OPINIÃO
17/03/2014 16:33 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Popcorn Time, o Netflix pirata

Assim como a Netflix tem mudado a forma de ver TV, o streaming de torrents pode inaugurar um novo capítulo na luta do conteúdo online. Vide o episódio do Popcorn Time, nesta semana.

Provavelmente você já se deparou com algum debate intenso sobre como a Netflix mudou (está mudando) a maneira como encaramos a TV, a relação com as emissoras e também com os nossos seriados e filmes favoritos. Com poucos concorrentes de peso no mercado de streaming, o serviço reina em grande parte dos mercados em que atua. Seja pelo preço relativamente baixo da assinatura (caso do Brasil), pelo catálogo (caso dos EUA) ou pela falta de força de concorrentes com o mesmo modelo de negócios.

Boa parte dos internautas, este que escreve, inclusive, acha um estorvo recorrer aos torrents e sites de legendas quando necessário. Além da conivência com a pirataria, há o trabalho de sincronizar os arquivos, buscar gravações de qualidade e verificar se a fonte não está te entregando um malware no lugar de um vídeo. É muito mais cômodo pagar módicos R$ 15 ou 20 para obter o conteúdo. Infelizmente, essa não é a realidade para muita gente.

Os motivos são muitos. Vão desde a pobre oferta do catálogo dos serviços nacionais (inclusive da Netflix), ao preço abusivo dos planos de TV ou mesmo pela necessidade - como quando um filme que você gostaria muito de ver não possui interessados em trazê-lo ao país. Isso é muito comum com os animes. Aliás, a comunidade dos fãs dos desenhos japoneses distribui seu conteúdo muito antes da época dos torrents.

O que dava certa segurança a serviços como Netflix na operação brasileira (e também pelo mundo) é a falta de conhecimento dos usuários nos processos de pirataria descritos acima. Mas, e se o processo fosse substituído por uma ferramenta? Algo que cuidasse de tudo e o usuário só tivesse que escolher o que assistir? Essa era justamente a proposta do Popcorn Time, uma espécie de Netflix para conteúdo de torrents.

O programa, ainda em versão beta, era compatível com Windows, Mac e Linux. Segundo o TechCrunch, os desenvolvedores utilizavam HTML, CSS e JavaScript para fazer a mágica acontecer. Desse modo, era possível ver o filme ou seriado por completo sem baixar nada. Havia inclusive sincronia com legendas.

Assim como qualquer operação de torrents e distribuição de conteúdo com direitos autorais, o acervo do Popcorn Time violava leis pelo mundo. Com uma ótima proposta, o Popcorn Time acumulou um bom número de usuários rapidamente, o que poderia incomodar as produtoras, TVs e a própria Netflix.

Por medo da pressão que sofreriam (ou sofreram), os desenvolvedores resolveram tirar o Popcorn Time do ar. Na página, que antes abrigava o serviço, há um aviso dos desenvolvedores sobre os motivos do encerramento repentino. Afirmando saber da ilegalidade do cliente de torrent, o serviço foi encerrado para os desenvolvedores "seguirem com suas vidas".

Por não contar com amarras contratuais, licença pelo uso do conteúdo e outros problemas, a oferta de filmes de um serviço como esse depende exclusivamente da oferta de torrents estarem ou não disponíveis. Isso dá aos programas como o Popcorn Time uma velocidade muito grande na conquista de títulos que acabaram de sair dos cinemas, ou, no caso dos brasileiros, que ainda nem chegaram às telonas.

Assim como a Netflix tem mudado a forma de ver TV, com muitos adeptos do chamado "Binge watching", ou no português bem simples "quem vê TV pra c******", o streaming de torrents pode inaugurar um novo capítulo na luta do conteúdo online. Neste ponto, o Popcorn Time pode marcar o nascimento de outros serviços do gênero.

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Nota do Editor: de acordo com os sites The Verge e Torrent Freak, o Popcorn Time voltou a ser distribuído, mas em repositórios de códigos livres, para qualquer um que queira seguir adiante com a ideia, tanto modificando o software quanto apenas reproduzindo-o.