OPINIÃO
17/03/2015 18:08 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:19 -02

TDAH: a droga da obediência

Sabe aquela criança que tem dificuldade de prestar atenção na aula, passa muito tempo sonhando acordada e se distrai facilmente? Se desconcentra ou se agita demais. Poderia ser qualquer uma, não é mesmo? Afinal, isso tudo faz parte da infância e a gente está acostumada a lidar com esses comportamentos sem se preocupar se eles são saudáveis ou não. Criança é assim.

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A sigla se refere ao Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade e que praticamente virou moda o diagnóstico positivo nas crianças brasileiras (cresceu em 775% nos últimos 10 anos).

Pergunta: será que estamos vivendo uma epidemia de crianças com o problema ou é o sistema que não sabe lidar com o comportamento e devolvem aos pais como se eles não tivessem nada com isso? A questão é delicada assim como o diagnóstico. Aqui, o limite entre os comportamentos de uma infância saudável e os decorrentes de uma disfunção neurobiológica.

Sabe aquela criança que tem dificuldade de prestar atenção na aula, passa muito tempo sonhando acordada e se distrai facilmente? Se desconcentra ou se agita demais. Poderia ser qualquer uma, não é mesmo? Afinal, isso tudo faz parte da infância e a gente está acostumada a lidar com esses comportamentos sem se preocupar se eles são saudáveis ou não. Criança é assim. Aliás, a infância é assim: distraída, descompromissada, feliz, sonhadora, imaginária, fugaz e dispersa. Não fossem essas características, ela seria chata, monótona e poderíamos colocá-la numa linha reta porque nunca sairia do trilho.

Ou seja, quando a sociedade pede, cada vez mais, que os comportamentos e as pessoas se tornem um padrão e executem funções com eficiência e rapidez, nós enfrentamos um problema sério dentro das escolas brasileiras que é o diagnóstico disparado de crianças com TDAH. Cabe aqui uma pergunta a se pensar: estamos nós, sociedade, empurrando para debaixo do tapete um sistema educacional antigo que não capacita profissionais para lidar com essa criança da geração digital que tem o foco dividido a todo momento e, portanto, uma menor concentração num único assunto? Ou estamos jogando na medicina a causa e a cura das famílias ausentes que suprem a falta disso e daquilo com consumo e deixam de dar atenção e carinho a seus filhos? Dois pontos extremos que geram comportamentos fora da caixinha e que não sabemos, ou não queremos, lidar e diagnosticamos como TDAH. Depois medicamos para deixar essas crianças quietas, mudas e domáveis. Ou seja, elas passam a fazer aquilo que queremos do jeito que achamos que deve ser.

Óbvio que há um contraponto e que existe, sim, a doença! O questionamento não é esse. É em cima do alarmante número de diagnósticos que temos no Brasil e a forma com que estamos lidando com ele. Este é o ponto. E entender a doença, as causas, os sintomas e como lidar com o problema é o primeiro passo para compreensão. Para muitas famílias, essa é a hora de procurar um especialista. É ele quem vai avaliar se os comportamentos do seu filho são realmente sintomas do Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) ou não. O diagnóstico é superimportante e deve ser feito por um psiquiatra, mas, para chegar até a consulta, é preciso que os pais fiquem atentos ao comportamento dos filhos e que sejam presentes na vida escolar dele, já que o olhar dos professores também pode ser de grande ajuda.

Uma vez diagnosticada com TDAH, o tratamento da criança provavelmente vai passar por um remédio sobre o qual você já deve ter ouvido falar: a ritalina. O medicamento feito à base de metilfenidato é um psico-estimulante que promove um aumento da atenção e do controle de impulsos. Uma tentação para pais de crianças mais levadas, não? Aí está o problema. A Ritalina está tão na moda que não é difícil encontrar pais que vão de médico em médico procurando um psiquiatra que finalmente diagnostique seu filho e receite o remédio. Mas remédio não resolve problema sozinho - principalmente os que tratam apenas os sintomas e não a causa. Remédio remedia. Nesse caso aqui, amor de pai e mãe é imprescindível ao tratamento.