OPINIÃO
18/02/2015 10:38 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

A última caixa de papelão

Acabou virando um amuleto, a caixa que nunca foi aberta. Alguns amigos ainda hoje se contorcem de curiosidade ao nos visitar e nós brincamos que só vamos abrir após a aquisição da casa própria. Mas comprar imóvel em São Paulo hoje é loucura, mesmo para quem tem dinheiro. Como não somos loucos nem endinheirados, seguimos assim, na base da suposição.

Alugávamos uma casa térrea estilo vovó, com azulejos na fachada e forro de zinco. Quase morremos de calor naquele verão, mas o que quase nos matou mesmo foi a chuva, porque caiu tanta água em uma única semana de fevereiro que chegou a infiltrar no teto. A visão surreal de quem entrou em nossa casa por aqueles dias era de que chovia sobre nossas cabeças. E realmente choveu, não havia onde se esconder e tivemos que dormir na cozinha, o único cômodo que se salvou. Perdemos a maioria dos móveis, a cama de casal mofou, papeladas aos montes entre documentos, fotos antigas e livros que viraram papa, além de alguns eletrônicos totalmente inutilizados. E a paciência, é claro, que se esvaiu por completo. Mas ela continuava ali, sequinha, e seguiu como estava para o novo apartamento: uma caixa de papelão que não fora aberta desde a última mudança.

Rodrigo foi nosso vizinho ali por cerca de um ano. Era jovem, sorriso fácil, fazia festinhas com os amigos até depois das dez da noite e nunca reclamamos. O único problema é que ele tinha uma banda. A bateria e o som alto também não chegavam a incomodar, é que ele cantava mal mesmo. Para completar, um dia ele reclamou que nós fazíamos muito barulho e não o deixávamos dormir. Cheguei a pedir desculpas, envergonhado de mencionar sua falta de talento.

Calor infernal somado à péssima cantoria já despertavam uma vontade interior de mudar de casa, mas havia um contrato de locação a ser cumprido. A perda dos móveis para a chuva vieram quase como uma bênção quando pudemos ter a primeira noite tranquila de sono - refrescante e em silêncio - na casa nova.

O primeiro apartamento que morei com minha mulher foi uma quitinete no centro. O proprietário era dono do prédio inteiro, um espaço tomado por viciados e traficantes que ele expulsou, depois reformou tudo e botou para alugar. Não era de todo mal, apesar de manter afastados alguns parentes mais sensíveis, que evitavam nos visitar por pura frescura. Fomos muito felizes ali e só decidimos sair quando veio a vontade de ter filhos, por ser pequeno demais. No dia em que saímos eu e meu sogro fizemos a mudança sozinhos, carregamos tudo. Prometi que nunca mais faria isso novamente. Foi provavelmente nesse fim-de-semana que embalamos a caixa de papelão misteriosa.

Mudamos mais duas vezes e ela sempre nos acompanhou. Acabou virando um amuleto, a caixa que nunca foi aberta. Alguns amigos ainda hoje se contorcem de curiosidade ao nos visitar e nós brincamos que só vamos abrir após a aquisição da casa própria. Mas comprar imóvel em São Paulo hoje é loucura, mesmo para quem tem dinheiro. Como não somos loucos nem endinheirados, seguimos assim, na base da suposição. Há um certo masoquismo em tê-la ali, quietinha, sempre presente.

Na tal quitinete que moramos, por exemplo, havia um armário que nunca abrimos. Ficava acima da banheira, próximo do teto, sempre trancado. Tentei abrir uma vez, duas vezes, desencanei. Certa vez sonhei com um cadáver escondido ali. Não seria um absurdo, mas cheio ruim nunca senti. Fato é que nós mudamos e não abrimos.

Quem sabe a caixa mereça o mesmo destino? Abandono, a vida que segue, ou mesmo o lixo. Curiosidade e expectativas interrompidas. Já imaginou? O que seria mais frustrante, jogar fora sem saber o que há lá dentro ou abrir e descobrir um jogo de lençóis mofados e inúteis?

Outro dia, voltando do trabalho tarde da noite, parei para tomar um chopp em um bar de Perdizes, no caminho de casa. Banquinho e violão indicavam música ao vivo. Esperei para ouvir. Qual não foi minha surpresa ao ver que o artista era Rodrigo. Continuava cantando mal pra burro.

Ainda assim paguei o couvert.

Pelos velhos tempos.