OPINIÃO
08/05/2015 19:36 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:03 -02

Quem é você na fila do like?

Engana-se quem pensa que o like é inofensivo. Arma poderosíssima, mas também reflexo de algo que nós perseguimos e almejamos desde sempre: a aceitação. Por meio dela formamos grupos, facções, alianças, amizades e nos permitimos cair no efeito manada. Abandonamos a decisão consciente e entramos na lógica da maioria. O instinto é deixado de lado por conta de um micro status-quo. Tipo maria-vai-com-as-outras do novo milênio.

Um dos segredos dos bons oradores, ao enfrentar uma plateia sozinho, é procurar por aliados silenciosos em meio aos desatentos. Nada mais comum do que ser confrontado por gente que preferia estar em qualquer outro lugar ao invés de te ver e ouvir. Quem está sob os holofotes precisa focar na conquista pessoa a pessoa, quase individualmente, na maioria das vezes perdendo feio para sono, desinteresse, preocupações externas e smartphones dos presentes.

Sempre haverá, entretanto - a não ser que seu conteúdo seja realmente ruim -, alguém prestando atenção, conectado de fato com o que está sendo dito e exposto. Normalmente é aquela pessoa que ri das piadas, que reage ou acena a cabeça em resposta às perguntas retóricas, que olha no olho. Apoie a confiança nessa pessoa e você vai se sentir muito mais seguro para falar. Eventualmente outros entrarão nesse mesmo modo, tornando-se valiosas aquisições para sua coleção particular de amigos silenciosos.

Ou, como gosto de chamar, "curtidas analógicas".

A curtida é como esse sorriso em meio à plateia sonolenta. É a versão digital do aceno com a cabeça, da piscadinha, da leve cutucada de cotovelo, do olhar cúmplice, do joinha. É a expressão de concordância silenciosa de alguém que não quer se expor, mas assina embaixo do que você acaba de dizer.

Engana-se quem pensa que o like é inofensivo. Arma poderosíssima, mas também reflexo de algo que nós perseguimos e almejamos desde sempre: a aceitação. Por meio dela formamos grupos, facções, alianças, amizades e nos permitimos cair no efeito manada. Abandonamos a decisão consciente e entramos na lógica da maioria. O instinto é deixado de lado por conta de um micro status-quo. Tipo maria-vai-com-as-outras do novo milênio.

Curtida é prova de endosso, mas da mesma forma que veio, pode ir embora, se você se der mal. Lembre-se que a luz, os olhos e a atenção estão em você, não nos curtidores. O like é a plateia do orador, mas ouse errar por um segundo e todos abandonarão o teatro na mesma hora. Porque ninguém mais se comprometeu a subir no palco, só você. Essa briga é sua.

Aliás, até dez anos de idade eu nunca havia participado de uma briga mais, digamos assim, séria. Não sou desses, continuo pacífico, mas naquele recreio dificilmente conseguiria escapar. Estávamos no tanque de areia do fundo da escola, o oponente ali, nós dois frente a frente. A briga era desequilibrada, sem motivo, mas a maioria estava comigo. Atrás dele, dois ou três incentivavam. Ao meu redor, pelo menos cinco. Olhei em volta procurando apoio, vi um dos colegas mordendo o lábio inferior, a adrenalina correndo solta: ele queria ver sangue e apostou suas fichas em mim. A cabeça balançando de cima para baixo, repetidamente, acenando, confirmando, focado em sua aposta. Minha interpretação para aquele olhar era "estou do seu lado, vá em frente". Hoje sei que uma tradução mais fiel seria "quero ver porrada, quero ver vocês romperem os limites da violência nesse playground e passarem o resto de seus dias na diretoria".

Era o incentivo que faltava. Dei o primeiro chute, vi o inimigo aparar facilmente com as mãos. Ele também estava nervoso, mas riu, desdenhando a tentativa, porque debochar também conta pontos. Meus apoiadores, em uníssono, vaiaram, não sem vacilar na confiança depositada. Senti medo, um pouco de apanhar, muito mais de perder o prestígio. Quem ousaria arregar e colocar em jogo toda a reputação conquistada com os curtidores analógicos? Fui pro pau.

Há todo um microcosmos do like incorporado à vivência cotidiana, que se associa às relações humanas que construímos. O Facebook é, afinal, nosso playground depois de adulto, só que não tem bedel, professores e diretores para chamar papai e mamãe a uma boa conversa. É o ambiente propício para manter acesa a chama passivo-agressiva de amizades mal-construídas. Nos tempos do like você não precisa se expor e entrar em embate direto, basta curtir comentários antagônicos de terceiros apenas para enfurecer os segundos. Chegamos ao supra-sumo da indiretinha em redes sociais: você passa o recado apenas com o polegar, uma única dedada.

Não fiquei nada feliz com a briga do tanque de areia. Perdi todo o crédito conquistado a duras penas porque, no fim das contas, apanhei. Bem que eu poderia ter sido espancado, isso ao menos renderia assunto nas rodas de conversa, mas o nocaute veio de um descuido e o oponente simplesmente conseguiu empurrar minha cabeça contra uma barra de ferro, derrubando-me no chão junto com o que havia sobrado de amor-próprio. Um a um os likes foram sumindo, e terminei como aquelas tristes pessoas que postam sem parar e nunca recebem uma curtida sequer.

Hoje o menino é um dos meus melhores amigos, fizemos as pazes e ele nem deve lembrar do ocorrido, mas eventualmente eu apareço nas postagens dele só para curtir silenciosamente os comentários de seus desafetos. Tipo thug life mesmo. Sou foda.

Não preciso nem dizer que é obrigatório dar like nesse texto, né?