OPINIÃO
09/03/2016 20:02 -03 | Atualizado 13/05/2019 12:13 -03

Amamentação no Brasil: Exemplo para o mundo

Para proteger os avanços conquistados até agora e continuar avançando, precisamos investir em melhores dados, identificar novas oportunidades de atuação e seguir incentivando os países a respeitar e adotar o Código Internacional de Comercialização de Substitutos do Leite Materno estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Em 2016, temos a oportunidade de destacar a experiência bem-sucedida do Brasil em promover mudanças no cenário de amamentação em todos os níveis necessários: político, no local de trabalho, no sistema de saúde e em casa.

LWA/Dann Tardif via Getty Images
Mother nursing newborn son in bed

A atual epidemia de zika vírus no Brasil tem recebido ampla cobertura da imprensa local e mundial.

Este surto representa um grande desafio para nossa infraestrutura de saúde pública e certamente exigirá esforços conjuntos do governo, da sociedade civil e da população para controlar a doença.

Diante de tantas más notícias em torno do zika, fica fácil negligenciar os recentes avanços do Brasil em outras áreas da saúde, o que inclui uma importante redução na mortalidade infantil ao longo dos anos e melhorias significativas na nutrição de crianças.

Um dos fatores essenciais por trás dessas duas conquistas costuma ser muitas vezes ignorado pela maioria: o grande aumento da duração e das taxas de aleitamento materno em todo o país desde 1980.

Trata-se de um crescimento que praticamente nenhum país jamais alcançou.

Nos anos 1980, a duração mediana do aleitamento em nosso país era de menos de 3 meses, e atualmente atinge mais de um ano.

Uma análise sistemática dos dados do Brasil e de outros 152 países acaba de ser lançada por uma nova série da revista médica britânica The Lancet.

Trata-se do mais abrangente estudo comparativo sobre amamentação já publicado.

A pesquisa afirma claramente: em países ricos ou pobres, o aleitamento materno é um dos melhores investimentos para a saúde e o desenvolvimento de mulheres e crianças.

Os benefícios vão muito além de melhorias na saúde.

A duração da amamentação está relacionada a uma melhor performance de crianças e adolescentes em testes de inteligência - o que pode significar um melhor desempenho acadêmico e aumento de renda no longo prazo.

Pesquisa desenvolvida no Brasil já mostrou que crianças amamentadas por mais tempo continuam apresentando melhores desempenhos em testes de inteligência 30 anos depois.

Incentivar as práticas de amamentação pode salvar mais de 820.000 vidas por ano, pois o aleitamento materno protege as crianças contra doenças como a diarreia e infecções respiratórias.

A amamentação também diminui os riscos de câncer de mama e de ovário entre as mulheres que amamentam.

Esses benefícios em saúde e desenvolvimento resultam numa diminuição significativa de gastos para os países e, portanto, podem acrescentar centenas de bilhões de dólares à economia global a cada ano.

A série da The Lancet aponta que se as taxas de amamentação dos Estados Unidos, China e Brasil aumentassem para 90% e se esses mesmos índices subissem para 45% no Reino Unido, haveria uma diminuição de custos com tratamentos para doenças comuns na infância que representariam uma economia de pelo menos US$ 2,45 bilhões aos Estados Unidos, US$29,5 milhões ao Reino Unido, US$223,6 milhões à China e US$6 milhões ao Brasil.

Apesar de seu poder transformador, a amamentação ainda é uma prática pouco incentivada e seu sucesso não é de responsabilidade exclusiva da mulher.

A promoção do aleitamento materno é, na verdade, uma responsabilidade social e coletiva.

A série da The Lancet mostra que as mulheres são 2.5 vezes mais propensas a oferecer exclusivamente leite materno a seus filhos quando políticas e programas se unem para apoiá-las em sua decisão de amamentar.

O Brasil é um exemplo notável de país que foi capaz de fazer um progresso expressivo em um curto período de tempo porque implementou importantes políticas e programas de incentivo ao aleitamento materno.

Em apenas três décadas, o tempo médio de amamentação no Brasil aumentou de 2.5 meses - uma das durações mais curtas entre todos os países de renda baixa e média - para os atuais 14 meses.

Esse significativo avanço se deve a uma combinação de iniciativas em políticas públicas, serviços de saúde, pressão da sociedade civil e da grande mídia.

Entre elas destacam-se a licença maternidade, a expansão dos Hospitais Amigos da Criança, e uma legislação que restringiu a propaganda de substitutos do leite materno.

Um dos fatores que mais contribuíram para este resultado foi o comprometimento político com o aleitamento nos mais altos níveis do governo.

Quando a amamentação deixou de ser um problema das mulheres e das mães e passou a ser uma prioridade nacional, a mudança foi drástica.

No entanto, esses avanços ainda podem sofrer ameaças.

Atualmente, o Brasil é considerado um dos mercados mais promissores para as chamadas fórmulas e substitutos do leite. Nunca é demais ressaltar o poder do leite materno.

Ele é perfeitamente customizado para as necessidades nutricionais da criança e de seu sistema imunológico - e não pode ser replicado.

Para proteger os avanços conquistados até agora e continuar avançando, precisamos investir em melhores dados, identificar novas oportunidades de atuação e seguir incentivando os países a respeitar e adotar o Código Internacional de Comercialização de Substitutos do Leite Materno estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Em 2016, temos a oportunidade de destacar a experiência bem-sucedida do Brasil em promover mudanças no cenário de amamentação em todos os níveis necessários: político, no local de trabalho, no sistema de saúde e em casa.

No segundo semestre, o Brasil receberá líderes de diversos países para a segunda edição do evento Nutrition For Growth no Rio de Janeiro, cidade-sede dos Jogos Olímpicos de 2016.

Chefes de estado e lideranças internacionais se reunirão aqui para reforçar o compromisso em diminuir todas as formas de desnutrição - e o aleitamento materno deve ser parte disso.

O Brasil já firmou esse compromisso ao incentivar a amamentação.

Agora a experiência brasileira pode motivar outros países a fazer o mesmo e incentivar o mundo todo a se comprometer com um futuro melhor para crianças, mães e famílias independentemente do lugar onde elas vivam.

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