Opinião

Ditadura Gayzista e o alerta que vem do futuro em uma explosão de glitter

No futuro, a família tradicional como vocês conhecem já não existe, ou ao menos não é mais chamada assim. Diluiu-se no extenso leque de composições familiares possíveis. Heterossexuais, homossexuais, bissexuais, assexuais, crossdressers, travestis, transsexuais, transformistas... Convivemos normalmente, no trabalho, em casa, na rua, em plena luz do dia, sem acanhamento ou repressão. E todos têm direitos iguais, equilibrados. Casam-se, separam-se, criam filhos, dividem direitos e deveres, cumprem seus devidos papeis na sociedade.

O zumbido ensurdecedor cessou tão logo a grande esfera brilhante tomou o céu da metrópole. Bolha de sabão soprada ao léu, cresceu-se como que do nada, cintilando entre carros pratas e pretos e cinzas arranha-céus. Ganhou volume e flutuou, rodopiando, no próprio eixo. Tons púrpuras metalizados refletiam os primeiros raios solares da manhã, dando às nuvens uma cor arroxeada apropriada para o dramático momento. A trajetória reta e velocidade constante do objeto voador não identificado seguiam observadas de perto pelos cidadãos de bem, abortados de seus cabisbaixos itinerários urbanos e forçosamente postos a olhar para cima.

O clima era de embasbacamento generalizado.

Superfície metalizada, sem vincos ou junções, voava sem motor de propulsão, asas, turbina ou algo que o valha. Seguia sem explicar se era maldição ou milagre. Até que parou, mas ainda pairava, suspensa sobre a avenida principal. Logo abaixo, esperando o próximo movimento da visitante inesperada, a multidão curiosa, temerosa, receosa, fazia plateia. E de um novo zumbido desencadeou-se a pequena cavidade, impertinente distúrbio côncavo na lisa superfície púrpura cintilante que como rodamoinho expandiu, agigantando-se em sentido horário, abrindo espaço para a luz rósea, flash contínuo, que delineou a silhueta hominídea de quem quer que ocupasse a esfera.

O tripulante, também no ar sem propulsão, afastou-se de seu casulo e deixou à mostra o traje estelar violáceo. Cessado o zumbido ensurdecedor, iniciou-se o emudecimento predominante, com o silêncio total na avenida principal. Ninguém respirava ou se movia, aguardando o próximo movimento do viajante misterioso. Silenciosamente, levantou os dois braços, simétricos, as palmas voltadas para a multidão. Eis que falou.

Vim do futuro para transmitir uma mensagem de amor ao próximo, tolerância e compaixão.

Não se via seu rosto, encoberto pelo capacete, mas a voz ecoava as retumbantes palavras por cada ouvido presente. Respirações ofegantes, burburinhos e cochichos surgiram em contrapartida. Alguns meio sorrisos, certas demonstrações de pânico, ou até mesmo agradecimentos aos céus entrecortados por quase gritos, ou risos nervosos, tensões que não se mantiveram tensionadas e derramaram choros. Mas a reação da maioria foi dar as costas, perder o interesse. Esperavam um ataque, uma mensagem de ódio, a dominação total do planeta por extraterrestres. Não um telegrama animado high-tech. O povo gosta de tragédia.

Chacoalhando as mãos, com as palmas voltadas ao público da mesma forma que iniciara o discurso, o viajante deixou clara a solicitação de silêncio e o reiterado pedido de atenção para que pudesse seguir sua fala. Continuou, impassível.

No futuro, a família tradicional como vocês conhecem já não existe, ou ao menos não é mais chamada assim. Diluiu-se no extenso leque de composições familiares possíveis.

Algumas senhoras de idade jaziam desmaiadas na multidão. Valentões carrancudos apontavam dedos para o céu, proferiam xingamentos, faziam gestos obscenos. Incrédulos, pais de família culpavam suas esposas por tê-los forçado a permanecer em tal circo, sendo que minutos antes sentenciaram que o melhor a se fazer era partir.

Para se fazer ouvir, a voz do visitante ecoou ainda mais alta por todos.

Heterossexuais, homossexuais, bissexuais, assexuais, crossdressers, travestis, transsexuais, transformistas... Convivemos normalmente, no trabalho, em casa, na rua, em plena luz do dia, sem acanhamento ou repressão. E todos têm direitos iguais, equilibrados. Casam-se, separam-se, criam filhos, dividem direitos e deveres, cumprem seus devidos papeis na sociedade.

O estilhaçar de uma vitrine a poucos metros dali chamou a atenção de parte das pessoas. Eram freiras enfurecidas que sucumbiram à desobediência civil frente a tamanha obscenidade. Tumultos iniciados eram rapidamente controlados por policiais, não sem acidentalmente matar sete menores de idade no processo - eram todos delinquentes, alegou um capitão em momento oportuno, intervalado pelas ovações dos cidadãos de bem ao redor. Centenas rezavam, ajoelhados. Outros pregavam com livros sagrados nas mãos, escorrendo sangue de seus ouvidos (preferiram estourar os próprios tímpanos, já que somente o ato de ouvir tal discurso já consistia em pecado).

Nenhuma religião tem autorização para reprimir ou conduzir a sociedade no futuro. Os que ainda seguem algum tipo de crença guardam apenas para eles mesmos e para seus familiares, que não são obrigados a seguir nada ou ninguém. Ninguém lucra sobre a fé alheia, nenhuma igreja detém poder maior que qualquer governo. O mundo é laico.

Um cordão policial se move em meio à multidão. No centro, protegidos e vestindo coletes à prova de balas, seis pessoas - duas mulheres e quatro homens - caminham em direção ao tripulante da esfera cintilante.

Imaginem, então, que a língua pátria foi modificada para que não haja mais diferenciação de gênero no vernáculo.

A atenção é rapidamente desviada para uma comitiva de professores universitários que chora a cântaros. Orientandos da iniciação científica secam suas lágrimas com páginas do Houaiss. Novos focos de tumulto surgem, incontroláveis. Há violência, há gritaria e palavras de ordem.

Ninguém mais morre por escolher ser quem é ou por nascer como é, pois a verdade é que nunca foi importante saber se alguém tem escolha ou não, tudo tem sido uma desculpa para perseguir o diferente, o que fugia do status quo. Até agora. Não adotamos tal conduta no futuro. Vocês devem abandonar isso a partir de hoje.

No futuro, abominável é apenas o preconceito.

Os tumultos seguiam em propagação.

A comitiva protegida pela polícia se aproximava do ponto mais próximo que se poderia chegar do viajante, logo abaixo dele, a alguns metros de distância. Eram reconhecidos pelos populares ao redor como os principais líderes do país.

Um deles, não necessariamente o mais importante, mas talvez o mais impertinente, brandia um megafone. Levantou em direção ao discursante.

- Ó viajante do futuro e senhor do conhecimento, para que vieste afinal de contas? Para transmitir sua ladainha ou apenas causar balbúrdia em plena avenida?

Minhas palavras são de tolerância e amor, abandonem o ódio enquanto é tempo.

- Amor e tolerância, você diz, mas a mim me parece uma ditadura! Ditadura minorista da libertinagem! Gayzista! Abortista! Feminazi! Coitadista! Este é um país sério, esses são cidadãos de bem, abutre!

O que você chama de ditadura eu chamo de revolução.

- Só por cima do meu cadáver!

Infelizmente você não me oferece outra escolha...

A multidão apavorada, ensanguentada e em estado de frenesi quase não percebeu, mas antes de ser completamente contaminada pela fúria, o sopro do viajante envolveu um quarteirão, afastando e derrubando o que encontrava pelo caminho.

No olho do furacão a impertinente figura do megafone, o raivoso líder de governo viu seu corpo desintegrar em purpurina e glitter, permitindo que sua realidade transcendesse a carne. Após assistir o inesperado espetáculo, a multidão se acalmou, como que acordando de um transe.

O viajante reparou na aproximação de uma jovem.

- Ele está morto?

Não, apenas permitiu que sua inexistência e desimportância libertassem a alma e a mente de todos vocês.

E todos dançaram ao som de Odara pelo resto da noite e pelo resto da vida.