Opinião

Existe vida social depois da paternidade

Meu estado natural de existência é deitado. Só de estar na horizontal em minha cama já é motivo para que o cérebro entenda que é uma deixa para o descanso, mesmo que sustentando uma semi-ponte enquanto tento me vestir a rigor.

Texto do projeto 30 Noites de Ficção

Tento fechar o botão da camisa, falta pouco menos de um palmo. Já estou roxo de puxar a barriga. Dou uma forçadinha, escuto um pequeno ruído muito semelhante a tecido rasgando, mas ignoro. Ufa, fechou.

Olho para o espelho me sentindo uma daquelas mortadelas penduradas por redinhas no mercadão. Subo as calças, há um grand canyon de barriga entre o botão e sua respectiva casa. Deito de costas na cama e faço uma semi-ponte com o corpo, me sustentando em três apoios: nuca, um pé, outro pé. Respiro fundo e solto todo o ar.

Por algum motivo penso em uma família de classe média tentando fechar a mala após férias na Disney. É quase a mesma coisa, mas pior, porque no meu caso não tem como tirar um Pumba de pelúcia e levar na bagagem de mão. Eu sou o próprio Pumba, de carne, osso e odores desagradáveis. Para tirar um pouquinho da bagagem extra só depois de me consultar com um médico bacana, colocar o avental azul, tomar anestesia geral e deixar o bisturi entrar em ação.

Ou muitas semanas de dieta e exercícios que definitivamente eu não vou fazer.

Consigo fechar. O botão ameaça ceder à pressão, mas resiste bravamente. Os órgãos internos reclamam, se sentem como passageiros da linha amarela do metrô. Fazem barulho, se espremem, querem sair. Preferem a bermuda, a regata, o Raider de sempre. Eu também prefiro, meus amores, respondo mentalmente, ativando todo o meu nulo conhecimento de yoga, zen-budismo e auto-controle para segurar as gotas de suor que teimam em sair, espremidas pra fora, como se eu fosse uma esponja. Não quero estragar o traje antes da hora.

Meu estado natural de existência é deitado. Só de estar na horizontal em minha cama já é motivo para que o cérebro entenda que é uma deixa para o descanso, mesmo que sustentando uma semi-ponte enquanto tento me vestir a rigor. A cama me consome, me seduz. Ela me quer. Somos como almas gêmeas, um feito para o outro. Sinto como um imã puxando minha bunda de encontro aos sedosos lençóis abarrotados abaixo de mim. Eu cedo. Fomos feitos um para o outro. O relaxamento é instantâneo, mesmo enforcado pelas regras sociais de como se vestir em um casamento.

As pálpebras, nervosas, começam seu piquete. Vão fazer greve se eu não oferecer melhores condições de trabalho. Como sou um patrão bacana, libero. Assim, elas se fecham e em menos de seis segundos deitado começo a cochilar.

- Eu não acredito que você já deitou.

Desperto com a silhueta de minha esposa à contraluz do corredor. Metade do rosto está maquiado, a outra não.

- Como você me descobriu?

- Ouvi seu ronco, é claro. Todo mundo ouviu. Vai, se arruma, a gente vai chegar atrasado.

Tento levantar, não consigo. Rolo sobre meu corpo para o lado esquerdo, estou de bruços na cama, somente os pés pra fora, apontando para o chão. Normalmente eu simplesmente me levantaria nos joelhos para instantaneamente ficar de pé, mas a calça apertada não deixa.

Preciso escorrer para fora da cama, como uma cobra encantada com a flauta, rebolando freneticamente. Consigo me ajoelhar no chão -- a face ainda sobre o colchão, mas não dá para levantar as mãos acima dos ombros porque a camisa é apertada demais -- e as coxas reclamam a falta de sensibilidade por ausência de irrigação sanguínea.

Levanto o braço direito para trás, tateando, tento virar o rosto mas o colarinho da camisa não deixa. A respiração vem devagar, espremida. Agarro a toalha ainda molhada, está pendurada em um cabide de parede. Seguro com força, tentando me içar para a posição vertical. Consigo avançar de centímetro em centímetro. Estou prestes a comemorar a posição semi-vertical quando o parafuso rompe e sou arremessado de volta à cama, chego a quicar no colchão de mola e caio direto no chão, igual a um pudim. Estou novamente deitado, mas agora no assoalho.

Ainda na mesma posição consigo dar o nó da gravata e faço uma mágica para enfiar a camisa para dentro da calça. Visto de cima sou como um cogumelo. As pernas enclausuradas na parte de baixo e uma explosão de banha contida em tecido barato logo acima. As marcas de suor se destacam nas costas e embaixo dos braços da camisa azul-claro.

Procuro os sapatos, não estão em meu campo de visão. Começo a me debater como um peixe recém pescado, ainda vivo, lutando pela vida fora d'água. Nada. Como sei que não vou conseguir levantar, me arrasto pelo corredor. Nem sinal dos calçados.

Entro na sala agradecido por ter feito faxina naquela manhã. A barriga se arrasta pelo piso. Vejo minha sogra, ela passa um pano no chão todo vomitado à frente. A pequenininha no seu colo, dependurada. A filha mais velha está sentada no sofá, chorando porque a irmãzinha regurgitou em cima dela. Meu sogro organiza as mamadeiras com leite materno. Eles vão cuidar das duas para que a gente possa sair.

Peço ajuda, ele se assusta com minha situação. Pergunta se está tudo bem. Mais ou menos, né? Me ajuda a ficar de quatro e sinto novamente o botão da calça gritar. Ele quer sair a todo custo, mas permanece em seu devido lugar. Estou de pé novamente.

Passo reto pelas crianças, ainda sem conseguir dobrar as pernas. Estou com pressa e preciso encontrar os sapatos. Não estão no quarto das meninas, não estão no escritório e nem na lavanderia. Onde foi que eu deixei?

Minha esposa chega na sala esbravejando com três vestidos na mão, o cabelo e a maquiagem feitas. Diz que não tem roupa, que não quer ir mais. Eu relembro que também não queria sair de casa, mas é o casamento da amiga dela, não podemos ignorar. Amanhã vamos ficar o dia todo em casa sem fazer nada, prometo. Ela volta bufando para o quarto, eu pergunto se alguém viu meu sapato.

Ai.

É minha sogra. Percebo sua expressão de preocupação. Tem alguma coisa errada. Ela está sem graça, como se não soubesse bem o que dizer. Olho para baixo, meu sapato estava bem na linha de tiro do vômito momentos antes. Tudo bem, posso limpar.

Me abaixo para pegar quando o botão finalmente encontra seu destino. É lançado como um tiro de canhão para fora da minha calça e encontra repouso na testa de minha sogra, que é jogada para trás e cai desacordada.

Acordei ofegante, assustado, os cabelos molhados de tanto suar. Olhei para o lado e encontrei as duas filhas, que dormiam, e minha esposa, olhando para mim.

- Que foi, amor, tá tudo bem?

- Tive um pesadelo.

- Foi muito ruim?

- Foi. Sonhei que a gente era obrigado a ter vida social novamente.

- Deus nos livre.

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Publicado originalmente na Revista Farfalhódromo.

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