OPINIÃO
20/05/2014 09:56 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

A guerra perdida contra a pirataria

A pirataria é um problema do nosso tempo. A indústria do entretenimento, seja música, games, tv ou filmes, não sabe lidar com a situação. Para piorar, qualquer computador conectado à internet é, em potencial, uma ferramenta e um reprodutor de produtos piratas. Há tempos li este artigo de Dan Misener sobre a pirataria na indústria editorial e o medo que isso gera nas editoras. Os pontos que ele levanta podem ser aplicados a toda a indústria de entretenimento.

Misener afirma que existem três tipos de piratas: os que apreciam burlar o sistema; os que não tem dinheiro para consumir e os que não tem o produto disponível para a compra legal. Destes tipos o único que a indústria é incapaz de conquistar é o primeiro, os dois restantes é uma questão de adaptação e entendimento dos tempos atuais.

Vamos trazer o caso para a realidade brasileira. Os seriados chegam aqui com meses ou até anos de atraso, depende se você assiste na tv aberta ou fechada, isso faz com que seja impossível não saber spoiler. Não precisa ser a pessoa mais conectada do mundo, na internet horas depois de um episódio ir ao ar no seu país de origem spoilers começam a pipocar no Facebook, Twitter ou Tumblr. E não só os fãs fazem isso. Recentemente a série The Good Wife matou um de seus personagens principais, a produção da série conseguiu esconder o fato de todos por quase um ano, mas foi o episódio ir ao ar no EUA que na fan page oficial deles tinha um texto dos produtores explicando a morte e o título dizia quem morreu. Se você é um fã da série de outro país ou que simplesmente não viu o episódio na sua primeira exibição, todo o choque com a morte foi destruído. Os comentários as post são todos de revolta, não com a morte do personagem, mas com o spoiler indevido em um canal oficial da série.

Não é por suprema bondade que a HBO passa os episódios de Game of Thrones simultaneamente em todo o mundo. Ela sabe que se não fizer isso vai perder uma boa fatia de sua audiência. Mesmo com essa estratégia, Game of Thrones bate recorde toda a semana de programa mais pirateado. A questão é que, com uma conexão mais ou menos, qualquer um consegue baixar um episódio em menos de um dia, e mesmo com esse atraso assistir, com legendas, muito antes de passar na tv brasileira, fechada ou aberta. Esse é o problema: a tecnologia e as comunidades de fãs transformaram a pirataria em algo, fácil, rápido e eficiente. Algumas vezes, na maioria das vezes, as legendas feitas por fãs são muito melhores do que as vistas na tv. Isso quando há legendas na tv fechada. Cada vez mais canais dublam as séries e os resultados são pavorosos (mas isso é tema para outro post).

A indústria fonográfica está conseguindo começar a respirar com a venda pelo iTunes e o entendimento de que as pessoas não compravam CDs porque queriam todas as músicas e sim porque queriam só algumas. O caminho que encontraram é a venda do que o consumidor quer com um preço acessível. Estão conquistando os 2/3 dos piratas de que falei no começo do texto.

Outra indústria que está no caminho certo é a de games. Ao criar a ideia de diversão coletiva em jogos como WoW eles inibem a pirataria. De que adianta ter uma chave pirata se você vai se divertir sozinho? As duas soluções acabaram com a pirataria? Claro que não, mas deram oxigênio para duas indústrias que estavam sufocando.

Livros e tv enfrentam um desafio extra. Em ambos os casos a experiência que você tem num produto pirata é igual à original. A internet deu a possibilidade de o espectador ter tudo na mão com alguns cliques na melhor hora para o espectador e não mais na hora definida por um canal. Essa mudança de comportamento fez com que a audiência nos EUA seja medida levando em conta a audiência de uma semana depois da exibição. Essa medição leva em conta as pessoas que gravam os programas para assistir depois. É a realidade desta geração: tudo na mão e na hora que quiserem. Não tem como voltar atrás.

Meu sonho de consumo é poder montar minha própria programação de tv, onde figuram jornais nacionais, seriados ingleses e europeus, esportes (só jogos selecionados) e um tanto de programas nostálgicos. Um tempo em que eu tenha a possibilidade de ignorar as barreiras nacionais e assistir, legalmente, tudo o que gosto, na hora que quero e sem ter que esperar. Isso é mais ou menos possível hoje. Um monte de gente no mundo faz, mas é completamente ilegal. Quando a indústria vai descobrir que é melhor se juntar, satisfazer seus clientes e lucrar do que continuar tentando lutar? A guerra está perdida há tempos.

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