OPINIÃO
27/01/2014 20:57 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

Santa Maria precisa seguir em frente

Santa Maria se tornou, desde 27 de janeiro de 2013, aos olhos do mundo, uma cidade com uma visibilidade intensa e movida por uma tempestade de sentimentos sensíveis e de diferentes graduações. A dor de pais e familiares pela perda irreparável de seus filhos, em uma circunstância por todas as formas trágica, são encetadas iniciativas que buscam alcançar o senso, o efeito, a produção de justiça. Tenho dito nas muitas entrevistas a jornalistas que, sim, esse foi um momento extremamente doloroso para todos, rigorosamente para todos, já que não há quem não tenha sofrido intensamente esse drama, com os desdobramentos de diferentes naturezas, além da perda dos entes queridos. Uma tragédia com essa dimensão ganha a observação internacional, desde o acontecimento propriamente dito até a complexa tramitação de processos nas instâncias judiciais. E, aqui, temos acrescido o calor do impacto e dos sentimentos intensificados pela morte de mais de duas centenas de jovens em meio à apuração dos fatos dispersos que comporão um todo de um relatório no qual, espera-se, se dará a aplicabilidade da justiça. Ou seja, temos o acontecimento, a tragédia, o estupefato do horror ferindo o coletivo em um sentimento de dor profunda, de perplexidade e incredulidade e, por outro lado e ao mesmo tempo, temos a intensificação dos desdobramentos de investigação, de pressão do clamor popular, da complexidade dos mecanismos da justiça e de seus operadores, valendo-se na plenitude do que o Estado de Direito Democrático assegura nos ritos legais a todas as partes envolvidas.

Desde o primeiro momento, dedicamo-nos a prestar socorro, a amparar, a montar uma estrutura até então impensável, impossível de prever ou de estar à frente numa dimensão comparável ao contexto de uma guerra em um cenário sem precedentes. Não há nada equivalente àquele momento em que decidimos por montar um Gabinete de Crise, em um ginásio de esportes na cidade, o qual passou a ser o centro de todas as ações públicas. E, nisso, se revelou a grande capacidade da equipe de servidores da prefeitura, somando-se ao incontável número de voluntários que, de todas as formas, procuraram colaborar e o fizeram com esmero e eficiência, mesmo que tomados pelo peso da dor.

Em continuidade, criamos o Centro de Apoio Psicossocial 24 horas, em um prédio que alugamos para abrigar os 42 profissionais contratados emergencialmente para atuar junto a mais de 200 voluntários habilitados tecnicamente em áreas da saúde. É obrigação e ainda precisamos fazer e reconhecer como justa homenagem ao extraordinário grau de solidariedade que Santa Maria viu acontecer pelos conterrâneos, em particular, mas também vindas do Brasil e do exterior. Essa voluntariedade, esse desprendimento, essa doação compõem aquilo que os profissionais que conhecem e acompanharam cientificamente cidades ou países que viveram uma realidade próxima ou minimamente semelhante à nossa. Esses estágios são marcados por um primeiro momento de dor profunda, depois de luto e depois de inspiração, apuração, responsabilização para uma quarta fase, que pode ser compreendida como um período de reconstrução.

Posso assegurar que estamos focados para mobilizarmos esforços a esse processo de reconstrução, de retomada, de comprometimentos mútuos a um objetivo comum de recuperação de nossos lares, de nossos ânimos, de nossa autoestima, de nossos valores, de nossos sonhos, de nossas esperanças e de nosso futuro. E isso não é subjetivo. Requerem-se ações práticas, atitudes determinadas, movimentos objetivos que reflitam um avanço na linha do tempo. A cidade não pode esquecer o que aconteceu e esse também é um compromisso: estabelecermos referência a um acervo de memória em relação ao legado que a tragédia deixa para Santa Maria e aos brasileiros.

Se não devemos esquecer, também devemos olhar para frente, caminharmos firmes para o futuro acompanhando as transformações decorrentes e promovendo outras tantas necessárias. O RS mudou sua legislação acerca da prevenção, o Congresso Nacional tramita dispositivo nesse rumo, as prefeituras empreendem processos de gestão que trazem à tona medidas preventivas necessárias e antes despercebidas em seu cotidiano. Em nosso caso, Santa Maria tem de se constituir em uma referência para o Brasil como sendo uma cidade com objetivo de alcançar o Risco Zero. Um programa que reúna diferentes ações que envolvam diretamente setores de risco como o trânsito, a construção civil, a energia elétrica, a qualidade da água e o saneamento, o armazenamento de produtos tóxicos, a estrutura de escolas, a qualidade dos alimentos, enfim, é um processo em andamento, que não se faz da noite para o dia. Tenho absoluta convicção que há um terreno fértil para essa mobilização e comprometimento das partes, já que todas as leis que foram criadas, seja no município, no Estado ou no país, prevêem ações que remetem a cuidados e recomendações básicas que podem ser assumidas pela consciência cidadã e pelo poder público. E nisso reside a possibilidade do Risco Zero, a efetiva consciência cidadã como exercício de fiscalização, de contribuição e de prevalência de direitos e deveres em benefício da coletividade.