OPINIÃO
06/03/2015 17:22 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Não seja um babaca, não seja um babaca, não seja um babaca...

Descobri hoje no trabalho, por acaso, que existe um Dia Internacional do Homem, em 19 de novembro. No Brasil a data é celebrada em 15 de julho. Obviamente ninguém dá muita atenção. Lembro de uma época, ainda criança, em que sofri verdadeiramente com a simples existência do Dia Internacional da Mulher. Achava a data injusta por acreditar que o fato de não haver uma contrapartida dedicada a nós, homens, na verdade desequilibrava a balança da igualdade de gênero. Como se estivesse equilibrada e pudesse ser medida por isso.

Descobri hoje no trabalho, por acaso, que existe um Dia Internacional do Homem, em 19 de novembro. No Brasil a data é celebrada em 15 de julho. Obviamente ninguém dá muita atenção.

Lembro de uma época, ainda criança, em que sofri verdadeiramente com a simples existência do Dia Internacional da Mulher. Achava a data injusta por acreditar que o fato de não haver uma contrapartida dedicada a nós, homens, na verdade desequilibrava a balança da igualdade de gênero. Como se estivesse equilibrada e pudesse ser medida por isso.

Certa vez deu a maior confusão naquele fatídico recreio em que as meninas riam da minha cara por terem um dia só para elas e nós, não. Fui provocado! Me senti diretamente prejudicado, sabe? Como é que poderíamos ser furtados de uma celebração pela existência masculina?

Me revoltei, é claro, e perante todos os alunos - ali na cantina - conclamei a população discente à luta pelos direitos iguais e denunciei a opressão feminina - dito sexo frágil - frente os pobres homens. Eu também queria ter o direito de receber flores murchas na porta do escritório e ouvir músicas toscas do Erasmo Carlos em nossa homenagem - porque o Dia da Mulher para mim se resumia mais ou menos àquilo e a uma bajulação sem propósito, não tinha nada a ver com luta por direitos. Ânimos se inflamaram, e por pouco não descambei para o discurso de ódio.

Fui trazido à razão.

Nesse dia que aprendi uma preciosa lição, pois antes que eu pudesse continuar a dizer mais besteiras a professora me pegou pela mão carinhosamente, olhou nos meus olhos e repetiu as quatro palavras que carrego até hoje comigo, como um mantra: "não seja um babaca".

Desde então procurei ser uma pessoa melhor, mas não tem como negar: sou machista. Machista pra cacete.

Porque não é uma coisa que a gente larga assim fácil. Machismo, assim como racismo e homofobia, é doença. E de uma maneira muito semelhante ao alcoolismo, você precisa se policiar constantemente e realmente acreditar que é capaz de viver sem aquilo. Precisa contar os dias que está livre desse negócio e, se possível, ter alguém para dividir cada conquista diária. Melhor, alguém para dizer e pedir ajuda quando está prestes a ter uma recaída. Alguém que possa lembrar você de repetir o mantra sempre que necessário.

Não seja um babaca, não seja um babaca, não seja um babaca.

Mas a partir do momento que você percebe o problema, é muito mais fácil se policiar, manter a auto-crítica viva e corrigir um erro antes que as coisas descambem de vez para a misoginia doente.

O que mais dói é ver rapazes - frequentemente inteligentes - bem-educados, formados, com bom repertório cultural, ou até mesmo de esquerda, ou alguns com pensamentos libertários que, quando menos se espera, soltam uma pérola machista (me incluo no grupo). É por isso que nós homens estamos todos acometidos por essa doença que não tem cura, mas tem tratamento.

Não seja um babaca, não seja um babaca.

Somos empresários, artistas, tomadores de decisão, políticos, faxineiros, líderes religiosos, donos de emissoras de televisão, influenciadores, engenheiros, advogados... Mas o pior de tudo é quando negamos a infecção, quando ao invés de tentar reverter a situação, entramos na ofensiva. Aí não tem jeito, é ainda mais difícil de tentar reverter.

Eu só lamento por esses caras que, na infância, não tiveram uma professora - ou mesmo uma mãe, irmã ou tia - para segurar carinhosamente em suas mãos e ensinar o mantra.

Não seja um babaca.