OPINIÃO
11/06/2015 09:55 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Mais amor, por favor e sem mimimi

Eu entendo a revolta das portadoras, eu também repudio o tal mimimi, mas é bem provável que o publicitário idealizador desta peça nem tenha conhecimento do que é endometriose. Podemos dizer até que é uma campanha machista, mas uma ofensa por desconhecimento é bem diferente de uma outra em que a intenção é ferir o sentimento de alguém.

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A veiculação da propaganda de um novo analgésico que promete aliviar cólicas, enxaquecas e dores de cabeça está dando o que falar nos últimos dias. Eu não queria me manifestar por conta do ódio que estou vendo nas redes sociais, mas recebi o email da Tatiana, editora de blogs do Brasil Post, pedindo que eu escrevesse a respeito.

Infelizmente, a ironia taxando a cólica menstrual como mimimi é de muito mau gosto e entendo perfeitamente a revolta das portadoras nas redes. Sabemos que as indústrias farmacêuticas fazem de tudo para venderem seus fármacos. Porém, nós precisamos parar e pensar: uma coisa é um analgésico que tem mil e uma utilidades e outra é um remédio específico para endometriose. Eu entendo a revolta das portadoras, eu também repudio o tal mimimi, mas é bem provável que o publicitário idealizador desta peça nem tenha conhecimento do que é endometriose. Podemos dizer até que é uma campanha machista, mas uma ofensa por desconhecimento é bem diferente de uma outra em que a intenção é ferir o sentimento de alguém. Não sabendo qual é o caso, eu opto por dar o benefício da dúvida, e acredito que seja esse o caso, o anúncio não visou a endometriose, foi de mal gosto.

Acho que foi uma tentativa de fazer humor com aquela dor chatinha que fica criando apenas incômodo e desconforto. Infelizmente, toda uma comunidade de milhões de mulheres que sofre horrores com as dores fortes da endometriose se sentiu atingida, e o resultado está bem patente nas redes sociais, e suspeito que em breve na mídia também. Acredito que nem os publicitários e muito menos a Preta Gil tivessem conhecimento desse problema enorme que afeta milhões de mulheres no Brasil e no mundo. Quem sabe, se eles quiserem saber mais sobre endometriose, estaremos disponíveis para elucidar sobre o drama enorme que se torna a vida das portadoras.

Como mulher, talvez a Preta Gil, por ser uma pessoa pública, possa querer dar uma força para as portadoras, colaborando conosco no sentido de ajudar a conscientizar a sociedade brasileira para essa doença, que afeta tantas mulheres e que já pra começar demora bastantes anos em média só para obter um diagnóstico correto.

Sou uma pessoa completamente da paz, e o sucesso do blog A Endometriose e Eu, além de levar a informação tão correta quanto possível sobre a doença, é pelo fato de pregamos a paz e o amor. Nunca o ódio.

Como jornalista e talvez a única no Brasil a falar sobre endometriose, preciso colocar em prática o que aprendi na faculdade e o que um jornalista ético e bem preparado faz: ouvir as duas partes, mas não dá tempo de entrevistar o diretor de criação da peça publicitária. Ele foi realmente infeliz na colocação do tal mimimi. Como essa palavra virou fenômeno na internet que significa desdenhar de algo, usar essa palavra para se referir à cólicas ou qualquer outra dor é realmente um absurdo. Como não sabemos qual o calo que vamos pisar, o melhor talvez seja redefinir fronteiras no humor. Nas gerações de nossos pais e avós, as pessoas tinham um cuidado muito grande na forma como falavam para os outros precisamente por conta disso. Uma dessas fronteiras é a saúde. Fazer humor é algo muito positivo, mas que carrega muita responsabilidade. As portadoras precisam rir, porque lágrimas temos de sobra, mas não desse jeito. Sofrendo como eu sei que sofrem, senti na carne os efeitos das dores física e emocional dessa doença por longos 21 anos, sei que o carinho e a compreensão valem mais do que ouro para nós.

Mas não devemos abrir guerra por conta de algo assim. O mundo já vive em guerra e já tem muito ódio disseminado. Além do mais temos muitas batalhas mais importantes para ganhar. Precisamos de tratamento de qualidade para todas as portadoras de endometriose, independente, se elas podem ou não pagar por um. Precisamos que o Sistema Único de Saúde tenha políticas públicas efetivas para as mais de 6 milhões de portadoras brasileiras. Isso é só o começo da minha luta. Não é por um anúncio que pegou muito mal que devemos desviar as atenções do que é realmente importante para nós: conseguir soluções efetivas para as portadoras brasileiras o mais rápido possível. E é assim que iremos continuar a trabalhar duro, como estamos fazendo há cinco anos. Mais amor, por favor! Beijo carinhoso!