OPINIÃO
19/05/2015 18:04 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Livrospectador: a TV aberta dos livros

Sucumbi de vez aos livros digitais. O problema é que, agora, me vejo dando preferência apenas aos livros acessíveis pelo serviço, deixando de ler o que realmente queria - que infelizmente só é possível consumir via compra individual. Ao invés de leitor, me tornei um livrospectador, relegado a uma série de leituras que não escolhi.

Sucumbi de vez aos livros digitais.

Alguns amigos dizem que dificilmente se acostumariam, que preferem e gostam de passar por toda a experiência de segurar, cheirar e sentir o livro físico. Já fui desses, mas após mudar de casa quatro vezes em quatro anos percebi o quanto é custoso - para as costas, porque eles pesam pra caramba - manter tantos livros em exposição na estante da sala.

Durante esse período fui bastante feliz comprando e-books on demand, no que chamo de pay-per-view, ou melhor, pay-per-read da compra individual. Recentemente aderi ao serviço Unlimited, da Amazon, que é tipo um Netflix de livros. Paga-se a mensalidade para ganhar acesso a todos os títulos da biblioteca digital. Funciona, facilita muito e ajuda no bolso. Estou feliz, mas não substitui a compra individual esporádica, já que não dispomos do catálogo completo da Amazon. Por mim é até justo, uma vez que Netflix também carece de infindáveis filmes e séries para ficar ideal.

O problema é que, agora, me vejo dando preferência apenas aos livros acessíveis pelo serviço, deixando de ler o que realmente queria - que infelizmente só é possível consumir via compra individual. Ao invés de leitor, me tornei um livrospectador, relegado a uma série de leituras que não escolhi. Não é uma dinâmica particularmente ruim, pois pelo menos posso ler quanto, quando e como quiser. Podia ser pior.

Ao invés de um Netflix de livros, poderia ser uma "TV aberta" de livros, já pensou?

Títulos como "Lolita", por exemplo, só seriam lidos depois das vinte e duas horas, ainda assim cortariam parte do enredo para não chocar a família brasileira. Claro, seria intercalado por intervalos comerciais bem no clímax de cada capítulo.

Dependendo da hora em que for utilizado, o acesso a diferentes títulos relacionados àquela hora e grade específica estará livre. Por exemplo, digamos que você é uma dessas pessoas que acorda cedinho, tipo seis da manhã. Nesse caso só poderá ler os livros do Padre Marcelo. Por sorte ele tem uma penca de títulos, então morrer de tédio não é uma opção.

Ainda de manhã, tipo umas nove, somente livros de receita como "100 Receitas Preferidas" da Palmirinha, ou "As 101 Melhores Receitas Brasileiras", por Ana Maria Braga. Nada de Jamie Oliver, pois ele só está liberado na biblioteca a cabo - que é cara, mas há sempre a opção de fazer um combo com internet e telefone.

O dia correria assim, e você só conseguiria voltar a ler determinado título caso viesse a ligar o e-reader outro dia na mesma hora e no mesmo canal. Assim, uma gama de preciosidades literárias surgiriam ao livrospectador passivo, apenas consumindo o que alguém decidiu que ele poderia ter acesso.

De um modo geral serão obras de grande apelo popular, na expectativa de cada emissora em conseguir mais audiência. Eventualmente obras clássicas da literatura estarão disponíveis, mas não há qualquer liberdade de escolha real para quem está do lado de cá do livro digital.

Dessa forma seremos conduzidos pela programação. Na sessão da tarde, por exemplo, teríamos "O Jardim Secreto", "Matilda" e "Como treinar seu dragão" (um por dia, é claro, mas reprisam com frequência).

Na quarta-feira a noite tem "Fala, Galvão!" e em algumas madrugadas os que gostam de luta encontrarão facilmente "Vitor Belfort - Lições de garra, fé e sucesso". No entanto, quem tem o pay-per-read consegue iniciar a leitura antes e pode te contar o final. Quem mandou depender da biblioteca aberta?

De vez em quando teremos os especiais. Um exemplo foi nesse começo de ano, quando liberaram "Vale Tudo - O Som e a fúria de Tim Maia". O problema é que o livro era longo demais para a faixa de horário em que entraria, por isso soltaram uma versão editada, reduzida e alterada com novos depoimentos bizarros para agradar o Rei.

Os livros blockbusters só aparecem depois do novelão, então basicamente você só vai poder ler Sidney Sheldon, Jogos Vorazes e Dan Brown depois que finalizar os clássicos da literatura romântica "Júlia - Lições de Sedução", "Flor do Pântano", "Deusa Cativa" e "Signo do Pecado".

O melhor de tudo é que acessar outros canais com programações distintas é totalmente possível, mas um deles terá sempre o monopólio geral e os melhores livros, restando aos outros liberar acesso a autores de livros que nunca ouvimos falar. Os jornais e redes sociais comentarão sobre o primeiro livro com beijo gay na programação aberta, a bancada evangélica vai boicotar o autor. Alguns tentarão proibir o livro. Pais e mães irão discutir sobre o período deveras prolongado que seus filhos passam na frente de um livro digital. Quem regula a propaganda dos e-readers?

Fato é que esse pilar da sociedade que é a família irá se reunir todo domingo para ler o que há de mais edificante no Show da Vida: "A Fantástica volta ao mundo", de Zeca Camargo, "Me Leva Brasil - A fantástica gente de todos os cantos do país" de Maurício Kubrusly e, claro, "Medida Certa - Como chegamos lá".

Tal modelo de negócio tende a se popularizar, os botecos pipocarão de discussões sobre a qualidade dos livros, sobre qual canal manipula mais a população, gerando grande procura por títulos secretos, obscuros, alternativos. Não duvide, pois em determinado momento a biblioteca aberta estará tão inserida na sociedade, mas tão inserida, que os moderninhos hipsters de verdade dirão: "não leio, sequer tenho livros em casa".