OPINIÃO
10/02/2015 18:25 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:53 -02

No cassino da vida criar filho é jogo de azar

Colocamos todas as fichas na criação com apego, e é claro que isso nos expôs a todo tipo de opinião contrária da família, dos amigos, dos semi-conhecidos, de alguns médicos e até dos palpiteiros desconhecidos. Porque todo mundo sabe cuidar do seu filho melhor do que você. Vocês estão criando um monstro, disseram.

A primeira vez que entrei com minha mulher no estabelecimento, confesso, estávamos um pouco perdidos, para não dizer desesperados. Cabelos sem lavar, corpos sem dormir e enormes olheiras estampadas no rosto. Buscávamos uma resposta para a pergunta da vez, como poderíamos criar uma filha e levar uma vida normal?

Carregávamos o pequeno pacote transbordante de vida no hall do cassino e, sem saber o que fazer com o saco de fichas coloridas - "para apostas", disseram - que nos entregaram na entrada, procurávamos ansiosos por uma figura conhecida. E elas estavam logo ali, sorridentes e sedentas por um pouco de nossa atenção, preparadas para mostrar como a vida funcionaria agora que uma nova fase se iniciara. Em suma, estavam ali para nos ensinar a apostar.

Tia Zuzu, que veio do interior, logo se manifestou com o primeiro passo a distanciá-la da pequena multidão de parentes, amigos e semi-conhecidos aglomerados. Envolveu os três - a mim, mulher e filha - em um só abraço e, sem soltar, nos conduziu até a mesa de blackjack.

Aposta ali, aposta ali, dizia ela extasiada, apontando para a caixinha adornada com o desenho de um berço e uma pequena cartilha repousando ao lado. Pegamos o livreto para ler - não precisa ler, esganiçava ao fundo, mas não a ouvimos - e assim nos deparamos com uma breve explicação sobre como deveríamos deixar a bebê chorar no berço até finalmente dormir e, em hipótese alguma poderíamos atendê-la - ou ela nunca mais vai dormir sozinha de novo, a tia explicava ao fundo.

Anda, menino, aposta, incentivava Zuzu. Mas tia, tentei argumentar, como é que eu vou saber que essa é a melhor maneira de colocar minha filha pra dormir?

Ora, isso é um cassino, explicou. É jogo de azar, só colhe o fruto depois que apostar. Para o bem ou para o mal, só tem como ver o resultado depois. Mas é por isso que nós, muito mais experientes que vocês dois, estamos aqui. Para orientar. E com um largo sorriso estendeu o braço direito para a multidão atrás dela, preparada para dar conselhos em seguida. Alguns mais afobados gritavam dali mesmo: corta a amamentação; aposta vintão no leite em pó; palmada de amor não dói; enfia ela na creche logo.

Apertei a mão de minha mulher, receoso. Fugimos para baixo de uma mesa de pôquer e, segurando nossa filha no colo, chegamos a uma conclusão aparentemente arriscada. Não seguiríamos qualquer conselho que não condizesse com nossa própria estratégia de jogo. E assim colocamos nossa própria viseira, óculos escuros e anunciamos à parentada: quem dá as cartas por aqui somos nós.

Assim apostamos onde bem entendemos. Amamentação em livre demanda, cama compartilhada, tiramos a bebê da creche e nunca encostamos a mão nela no que se refere a palmadas.

Colocamos todas as fichas na criação com apego, e é claro que isso nos expôs a todo tipo de opinião contrária da família, dos amigos, dos semi-conhecidos, de alguns médicos e até dos palpiteiros desconhecidos. Porque todo mundo sabe cuidar do seu filho melhor do que você. Vocês estão criando um monstro, disseram.

Um belo dia, depois de muito resmungar, perceberam que na verdade ela ia muito bem. A maioria - com exceção, talvez, de Tia Zuzu, que ainda não se recuperou de nossa recusa em batizar a menina - percebeu que alguma coisa nós fizemos direito.

Sorte de principante, disseram os apostadores mais antigos.

Pois bem, agora nossa segunda filha está prestes a nascer.

E dessa vez nós sabemos jogar como nunca.

Façam suas apostas.

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