OPINIÃO
26/02/2014 12:24 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

A ode ao humano no novo Robocop

Ao contrário do antigo Murphy, que se torna uma máquina humanizada, o novo detetive em nenhum momento abandona sua consciência. O Murphy vivido por Joel Kinnaman é essencialmente humano.

Divulgação

Com direção do brasileiro José Padilha (Tropa de Elite), o novo Robocop tem ritmo bem acelerado e cenas de ação no melhor estilo e qualidade que Hollywood pode oferecer. O filme, no entanto, me chamou atenção por outro aspecto: a relação homem-máquina e a aceitação da sociedade.

Ao contrário de outros thrillers de ficção científica, Robocop sempre trabalhou um futuro mais palpável e próximo da nossa realidade. No clássico dos anos 80, apesar daquela estética bizarra com calças e cabelos da época, o futuro era viável. Havia, é claro, um avanço surpreendente no conhecimento do cérebro humano e na capacidade de reprogramá-lo, já que o Murphy vivido por Peter Weller teve seu cérebro reprogramado em certo ponto.

Já no remake -- classificação injusta, já que os filmes são muito diferentes e só compartilham alguns aspectos --, Padilha manteve questões atuais e muito próximas da nossa realidade. O diretor conseguiu incluir críticas pesadas à política militar dos Estados Unidos, sobre as ações supostamente pacifistas em outros países e, sobretudo, aos drones.

Um discurso completamente viável, visto que no Brasil nosso primeiro VANT (Veículo Aéreo Não Tripulado) está em operação, e o senado americano atualmente lida com o Drone Act, proposta de lei que procura regulamentar a ação de drones (militares ou não) no espaço aéreo do país. Questões como "um drone pode carregar uma arma?" ou "quem puxará o gatilho?" fazem parte dos debates do filme. A privacidade, um dos pilares da liberdade, parece até algo menor em relação a esses outros aspectos mais impactantes.

Aos furiosos com pequenos spoilers, sugiro não ler deste ponto em diante.

Ao contrário do antigo Murphy, que se torna uma máquina humanizada, o novo detetive em nenhum momento abandona sua consciência. O Murphy vivido por Joel Kinnaman é essencialmente humano. Mesmo com seu corpo de lata, seu intelecto vence possíveis trapaças corporativas e lhe permite decidir, de fato, seu destino. Nesse ponto o toque entusiasta de Padilha com a tecnologia fica evidente. Há no filme uma sequência que deixa claro o avanço na medicina.

Mas, sobre dar à máquina o poder de decisão em relação a vida ou a morte, o filme deixa uma mensagem clara, regada a uma ótima trilha sonora, críticas à imprensa, ao marketing e (no bom estilo anos 80) às grandes corporações.

Ainda que hoje a maioria dos drones em operação conte com intervenção humana, há projetos militares com caças autônomos. É o caso do Grumman X-47B, da fabricante Northrop. Esse avião de combate pode decolar de um porta-aviões, realizar uma missão e retornar ao ponto de origem sem nenhuma intervenção humana.

Não é, portanto, o novo que me fascinou em Robocop. É justamente o presente: reconhecer na tela nossas problemáticas atuais (ou de futuro próximo) e o olhar positivo sobre elas. E parece que neste longa Padilha conseguiu provocar o sentimento que desejava na plateia -- ao contrário de Tropa de Elite, quando uma crítica à ação da polícia no Rio criou um sentimento de apoio ao Bope. Aqui, mesmo com alguns excessos, o diretor não precisou enfiar a cabeça de ninguém em um saco para abordar o tema da robotização da violência.