OPINIÃO
30/04/2015 16:11 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Sua filha ainda usa fraldas?

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Noite de terça-feira. Carro estacionado. Madalena, a filha mais velha, pede que a solte da cadeirinha. Já passou da hora de dormir, para ela e para mim. Há pouco movimento na rua e impera uma atmosfera que precede a madrugada quente, aquela lombra de existir, o bafo morno no ar e a certeza que ou você liga o ventilador ou padecerá de suadouros terríveis precedidos por horas de rolagens insones na cama quando for dormir.

Carrego ela na colo por dez metros, entramos na farmácia. Duas atendentes discutem qualquer assunto desapaixonadamente no fundo, mal olham para nós. Me dirijo à gôndola das fraldas, procuro o tamanho P. É que num lapso de organização nós permitimos que todo o planejamento doméstico desmoronasse quando, após o banho de Catarina - a filha recém-nascida - nos demos pela falta de fraldas limpinhas. Me restou sair para comprar, acompanhado da fiel escudeira Madá, carregando a chupeta e seu dragãozinho de pelúcia.

Nossa presença é notada conforme aproximamos. Seguem observando de longe. Fingimos naturalidade ao casualmente procurar pelo produto certo.

- Ué, você ainda usa fraldas? - pergunta uma das moças, fazendo aquela voz imbecil que algumas pessoas adotam ao conversar com crianças. Sinto uma gota de suor esverdeado descer por toda a extensão das costas.

- Você falou comigo? - respondo, tentando fazer uma gracinha ao mesmo tempo em que escondo o ódio, pois sei que a pergunta foi direcionada à pequena.

- Não, é com a menininha mesmo. - Ri.

- Ela usa sim, mas hoje viemos comprar para a irmãzinha recém-nascida. - Arrependo da justificativa desnecessária no instante seguinte, ao mesmo tempo em que disfarço os espasmos pré-bifurcação da língua.

Pegamos o pacote, Madá faz questão de carregá-lo até o caixa, equilibrando com a pelúcia, feliz da vida e alheia à tensão que acometeu seu pai. A outra funcionária, com expressão mais simpática, se encaminha até o balcão, nos recebendo com um sorriso sincero.

- Oi, princesa, tudo bem? - Essa não adota o tom imbecil na voz, parece realmente simpática. - Você já não está muito grandinha para ter chupeta?

Cólicas descomunais atravessam o abdôme, as unhas escurecem, ao mesmo tempo em que crescem alguns centímetros, afinando na ponta. Com a voz levemente modificada, pendendo para o gutural, estendo o braço, procurando mudar de assunto:

- É no débito.

Compra finalizada, tudo dentro do esperado. Pego a filha, as compras e me despeço da atendente. Estou quase na porta quando ouço:

- Você não é muito grandinha para ir no colo do papai, não?

Sigo em frente, procuro fechar os olhos para aliviar o descontentamento, mas percebo que já não tenho pálpebras. Evito olhar para trás, ignorando a última interação.

No caminho do carro, penso melhor: dessa vez você vai enfrentar alguém do seu tamanho, querida. Prometi que não me entregaria à raiva novamente, mas as duas intrometidas precisavam de uma lição. Deixei Madá na cadeirinha para não traumatizá-la.

Se tem uma coisa que eu não suporto é ver minhas filhas serem desrespeitadas. Pior ainda é quando resolvem direcionar a cagação de regra para ela, num ímpeto de covardia, já que obviamente ele não vai conseguir dar o chega pra lá merecido.

Adentrei o estabelecimento já quase integralmente mutado. Pele viscosa, oleosa, alternando entre azul e verde escuro de acordo com a luminosidade. O tempo que levei para cruzar a porta de vidro foi suficiente para que a língua se transmutasse em dois tentáculos, ocupando todo o espaço que outrora foi uma boca. Dois outros apêndices móveis semelhantes, igualmente populados por ventosas, protuberavam nas antigas maçãs do rosto. Conforme andava, deixei um rastro de cabelos, que caíam conforme a cabeça crescia, gelatinosamente, pendendo um pouco para trás.

A simples visão da forma primordial pode levar as pessoas à demência, e com as duas antagonistas não foi diferente. Antes que elas pudessem gritar, uma nuvem de partículas escuras se espalhou pelo ambiente. Olhos e tentáculos abriram suas cavidades, carregando as almas humanas em uma espécie de vortex, consumindo suas reles existências como um todo, tornando-as simplesmente inexistentes na ineroxável trama do passado, presente e futuro. O que ocorreu ali não poderia ser caracterizado como um crime, afinal as vítimas nunca existiram, não é mesmo?

Já de volta à forma humana, cheguei ao carro e sorri para Madá, que me esperava ingenuamente e alheia ao que acabara de ocorrer. Ficou feliz em me ver.

Quem mandou mexer com uma entidade ancestral adepta da criação com apego?

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