OPINIÃO
30/09/2015 20:01 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Hoje não te encontrei em casa - 30 Noites de Ficção

Acordei procurando as gotinhas de água morna no piso laminado, como migalhinhas de pão, deixadas depois do banho para que eu pudesse te procurar, descobrir, encontrar.

Acordei procurando as gotinhas de água morna no piso laminado, como migalhinhas de pão, deixadas depois do banho para que eu pudesse te procurar, descobrir, encontrar na cozinha americana, lindo, derrubando migalhas de pão de verdade coladas, repousadas, emaranhadas em sua barba.

Você sorria com requeijão no dente e, num abraço quente, envolvido na toalha que ia ao chão, deliciava-se em mim com seu insaciável, inquestionável, insuportável apetite sexual, tantas vezes arruinando minha roupa do trabalho, cabelo, maquiagem em investidas carnais, selvagens, cálidas. Me tomava como sua, sem perguntar se eu queria, se estava a fim, se estava disposta.

Acordei com o silêncio da nossa casa depois de uma noite bem dormida, sem que você me acordasse de noite com seu videogame, com suas serenatas fora de hora, com o violão que você nunca aprendeu a tocar direito, mas que eu amava, admirava, emocionava.

Me arrastei pela casa vazia, entristecida por não ver uma única peça de roupa suja jogada no chão, nenhum tênis do futebol que você largava em qualquer lugar, fedendo um cheirinho tão seu. Tão nosso.

A tarde chegou, e eu lembrei que havia uma série de tarefas a serem realizadas. O quadro que você falou que ia pendurar quatro meses atrás e estava ali, atrás do aparador até hoje. Peguei o prego e o martelo, fiz eu mesma. E vou te dizer: ficou incrível. Mas sequei duas lágrimas ao lembrar daquele seu jeitinho condescendente que sorria, todo fofo, passava a mão na minha cabeça e não me deixava consertar nada.

Chegou a noite e eu não cozinhei de tanta saudade. Ah, se você estivesse aqui eu poderia estar cansada, adoentada, morta, mas tinha que preparar alguma coisa pra você. Adorava o seu jeitinho machão de não saber fazer nem tostex. De não lavar a louça. Pedi, meio culpada, aquele peixe com legumes do restaurante chinês ao lado que você odiava. Mas eu sempre amei. Assim como sempre amei você.

Chegou a madrugada e eu saí sozinha na rua, do jeito que você achava que uma mulher direita não devia fazer. Ri sozinha desse seu humor, todo turrão quando eu trabalhava até mais tarde, ou quando usava uma saia curtinha como essa que estou usando agora. Sem pudor, sem vergonha, sem calcinha entrei na primeira balada que vi e rezei um pai-nosso entre a oitava e a nona tequila, pedindo desculpas aos céus já que você sempre me disse que achava feio mulher bebendo.

Conheci um rapaz qualquer, não lembro o nome dele, mas levei pra casa e trepamos, fodemos, fizemos amor a noite inteira. E puta merda, foi demais. Só que no dia seguinte ele tomou uma ducha e saiu pingando gotinhas de água morna no piso laminado.

Antes de começar a derrubar migalhas por aí, botei ele pra fora, de toalha mesmo.

***

Segunda história do projeto 30 noites de ficção, uma coletânea de contos em tempo real. Para acompanhar o projeto, visite a página oficial.

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