OPINIÃO
26/03/2014 15:35 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:16 -02

A república do chumbo grosso

Mais uma vez a polícia extrapolou a medida e protagonizou um episódio vexaminoso de violência. Tudo por causa de meia dúzia de baseados.

Da pior maneira possível vi a minha cidade se tornar centro do noticiário nacional na noite da última terça. Mais uma vez a polícia extrapolou a medida e protagonizou um episódio vexaminoso de violência. Tudo por causa de meia dúzia de baseados.

Depois de cinco alunos presos por uma quantidade ridícula de porte da droga, numa ação assustadora que movimentou até a tropa de choque, minha timeline do Facebook se dividiu em dois grandes grupos: aqueles que querem "sentar a borracha" nos estudantes ("vagabundos", "maconheiros" e correlatos) e aqueles que, com razão, querem garantir a desmilitarização da universidade.

O professor Paulo Pinheiro, diretor do Centro de Filosofia e Humanas, aonde aconteceu a ação da polícia, já resumiu em sua página do Facebook o horror e a violência sofrida pelas pessoas que estavam no local, mas eu questiono, caro amigo que defende a vigia militarizada do campus: você quer mesmo a polícia lá dentro? Sabe quais seriam as consequencias desta escolha?

Frequentei durante alguns anos a UFSC, ora como estudante ora como cidadão, e, de fato, há maconha na universidade. Há uso de maconha entre os estudantes e, vejam que loucura, há alguns que até fumam dentro do campus. Há também os que não fumam. Há alunos religiosos na universidade (com direito a grupo de leitura bíblica). Há professores ateus. Há professores que gostam da ideia da privatização do ensino. E há alunos contra isso. E dentro desses tantos haveres, não há espaço para a polícia por um motivo que ficou claro na última terça: a polícia não dialoga. E onde não há diálogo, não há o exercício do que acho que deveria ser a missão de todas as universidades: refletir, debater e tentar solucionar os problemas que incidem sobre este caldo de diferentes opiniões.

Quando um delegado, após entrar em um campus federal, vai a público para afirmar que a reitora da universidade quer transformar aquele espaço numa "república de maconheiros" é um sinal muito grave de que há algo de muito errado nesta história. Não foi uma simples ação policial com o intuito de prender grandes barões da maconha e impedir a proliferação de viciados: foi uma demonstração gratuita de poder, um recado claro de que "se não rezar por esta cartilha, vai ter chumbo grosso". Na véspera do aniversário do golpe de 64, torço para que isso não seja verdade.

A ideia foi repudiada pela reitora Roselane Neckel (que em outra situações já foi a favor da polícia dentro do campus, não esqueçamos) e pelos professores que estiveram presentes. Os alunos também estão fazendo a sua parte, protestando e exigindo mais explicações. Resta agora "juntar os cacos" e se questionar sobre o que realmentre está por trás do episódio: a maconha, essa droga assustadora, ela é a causa dos problemas da universidade? A ação policial desmedida (ilegal?) é a solução, caso este seja um problema? O medo do consumo de drogas, dentro ou fora da universidade, é resolvido e combatido com maior eficácia usando a violência policial?

É melhor que estas respostas apareçam antes que a polícia queira solucionar o problema sozinha.