OPINIÃO
24/02/2016 11:57 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Parem com as panelinhas!

Entenderam porque não gosto muito de panelas? Pois é, cheguei em casa e estava todo mundo do prédio ali, unido, batendo panela. Desculpem, não é pra mim. Não concordo, não acho graça, não acho útil. Pra ser sincero, acho uma bosta, mas se você gosta, não me leve a mal nem me xingue. Até acho bonita essa união.

DAJ via Getty Images
Image of Right Hand Holding a Frying Pan, High Angle View

Não façam isso comigo. Panela me deixa triste. Parece panelinha, sabe? De grupinho? Me remete a uma época na escola em que todos os grupos estavam formados e eu não encaixava em nenhum. Foi logo no primeiro ano do ensino médio. Mudei de escola e por dois meses fiquei em um lugar que era um inferno. Depois me mudei para uma muito mais legal no Butantã, mas essa especificamente era uma droga. É que eu não sabia jogar futebol e tinha vergonha de falar com as meninas. E se você não soubesse jogar futebol ou falar com as meninas, você simplesmente não tinha amigos. Pra minha sorte, eu tinha. Meu único amigo era o Raul, o metaleiro rico.

Uma vez o Raul me convidou para jogar videogame na casa dele. Ele tinha um Nintendo 64 e jogávamos Mario Tennis. Ele não era bom, nem eu. Mas uma vez eu ganhei dele e ele ficou muito bravo. Pra ser sincero eu tinha medo do Raul. A mãe dele trouxe lanches pra gente. Pão francês com requeijão e peito de peru. Estava gostoso, mas ele não comia em cima do pratinho. Claro, estávamos jogando videogame sentados na cama, não tinha mesa. Mas ajeita o pratinho ali, sei lá. Aliás, ele estava deitado. Por que ele estava deitado? Tinha um motivo especial, só não consigo lembrar. Bom, só sei que Raul comia sem colocar o prato embaixo e vocês sabem como pão francês faz sujeira. Eu, mesmo com o pratinho equilibrado nos joelhos, tinha dificuldades. Do lado dele ficou tudo sujo, mas eu continuei jogando o Mario Tennis como se nada estivesse acontecendo, meio constrangido. Tem vezes que nos abstemos de apontar erros para não acabarmos nós mesmos expostos, né? Vocês sabem. A mãe dele entrou novamente, pegou os pratos. Deu um minuto e ela voltou com a vassoura. Varreu tudo sem falar nada. Ele continuava vidrado no jogo.

Chegou a noite, me convidaram para jantar. Aceitei porque né? Comida a gente não recusa, mesmo se estiver na companhia de um possível psicopata. E eu gosto de comida, vocês devem saber. Só que a mãe dele havia colocado apenas dois lugares na mesa. Achei que ela e a irmã já teriam jantado, mas na verdade comeram na cozinha. No mínimo estranho. E até um pouco exagerado o fato de terem servido toda a comida em travessas. Eu não tenho paciência para colocar as coisas em travessas. Talvez você não saiba, mas essa vida de adulto em que é obigatório ter que lidar com a própria louça te deixa um pouco mais conservador nessa coisa de sujar travessa. Aqui a gente serve tudo na panela. Já peço desculpas de antemão se um dia você me visitar, porque é nela que vou servir.

Lembrei. O Raul tinha um rabo. Era um negócio na coluna que por algum motivo ficava mais longa do que deveria e ao invés de um cóccix normal ele tinha um rabinho. Doía pra caramba, ele dizia. Quando operou fui visitar, por isso ele ficava sempre deitado. Claro que ele tinha vergonha da condição e claro que a história vazou (não fui eu, juro) e ele virou motivo de chacota na escola inteira.

É dura a vida dos excluídos nas escolas, mas é ainda mais duro quando você vira referência. Eu sabia bem, pois sempre fui o gordo. "Ela tá ali, do lado do gordo". Mas com o Raul pegaram muito pesado. Por isso que eu acho que ele tinha tanta raiva. A gente sempre foi motivo de piada, de bullying e o cacete, aí começamos a descontar nos mais fracos para conseguir entrar na cadeia alimentar. E acaba virando opressor com auto-estima de oprimido. Se um dia rolasse um Tiros em Columbine naquela escola tosca pode procurar o Raul porque foi ele.

Ele mudou de escola, eu mudei de escola, perdemos contato. Não totalmente, na verdade retomamos, mas explicarei mais à frente para não perder o fio da meada. Enfim, foi um período difícil pra mim. Pro Raul foi pior, mas sempre que penso em panelinha lembro desses grupinho, lembro de ficar excluído e lembro que quando eu não tinha o Raul acabava tomando o lanche sozinho, e vagava pelo pátio no recreio para não parecer tão forever alone. Mas parecia do mesmo jeito.

Eu e ele tínhamos pouco em comum fora a solidão, e é bem quando estamos sozinhos que entendemos a importância de fazer parte de um grupo. Nada como sentir que integramos um todo. Pelo todo abrimos mão de algumas opiniões, de algumas ideologias, ou mesmo do bom senso. O que importa é o grande organismo que se forma nos corações batendo em uníssono. Tudo o que o grupo acha uma merda você tem que achar uma merda. Tudo o que o grupo gosta você tem que gostar. Em contrapartida, eles sempre estarão lá pra te defender, independente da merda que você fizer. Você pode ser um bosta, mas se aceita as regras do grupo você vai ser protegido. Pode até roubar merenda que ninguém vai se importar.

É que o mais legal de um grupo é poder excluir os outros. Não faz sentido ser um grupo em que todos são bem-vindos. Não tem química.

Entenderam porque não gosto muito de panelas? Pois é, cheguei em casa e estava todo mundo do prédio ali, unido, batendo panela. Desculpem, não é pra mim. Não concordo, não acho graça, não acho útil. Pra ser sincero, acho uma bosta, mas se você gosta, não me leve a mal nem me xingue. Até acho bonita essa união. Tem uma coisa meio de ódio, mas todo grupo tem. Quando é pra lidar com os outros, os de fora, o grupo tem ódio mesmo. Mas é legal quando estamos entre os nossos, mesmo falando groselha. Mesmo precisando apoiar umas coisinhas inofensivas como, sei lá, ditadura militar e castração química.

Estou escrevendo tudo isso porque semana passada o Raul me adicionou. Não teve conversa, mensagem, nem like em foto rolou. Só apareceu ali, eu aceitei e seguimos a vida. Mas não é que hoje, depois de sei lá quantos dias, ele postou um vídeo? Sim, e era um vídeo dele com alguns amigos. Todos batiam panela.

Fiquei feliz pelo Raul. Eu continuo aqui, forever alone. Ele encontrou o grupinho dele. Fiquei feliz de verdade. Mas hoje, só hoje, juro, eu me dei ao luxo de comer a merenda da minha filha. Espero que ela não sinta falta.

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