OPINIÃO
07/05/2015 10:50 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Haverá mais silêncio diante da tirania se continuarmos a ignorar o problema

Em 2025, haverá mais silêncio diante da tirania, e esse silêncio crescente será culpa unicamente nossa. Veremos mais assassinatos, como a decapitação pública do jornalista freelancer americano James Foley, mais mensageiros detidos, como o repórter Jason Rezaian, do Washington Post, detido sob acusações falsas em uma prisão de Teerã apenas por escrever reportagens sobre um Irã em transformação, e haverá mais ataques terríveis como o sofrido pelo Charlie Hebdo, em Paris.

Reprodução/YouTube

Em 2025, haverá mais silêncio diante da tirania, e esse silêncio crescente será culpa unicamente nossa.

Veremos mais assassinatos, como a decapitação pública do jornalista freelancer americano James Foley, mais mensageiros detidos, como o repórter Jason Rezaian, do Washington Post, detido sob acusações falsas em uma prisão de Teerã apenas por escrever reportagens sobre um Irã em transformação, e haverá mais ataques terríveis como o sofrido pelo Charlie Hebdo, em Paris.

Essa visão sombria de futuro será nossa própria culpa se permitirmos que continuem os ataques contra o jornalismo em todo o mundo, se seguirmos ignorando o problema, ignorando como a morte do mensageiro mina a democracia e ameaça uma sociedade aberta e livre.

Será nossa culpa se não nos manifestarmos sobre as ameaças, prisões e assassinatos de jornalistas que estão apenas cumprindo suas funções: expondo injustiças e questionando a autoridade. E todos nós seremos vítimas. Não só jornalistas como Foley, que era meu amigo e meu colega, mas também todos nós que queremos saber o que acontece no mundo, que confiamos nas pessoas que testemunham os acontecimentos em primeira mão: terrorismo, corrupção governamental, desigualdade de renda, tráfico de humanos e a erosão da privacidade e do direito à informação do público na era digital.

Os riscos enfrentados por jornalistas em todos os cantos do mundo - nas mãos de extremistas islâmicos e estados policiais, assim como nas de corporações que tentam controlar o livre fluxo da informação - atingem níveis recorde.

No ano passado, 61 jornalistas foram assassinados. Desde 1991, quando o International Press Institute começou a acompanhar os números, mais de 2 100 jornalistas foram mortos no exercício da profissão. O IPI e o Comitê de Proteção aos Jornalistas ambos confirmam que os últimos três anos viram níveis de violência sem precedentes contra jornalistas, especialmente para os jornalistas locais. Muitas vezes os ataques são realizados com impunidade, pois mais de 90% dos assassinatos de jornalistas seguem sem solução.

Essa violência vai intimidar jornalistas e silenciar vozes necessárias para uma imprensa livre e sadia. Esse silenciamento de vozes que podem se manifestar contra a tirania será nossa culpa se nós que nos importamos com a liberdade de imprensa não nos unirmos para combater as forças que tentam sufocar o tipo de jornalismo que ousa confrontar injustiças e jogar luz sobre os aspectos mais sombrios da condição humana, nos cantos mais perigosos do mundo.

É preciso mudar as leis internacionais, para tornar crimes de guerra o sequestro ou o assassinato de jornalistas. Essa foi uma ideia que ouvi pela primeira vez de Gary Pruitt, presidente da Associated Press. O ano passado foi especialmente letal para a AP, que viu quatro de seus repórteres assassinados em campo, incluindo Anja Niedringhaus, assassinada à queima-roupa por guerrilheiros afegãos disfarçados de policiais.

Pruitt defendeu a idade no Clube dos Correspondentes Internacionais de Hong Kong, dizendo: "Eles não precisam de nós, não nos querem. Eles querem contar suas histórias do começo ao fim sem nada no meio, e o jornalista é um potencial filtro crítico que eles não querem por perto".

"Mas o mundo precisa de nós. Para obter os fatos reais e as histórias completas. Não só o lado que eles querem contar."

Outra ideia defendida pela Unesco é ligar a liberdade de expressão diretamente aos objetivos de desenvolvimento do milênio da ONU, tornando prioridade o apoio e a proteção à imprensa.

O chefe das relações externas da Unesco, George Papagiannis, disse que "a era digital apresenta enormes desafios para aqueles entre nós que se preocupam com a liberdade de expressão".

Explicando como a era digital representa enorme esperança e oportunidade para uma nova era de jornalismo e uma histórica expansão das vozes por meio do jornalismo cidadão, Papagiannis se apressou a acrescentar: "Existe ao mesmo tempo um aumento da censura e um esforço sem precedentes para bloquear jornalistas. Há intimidação e assassinatos de jornalistas, numa tentativa de silenciá-los".

Ao longo dos próximos dez anos, há muito trabalho a fazer para garantir que a imprensa livre floresça. Todos nós que acreditamos na liberdade de expressão e na ideia de que ela seja a pedra fundamental da democracia e dos governos abertos e inclusivos precisamos estar atentos, para evitar que o crescimento do silêncio e da escuridão que o acompanha.

Este post é parte de uma série que comemora os 10 anos de HuffPost através das opiniões de especialistas que olham para a próxima década em suas respectivas áreas. Leia aqui todos os posts da série.