OPINIÃO
09/06/2015 15:29 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:25 -02

Jesus já voltou, você que não percebeu

Era gay, machão e infeliz. Sofria de depressão, tinha ataques de pânico e, embora verdadeiramente inteligente e letrado em diversas áreas do conhecimento, faltava-lhe discernimento e auto-crítica para curar essa doença. Homofobia é uma mutação do vírus do machismo e, acreditem, mata. Seria passível de dó e compaixão, não fosse um agente repressor.

Tempos atrás, em um lugar que trabalhei, havia um colega muito do machão. Tão machão, mas tão machão, que não me restavam dúvidas sobre sua orientação sexual. Era gay. Talvez não soubesse, ou admitisse, mas era gay, sim. Mesmo assim, namorava garotas e nutria profunda repulsa por qualquer aproximação masculina. Dos amigos que tinha, evitava o contato físico a todo custo.

Reiteradamente sua masculinidade, a seu ver, era posta a prova. Por isso via uma necessidade constante em se auto-afirmar e externar a insatisfação com o amor homoafetivo. Qualquer variação de sua confortável vida heteronormativa era aberração e precisava ser combatida.

Curioso é que, certa vez, ele foi avistado em um banheiro público com a mão na piroca de outro rapaz. Aliás, esse aí também era heterossexual. Ali era como uma zona neutra: entre para fazer um xixizinho e ganhe uma punheta. De brinde, continue heterossexual. Pergunte a ele se o ocorrido o categorizaria como gay e ele negaria. Pois por mais prazer que aquele momento proporcionasse, provavelmente estaria assolado pela culpa e pelo ódio a si mesmo nos próximos dias. Era uma aberração dele mesmo, pregando o contrário do que fazia, sofrendo com o que sentia. Não me espantaria se descobrisse que ele viria a se auto-punir nos próximos dias. Não me espantaria se descobrisse que ele viria a estourar uma lâmpada de mercúrio na cabeça de alguém.

Era gay, machão e infeliz. Sofria de depressão, tinha ataques de pânico e, embora verdadeiramente inteligente e letrado em diversas áreas do conhecimento, faltava-lhe discernimento e auto-crítica para curar essa doença. Homofobia é uma mutação do vírus do machismo e, acreditem, mata. Seria passível de dó e compaixão, não fosse um agente repressor.

Algumas pessoas nascem gays mas, ao crescer em um ambiente repressivo, acabam reprimindo a homossexualidade e sentindo raiva dela. E da dos outros também. Aliás, há quem diga que isso é muito comum entre os homofóbicos. A culpa, e não tenho qualquer pudor em compartilhar um clichê - já que tenho profunda convicção de que é verdade - é da sociedade machista, sim. Nada me tira da cabeça que todos temos perfeita capacidade de sentir prazer com qualquer outra pessoa, desde que o cérebro esteja de acordo.

Arrisco dizer que somos perfeitamente capazes de sentir prazer com qualquer pessoa, em termos de mecanismo do corpo e do cérebro. Quem somos nós pra dizer como nasce o amor? Pode ser genético, pode ser por escolha, pode ser pela circunstância. E daí? Será que, nas condições ideais, poderíamos todos viver na pansexualidade? Arrisco dizer que sim. E toda essa baboseira heteronormativa cairia por terra. Foda-se o que a Bíblia diz, nossa sociedade está cansada de cometer tantos crimes por conta de interpretações imbecis de livros velhos, seja qual for. Orgulhar-se do que se é como uma forma de protesto, de afirmação de seus direitos e celebração de sua existência.

Como é que podemos nascer com um interruptor que, em algumas pessoas, está ligado para um lado e em outras, para outro? Tesão não tem a ver apenas com procriação. Mamíferos, em geral, fodem com o mesmo sexo - por prazer ou por amor - desde sempre. E se não fosse a sua cabeça, eu tenho certeza que você, homem, seria perfeitamente capaz de gozar com o estímulo correto, seja de outro homem ou de uma mulher. Basta estar aberto para isso. Basta uma sociedade que não condene isso todos os dias.

Gozar com a mão alheia te torna gay? Não necessariamente, mas é possível que, em sua heterossexualidade, você tenha cada vez mais certeza do que gosta, do que não gosta, do que ama, do que não ama, se experimentar. E se por acaso você gostar, não há - ou não deveria haver - mal algum nisso. Torço para que meu colega pare de sofrer e consiga conviver com seus fantasmas, pois não é possível odiar tanto e frequentar banheiros públicos ao mesmo. É a fórmula do sofrimento. Talvez, enfim, ele não seja gay, mas qual é o grande problema em questionar a própria orientação sexual? Ele, embora seja o algoz de tantos, no fim é também uma vítima da mesma sociedade baseada em valores cristãos deturpados.

Curiosamente, ele ostenta uma tatuagem de Jesus Cristo nas costas. Não era evangélico. Sua família, católica, pouco praticava. Era só um cara que ele era fã, apenas isso, dizia. Realmente, quem é que não seria fã de alguém que pregou o amor e a tolerância? Que deu a outra face, que amava o próximo como a ele mesmo, que se sacrificou, morreu por toda a humanidade. Ainda que o tal Redentor seja apenas mitologia, não há como negar sua bela história.

Por falar nisso, os fundamentalistas tão preocupados em fiscalizar o toba alheio se encaixam perfeitamente nesse perfil do meu amigo. Eu não me espantaria se Eduardo Cunha e Marco Feliciano fossem avistados na zona neutra e saíssem de lá tão heterossexuais quanto antes. O ódio cego os impedem de ver que aquilo que sua religião prega de fato aconteceu: Jesus já voltou! Veio na forma de uma mulher trans que pregava mais amor, menos ódio, e foi crucificada. Apedrejada por vocês, que tanto esperaram seu retorno.

Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.

Amém.

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