Opinião

Slow Parenting: remando contra a maré

Almejamos por bebês que nascem já acelerados para aprenderem logo a andar, a falar e sair por ai a conquista do mundo. Mais uma vez fica a questão: o que queremos? Qualidade ou quantidade? O futuro pede uma mudança de comportamento que não precisa ser radical, mas precisa ter menos pressão.
Antony and Lisa at Baga beach, Goa on rainy evening
Antony and Lisa at Baga beach, Goa on rainy evening

Movimentos que surgem na contramão daquilo que a maioria faz, ou está fazendo, definitivamente são para prestarmos atenção. Algo eles têm a nos dizer e a nos ensinar. É o caso do Slow Parenting, que diz "vá com calma". Menos é mais nesse caso, definitivamente. O movimento prega a desaceleração da vida como um todo. Desaceleração no sentido de fazer menos e não mais devagar - que fique claro.

O Slow Parenting apesar de parecer a ponta extrema do iceberg tem muito a ensinar e a propor. O movimento matriz, que é o Slow, prega a desaceleração no trabalho, na escola, na alimentação, no esporte, na vida social...e por ai vai.

Quem deu vida a essa contramão foi o jornalista britânico Carl Honoré, pai de duas crianças, e autor do livro Sob Pressão, editora Record. Em seu site, ele conta como tudo começou quando o filho de 7 anos recebeu um elogio da professora porque desenhava muito bem e ele logo vislumbrou, como pai, a possibilidade do filho ser um grande pintor. Matriculou o menino em aulas extras de pintura quando a criança disse a ele que queria simplesmente pintar. Foi com esse clique que Carl começou a se dar conta da superlotação das agendas das crianças e das expectativas que colocamos nelas.

Nasceu aí o movimento "Pais sem pressa" - fazer as coisas no tempo certo, sem querer antecipar nada. Isso é possível simplesmente respeitando o básico, ou seja, a natureza da criança e seu tempo. Etimologicamente, a palavra criança nada mais é do que criação em abundância. Precisa dizer mais? Deixa brincar, deixa imaginar, deixa sonhar. Livre. Para aprender a fazer escolhas e ter a possibilidade de aprender nas descobertas. Senão caminharemos cada vez mais para o mundo pronto das imagens. Onde o mundo já foi construído. Basta agora apertar um botão. Assim como na vida, crianças precisam percorrer o caminho passo a passo. Sem queimar etapas do jogo.

Do lado oposto ao movimento (essa é a maioria que eu falo no começo do texto), encontram-se crianças que vivem um dia a dia atribulado, seja na escola e seus períodos estendidos, as infinitas atividades extras, os compromissos como dentista, fono e fisio, o Kumon porque parece que nem as escolas particulares dão mais conta, as casas dos amigos (a vida social é intensa), a televisão, o iPad e (pasmem) aula de etiqueta. O cronograma delas, muitas vezes, é mais apertado do que a agenda de muito adulto. E a gente, como pai e sociedade, deve-se perguntar o porquê. Ou pra quê? Quem são essas crianças que estamos formando pro futuro? Os esforços certamente miram para esse futuro que tanto esperamos e suspiramos. Mas qualidade não é quantidade. Atolar, literalmente, a criança de atividades não significa que ela irá aprender e muito menos que será um adulto bem sucedido na vida. "O futuro da criança é hoje. Bons vínculos afetivos, bom contato com os pais e tempo para brincar são fundamentais", afirma o pediatra Dr Leonardo Posternak, pediatra e presidente da Associação da Família. "Nada justifica os esforços exagerados e perigosos feitos com uma criança para gerar um adulto exímio. Respeitar o tempo e as características individuais das crianças parece algo fundamental", pontua.

Só que nada é por mal. Muito pelo contrário. Pais lutam pelo melhor a seus filhos e por isso estão sempre buscando informação e lendo livros e matérias (olha nosso papel aqui) para aprender mais e poder sempre fazer o melhor. Então a intenção de colocar seu filho para fazer vinte e uma atividades, além de estudar na melhor escola, é pelo bem dele. Mas melhor ainda será quando pudermos tirar a mão do acelerador e avaliar até que ponto isso é bom ou ruim, construtivo ou não. Listas infinitas de deveres aonde não mais a experiência de vida, ou de viver, e a relação com o mundo é mais importante, esse movimento (o Slow Parenting), ganha forca no sentido de resistência. Almejamos pelo último modelo de celular e pelo sinal mais rápido da internet ao mesmo tempo que deixamos a distância entre as relações aumentarem. Almejamos por bebês que nascem já acelerados para aprenderem logo a andar, a falar e sair por aí à conquista do mundo. Mais uma vez fica a questão: o que queremos? Qualidade ou quantidade? O futuro pede uma mudança de comportamento que não precisa ser radical, mas precisa ter menos pressão. Porque menos sempre foi mais. E porque precisamos ter esperança em esperar pelo momento certo da vida.