo da programação sem o medo de ser intimidada. Girls Who Code foi a melhor experiência de minha vida, não apenas porque não havia garotos em volta, mas porque me abriu a porta para as inúmeras oportunidades do setor. Enquanto fiquei lá, pude aprender tantas linguagens de programação diferentes, conhecer profissionais e formar redes de contatos que vão durar por muito tempo. Foi uma chance do tipo que só aparece uma vez na vida, uma que os próprios rapazes raramente têm.

Muitas empresas e organizações estão tentando acabar com o abismo de gêneros no mundo da tecnologia, criando oportunidades, bolsas de estudo, programas, etc, apenas para mulheres. O que é ótimo de ser menina é que você é minoria, então tem mais chances de se destacar e possivelmente até de conseguir o emprego ou a bolsa, porque já há garotos demais.

Mas o lado ruim é que você é a minoria. Você será intimidada e julgada, não importa onde vá ou o que esteja fazendo. As meninas sempre vão sentir a necessidade de adequar-se aos padrões determinados pelos homens, mas elas supõem que isso seja impossível e duvidam delas mesmas. Às vezes as meninas não receberão as mesmas oportunidades porque as pessoas pensam que elas são menos capazes que os homens de fazer o trabalho.

Ser menina não é desculpa. Não quer dizer que você não possa ser mais forte, se quiser. Não quer dizer que você não possa ser mais inteligente, se quiser. As mulheres têm mais poder do que pensam. Mas o desencorajamento da sociedade e a falta de confiança as desanima de correr atrás de seus sonhos e alcançar seu potencial pleno.

Além disso, o gênero cria um padrão duplo - dois pesos, duas medidas --, a ideia de que os homens não são capazes de fazer coisas que as mulheres fazem ou que as mulheres são incapazes de fazer coisas que os homens fazem. A impressão é que o mundo nunca será igual para homens e mulheres, devido a como a sociedade enxerga os papéis de gênero. Mesmo assim, há pessoas trabalhando para mudar o jeito como as pessoas encaram as coisas, e dá para sentir que o setor da tecnologia está mudando.

Pense nisso por um instante: em cada formulário de candidatura que você manda a empresas e organizações para empregos, bolsas de estudo ou outras coisas em ciência, tecnologia, engenharia ou matemática, você preenche o quadradinho de "sexo feminino". Isso já pode colocar você à frente dos candidatos homens, porque é diferente. As pessoas querem diversificar. Elas querem algo novo.

Ao lado das vantagens incríveis que existem aí fora para as mulheres na tecnologia há as muitas complicações que as desencorajam de tornar-se inovadoras poderosas e bem-sucedidas. Nossa geração está se adaptando para encaixar-se num novo mundo de tecnologia e está tentando trazer mais mulheres para esse mundo. Independentemente desses esforços, a sociedade vai continuar a criar expectativas para cada indivíduo e a modificar a definição de igualdade.

O conselho que dou a outras meninas na área da tecnologia é ficar firmes e confiantes. Homens e mulheres são igualmente capazes de fazer qualquer coisa, desde que se decidam e mergulhem fundo. Só é preciso muita persistência e muito esforço. Continue a pensar fora dos padrões e a ser inovadora. Em última análise, o que importa é o quanto você trabalha e o quanto está determinada a ter sucesso num setor que avança em ritmo tão acelerado.

Cindy escreve código e é estudante do colegial. Ela é presidente do clube Girls Who Code de seu colégio. Ela investe fundo em sua paixão por escrever código e quer inspirar outras a mergulharem nas aventuras incríveis da ciência da computação.