OPINIÃO
13/04/2016 19:48 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:34 -02

30 noites de ficção: P de Pederasta

Era uma missão de busca e apreensão com possibilidade de eliminação em um dos setores da área desabitada e proibida conhecida como Cidade Inglória, ou simplesmente CI. Pascoal era experiente e não se daria por vencido, confiava na intuição e sabia que era Deus operando por meio dele.

Erik Schepers/500px
The right place to sit!www.erikschepers.com

Era uma missão de busca e apreensão com possibilidade de eliminação em um dos setores da área desabitada e proibida conhecida como Cidade Inglória, ou simplesmente CI. Pascoal era experiente e não se daria por vencido, confiava na intuição e sabia que era Deus operando por meio dele. Não haveria de errar. Escolhera dois soldados iniciantes, o que lhe deixava ainda mais seguro: não precisaria lidar com ex-colegas de patente que pudessem vir a descumprir suas ordens por vaidade. Wallace e Edson podiam carregar pouco prestígio na instituição por conta de sua breve atuação, mas atiravam bem, eram espertos e foram muito bem recomendados pelos pastores de suas vizinhanças.

Ele acreditava que aquela região da cidade, ainda que parcialmente em ruínas, era estratégica para quem buscava manter distância, mas também garantia uma boa visão geral do Centro Ungido da capital. Na semana anterior o Templo Central publicou no Diário Oficial Interno o desmantelamento de duas ocupações irregulares. O nome do Coronel Pascoal apareceu em destaque na nota: sua participação foi crucial para o sucesso da operação. Na mesma edição registraram sua imediata promoção a coronel. A missão de hoje, a primeira sob a nova patente, era um desdobramento para buscar os poucos que conseguiram escapar da Mão de Deus e Pascoal faria de tudo para fazer valer a vontade sagrada. Restavam poucas áreas livres para os desgarrados se esconderem. Optou por levar dois homens apenas, assim chamaria menos atenção. Além disso, sabia que os fugitivos dispersaram, alguns passavam fome ou tratavam de ferimentos de batalha. Os três poderiam avançar sem chamar tanta atenção pelas ruínas da área proibida, além de serem mais rápidos.

Pascoal acreditava que algum prédio da CI-5 era utilizado pelas forças impuras como posto avançado de sua base central rebelde, ainda desconhecida. O palpite surgiu após uma minuciosa análise de movimentação hidráulica. Algo lhe chamou a atenção junto aos engenheiros do Templo Central. A utilização de água vinda da Reserva Técnica -136 aumentou consideravelmente nos dias anteriores para aquela região, e embora não tenham identificado uso constante, notaram um padrão na utilização, como se consumissem meramente o necessário para sobreviver. Era uma aposta arriscada, mas se estivesse correto Pascoal seria visto como um grande herói.

Tentou deixar de lado os pensamentos vaidosos. O homem não serve a seus propósitos mesquinhos, serve apenas ao Senhor. Mas ele vinha de um passado não tão brilhante assim e que teve a chance de enterrar, começar de novo, ainda que deixando família e entes queridos para trás. Fez seu próprio sacrifício pessoal pelo Altíssimo. No fundo, considerava justo comemorar sua escalada na intrincada rede da Mão de Deus. Era um sobrevivente.

Esse era o motivo para não cortarem a água das CI: rastreamento. Claro que alguns grupos de desgarrados já notaram o método da Mão de Deus, mas ainda era uma estratégia eficaz. Pascoal parou em frente à Edificação 13 na CI-5 ala B7. Outrora um prédio de luxo, agora estava coberto por uma sólida camada de pó de escombros - em virtude das demolições e reconstrução dos agora chamados Jardins Pacificados ao redor do Centro Ungido. Seu palpite parecia acertado: o chão próximo à porta e aos degraus estava menos sujo do que ao redor, como se alguém tivesse varrido o pó para esconder pegadas e depois tentado encobrir novamente para despistar.

Com um sinal dos dedos e o olhar firme para seus subordinados, Pascoal ordenou que Wallace e Edson ficassem a postos. Quase simultaneamente eles retiraram as travas de seus fuzis, cada um deles adornado com um grande crucifixo que acompanhava o percurso do cano, e uma figura de Jesus Cristo em bronze por cima de tudo, seus pés e a coroa de espinhos milimetricamente alinhados para servir como mira. Eram cruzes que disparavam projetéis mortais.

Subiram as escadas até o primeiro andar. Havia oito apartamentos. Abriram cada um, encontraram praticamente todos vazios, alguns poucos pertences espalhados, jogados pelo caminho. Provavelmente estavam ali desde o Ano da Evacuação Santa, quando o Apóstolo Eduardo foi eleito para o cargo vitalício de Líder dos Três Poderes.

Primeiro andar limpo.

A primeira medida do novo comandante foi promover a purificação do povo, editando e decretando as doze MP (Medidas Perpétuas) que serviriam como base governamental até os dias atuais.

A MP da responsabilidade penal, a MP da Segurança Nacional, a MP da Religião Verdadeira, a MP da Oferta e da Economia, a MP do Convívio Social e da Comunicação, a MP da Individualidade e Coletividade, a MP do Trabalho e Moradia, a MP da Educação, a MP da Saúde o e as três mais importantes de todas, a MP dos Plenos Poderes, a MP da Família e a MP da Constituição Sagrada (a Bíblia).

Segundo andar limpo.

Os que já viviam sob o comando do Senhor foram premiados na Meritocracia Sagrada com os melhores loteamentos de cada cidade. Foi apresentada uma opção de conversão aos ateus e idólatras de falsas religiões, mas esses foram relegados a castas menos abastadas, como serviçais. Para muitos era melhor aceitar ou se conformar com a terceira opção, ainda pior.

Terceiro andar limpo.

Os veículos de comunicação eram proibidos de propagar informações danosas à sociedade, por isso criaram o Diário Oficial Interno, voltado para aqueles indivíduos mais preparados para combater as pequenas ameaças à Mão de Deus. Ali eram compartilhadas as notícias secretas, estratégicas.

A população não ficava sabendo, por exemplo, da parcela de infiéis, os desgarrados, que ao invés de aceitar a nova ordem nacional, preferiram fugir. Acabavam caçados, presos, muitas vezes mortos. Mas alguns preferiam lutar.

Quarto andar: atenção.

Encontraram um único apartamento trancado no fundo do corredor, número 48. Edson e Wallace montaram cobertura, Pascoal preparou o chute e arrombou a porta com facilidade:

- Polícia da Liberdade! Está amarrado em nome de Jesus.

- - -

Benedito tinha uma bela visão do Centro Ungido sob a luz alaranjada do pôr-do-sol. Outrora uma região efervescente e reconhecida mundialmente por seus eventos culturais, festas badaladas, bares e restaurantes premiados, agora um dos polos santos mais importantes do país. Ainda assim era bela à sua maneira, como o último bastião de luz e vida por muitos e muitos quilômetros quadrados ao redor. Uma pena que todo aquele brilho fosse abastecido pela ignorância.

Olhou para o lado, contou cinco baldes cheios e dois vazios. Ainda teria água para muitos dias, mesmo que imprópria para o consumo, turva. Mas era aquilo ou morrer de sede. Sabia que não poderia abrir as torneiras por pelo menos mais alguns dias ou acabaria rastreado.

Levantou a camisa regata, revelando um curativo no flanco direito da altura do umbigo até o centro do peito, em diagonal. Removeu o esparadrapo, só viu carne rasgada em um tom roxo, meio esverdeado, e muito pus. Gastou um balde inteiro para lavar o machucado que conquistou na última fuga, tentando evitar um confronto com a Polícia da Liberdade. Mantivera-se escondido até mesmo dos outros refugiados - que não queriam gente como ele por perto, poderia trazer ainda mais problemas - e tentou fugir quando viu as tropas de soldados invadindo o esconderijo. Quando já estava quase livre, deu de cara com um único inimigo que fora deixado para trás, mancando. Entraram em combate corporal antes que qualquer arma de fogo fosse sacada, mas o maldito tinha uma faca escondida. Ainda assim, morreu asfixiado pelas mãos de Benedito, não sem deixar sua marca pustulenta que agora requeria cuidados especiais.

Deu-se ao luxo de lavar o rosto mais uma vez e beber um último gole de água. Como de costume, encarou o desenho que tomava sua face direita, contornando o olho e descendo próximo da orelha. Tinha a letra P tatuada. P de pederasta.

Da vida antiga só tinha uma foto. Ele e seu companheiro abraçados, tomados pelo olhar cúmplice. Nunca soube o que aconteceu com ele, sumido desde a promulgação da MP da Família. Não sabia se conseguira fugir ou se perecera em um dos campos de concentração igual ao que ele própria fora levado, e onde ganhou sua identificação escancarada. P de pederasta.

Era difícil conseguir ajuda, mesmo entre outros desgarrados. Prestar ajuda ou mesmo caminhar ao lado de um P era pecado (e pecar era crime), dificilmente os envolvidos escapavam da pena de morte. Mesmo aos ateus e idólatras infiéis havia chance de redenção. Podiam retornar à sociedade em uma casta ainda mais baixa que os primeiros convertidos. Mas a Polícia da Liberdade tinha permissão para eliminar, mesmo que em campo e sem julgamento, uma pessoa com a famigerada marca P. P de pederasta.

A população comum não sabia da existência dos campos de concentração. Por sorte, Benedito já havia conseguido fugir quando o Templo Central anunciou a Cura Absoluta do Homossexualismo. Virou feriado nacional, celebrado anualmente. Ficou sabendo que todos os prisioneiros acabaram mortos. Muito provavelmente, seu companheiro entre eles. Levou a foto para cama, observou por mais alguns minutos os rostos felizes e livres.

Dormiu com o peito nu e sem um novo curativo para que o corte pudesse respirar. Em tempos eletricidade inexistente para os impuros, Benedito ia dormir junto com o sol.

Naquela noite, como em tantas outras, sonhou com seu parceiro perdido. Se reencontravam no fim do mundo, os dois baqueados, machucados, doentes. Mas felizes por estarem juntos novamente. Viveriam os poucos dias que lhes restavam ao lado do outro e ostentando, agora com orgulho, a marca injusta da violência em seus rostos. Os dois P de pederasta.

- - -

Acordou com o barulho da porta cedendo violentamente ao chute da Polícia da Liberdade. Pela luz através janela, passava de meio-dia. Realmente estava muito cansado. O machucado latejava, possivelmente teve febre durante a noite, o corpo suava frio. Tivesse despertado algumas horas antes, como era o certo a se fazer, teria evitado a emboscada. Teve tempo de sentir vergonha pela rendição de cuecas, ferido, à mira de três rifles em formato de cruz. Um dos canos tremia.

Levantou os olhos e deparou-se com ele, o líder da operação. Pascoal o olhava indiferente, ainda que suas mãos escancarassem o nervosismo. Em uníssono, coronel e os dois soldados declamaram a sentença.

Benedito derramou uma única lágrima. Finalmente entendera tudo.

"Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos; E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará."

Três projeteis atravessaram o peito de Benedito. Ele segurava uma folha de papel, que se soltou e parou aos pés do coronel. Uma fotografia. Dois homens apaixonados olhavam-se, cúmplices, em seu amor proibido.

Um deles era Benedito.

O outro era Pascoal.

- - -

O silêncio pesava. Em outro momento era esperado que o destacamento não se falasse, ainda mais quando percorriam setores perigosos da Cidade Inglória. Dessa vez, no entanto, a ausência de conversa e mesmo de troca de olhares tinha outro motivo.

Wallace e Edson viram a fotografia que Pascoal queimou antes de abandonarem o pederasta morto. Não sabiam o que pensar.

O coronel era um grande herói. Expô-lo nesse momento seria um duro golpe à Mão de Deus. O que deveriam fazer?

Sem dúvidas precisariam ponderar muito sobre os próximos passos. Qualquer decisão poderia ser muito prejudicial a todos, a eles inclusive, pois não queriam se associar a um pederasta enrustido, um convertido, infiltrado nas forças da liberdade. Claro que acreditavam na redenção para todos, mas a lei era clara quanto a convertidos no alto escalão do governo ou mesmo com acesso a armas. Era proibido.

No entanto, os planos de Edson e Wallace nunca se concretizaram. No dia seguinte o Diário Oficial Interno divulgaria suas mortes como gloriosas. Protegeram seu coronel com os próprios corpos em uma troca de tiros com um desgarrado incendiário.

Não demorou para que Pascoal galgasse patentes ainda mais importantes na Polícia da Liberdade. Já mais velho, entrou pra política, candidatou-se para as eleições indiretas de prefeito, governador.

Anos depois, o cargo vitalício do Apóstolo Eduardo chegou ao fim com sua morte e um novo Líder dos Três Poderes precisava ser nomeado. Pascoal era um nome forte, reconhecido, conduta impecável. Recebeu apoio de todos os segmentos do poder, uma bem recebida unanimidade. Foi assim que o antigo coronel chegou ao topo supremo. Virou apóstolo. O Apóstolo P.

P de Pascoal.

---

Esse conto faz parte do projeto 30 noites de ficção, uma coletânea de histórias em tempo real. Cada texto é criado no mesmo dia em que é publicado. Um texto novo por dia, durante um mês.

Clique aqui e acompanhe o projeto.

LEIA MAIS:

- Parem com as panelinhas!

- Existe vida social depois da paternidade

Também no HuffPost Brasil:

Galeria de Fotos 6 histórias inspiradoras do Humans of São Paulo Veja Fotos