OPINIÃO
27/11/2014 17:12 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Indústria suína: onda de anúncios sinaliza fim do confinamento severo de porcas reprodutoras no Brasil

reprodução

Esta semana, grandes lideranças brasileiras uniram-se a diversas grandes empresas e governos ao redor do mundo que estão abandonando uma das piores formas de confinamento animal: o uso contínuo de gaiolas de gestação para porcas reprodutoras, celas de metal tão pequenas que impedem os animais de até mesmo se virar ou dar mais do que um passo para frente ou para trás. Nesta terça, nós, da Humane Society International - HSI, uma das maiores ONGs globais de proteção animal, comemoramos o anúncio da nova política de bem-estar animal da BRF, maior integradora de suínos do Brasil e dona de grandes marcas como Sadia e Perdigão. A empresa comprometeu-se a eliminar o uso contínuo de gaiolas de gestação até 2026, o que resultará numa melhoria significativa no bem-estar de cerca de 300 mil porcas reprodutoras. Com esse anúncio, a BRF se tornou a primeira produtora da América do Sul a adotar esse posicionamento.

O anúncio da empresa veio acompanhado de dois outros acontecimentos históricos: o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) assinou ontem um acordo de cooperação técnica com a Associação Brasileira de Criadores de Suínos (ABCS) e está negociando um protocolo de intenções com a Comissão Europeia para fomentar a transição para sistemas que não usam gaiolas de gestação para porcas reprodutoras. Ambos acordos têm a intenção de promover atividades de pesquisa e treinamento necessários para facilitar a adoção efetiva de sistemas com melhores padrões de bem-estar animal por meio de alojamento em grupos. O acordo com a UE já foi assinado pelo MAPA e agora está em Bruxelas em análise pela Comissão Europeia.

A maioria das porcas reprodutoras mantidas em sistemas industriais no Brasil, e no resto da América Latina, é confinada em gaiolas de gestação por praticamente toda a vida, um período de cerca de quatro anos. Essas pequenas gaiolas individuais têm quase o mesmo tamanho do corpo dos animais e os impedem de até mesmo se virar ou dar mais do que um passo para frente ou para trás. Esse tipo de confinamento resulta em vários problemas de bem-estar, como maior risco de infecções urinárias, ossos enfraquecidos, crescimento excessivo dos cascos, interação social limitada, problemas de locomoção e distúrbios psicológicos.

Há mais de cinco anos, a HSI tem trabalhado com produtores suínos, empresas e instituições governamentais no Brasil para promover o abandono do uso de gaiolas de gestação e a adoção de sistemas mais humanitários de gestação coletiva. Sistemas alternativos de alojamento coletivo são economicamente viáveis e já estão sendo usados por diversos países e grandes empresas como a Smithfield Foods, maior produtora mundial de suínos, e outros produtores de peso como Cargill, Hormel e Maple Leaf Foods.

Em todos os países-membros da União Europeia, a proibição do confinamento contínuo em gaiolas entrou em vigor em 2013. Na Nova Zelândia, na Austrália e no Canadá esse sistema será descontinuado em 2015, 2017 e 2024, respectivamente. Nos EUA, nove estados já aprovaram legislação para restringir a prática. A Associação de Produtores Suínos da África do Sul também está considerando uma restrição a partir de 2020.

A transição para sistemas de alojamento coletivo é uma resposta à crescente preocupação dos consumidores com relação ao bem-estar dos animais criados para consumo em todo o mundo, incluindo no Brasil. Em abril, a Arcos Dorados, maior operadora de restaurantes do McDonald's na América Latina e no Caribe, veio ao encontro dessa demanda ao anunciar que todos os seus fornecedores terão que apresentar planos para promover o alojamento de porcas em baias coletivas. Em agosto, a Nestlé seguiu o exemplo e comprometeu-se a eliminar as gaiolas de gestação em sua cadeia de fornecimento global.

Mais de 60 das maiores empresas alimentícias já anunciaram que eliminarão o uso de gaiolas de gestação de suas cadeias de fornecimento nos EUA - como McDonald's, Burger King, Subway, Sodexo e Compass Group (GRSA no Brasil). A HSI continuará trabalhando com essas e demais empresas alimentícias para que elas estendam esse tipo de política ao mercado brasileiro.

Nós comemoramos essa onda de anúncios que sinaliza progresso para o bem-estar das porcas criadas em sistemas industriais e esperamos trabalhar com mais produtores no Brasil na adoção de sistemas mais humanitários de criação animal. Com toda a certeza, não vamos parar até que todas as porcas estejam livres dessa forma de confinamento tão extrema.

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