OPINIÃO
23/06/2015 16:56 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Grandes acontecimentos consolidam a iminência do fim das gaiolas de gestação para porcas

divulgação

A Humane Society International (HSI), uma das maiores organizações globais de proteção animal, trabalha no Brasil para acabar com uma das práticas mais controversas da produção animal: o confinamento por toda a vida de porcas reprodutoras - usadas para parir leitões de engorda - em gaiolas de gestação. Como já descrevemos em postagens anteriores, essas gaiolas são celas de metal que têm praticamente o mesmo tamanho do corpo dos animais, e por isso impedem que as porcas possam sequer se virar ou dar mais do que um passo para frente ou para trás. A maioria das porcas reprodutoras, animais altamente inteligentes e sociáveis, é confinada nessas gaiolas na indústria suína brasileira. Mas a boa notícia é que temos vários progressos a reportar, que ocorreram durante o último ano, e mais especificamente nas últimas duas semanas.

No final do ano passado, a BRF, maior produtora de carne suína no Brasil e dona das marcas Sadia e Perdigão, se comprometeu a eliminar o uso contínuo de gaiolas de gestação em toda a sua cadeia de fornecimento. Também no ano passado, a Arcos Dorados, maior franqueadora do McDonald's na América Latina e no Caribe, anunciou que todos os seus fornecedores deviam apresentar planos para descontinuar o uso de gaiolas de gestação e adotar sistemas de gestação coletiva em todos os países que opera, o que incluiu o Brasil.

No começo deste mês, mais um grande progresso foi anunciado. Em seu relatório de sustentabilidade, a JBS - maior processadora mundial de proteína animal e dona da Seara, segunda maior produtora de carne suína no Brasil - reportou planos para descontinuar o uso de gaiolas de gestação de todas suas granjas próprias até 2016. Nossa expectativa é que a JBS a também determine uma data para que seus produtores integrados façam o mesmo, assim como já fizeram diversos outros produtores de peso em nível mundial.

Mas não são somente os grandes produtores, como JBS e BRF, e empresas do setor alimentício, como a Arcos Dorados, que estão comprometidos com a adoção de sistemas de criação animal mais humanitários. A Associação Brasileira de Criadores de Suínos (ABCS) acabou de anunciar que está unindo forças com a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e a Direção Geral da Saúde e da Proteção aos Consumidores da União Europeia para conduzir um estudo aprofundado sobre como o Brasil pode migrar efetivamente para sistemas de alojamento coletivo com melhores padrões de bem-estar animal para porcas reprodutoras.

Essa série de anúncios é um claro sinal de que o fim do uso das gaiolas de gestação no Brasil é iminente. Nos EUA, mais de 60 das maiores empresas do setor alimentício - como McDonald's, Burger King e Subway - já se comprometeram a deixar de comprar carne suína de produtores que usam gaiolas de gestação. Políticas globais que se aplicam ao Brasil também existem, como é o caso da Nestlé e das redes de hotéis Marriott International e Hilton Worldwide. Essas empresas entendem que a eliminação do uso de gaiolas de gestação é algo necessário para sobreviver em mercados nacionais e internacionais que rejeitam a crueldade animal.

Um crescente número de governos também está proibindo ou restringindo esse desumano método de confinamento. O confinamento contínuo em gaiolas de gestação já foi proibido em todos os países membros da União Europeia, no Canadá e em nove estados norte-americanos. A prática também será descontinuada na Nova Zelândia e na Austrália em 2015 e 2017, respectivamente. A Associação de Produtores de Suínos da África do Sul também tem planos de eliminar o uso contínuo das gaiolas até 2020.

Em uma era onde os consumidores brasileiros se preocupam cada vez mais com a forma como os animais criados para consumo são tratados, as gaiolas de gestação simplesmente não têm mais espaço ou justificativa para existir em nosso país. A eliminação desse sistema de confinamento é uma tendência inevitável e irreversível, também no Brasil, e nós comemoramos o fato de que um crescente número de empresas e instituições está tomando a decisão certa ao buscar sistemas de produção menos cruéis, que não usam gaiolas. Nosso trabalho e esperança estão focados em fazer com que essa lista não pare de crescer.