OPINIÃO
12/10/2014 12:03 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

Sabores de Infância

ESTLAND, MI - JULY 7:  Kelli Yokom (left), 13, of Redford, Michigan and her friend Stephanie Janssen (right), 9, also of Redford, play with hundreds of other children in a giant lake of mud at the annual Mud Day event July 7, 2009 in Westland, Michigan. The event is sponsored by the Wayne County Parks and Recreation Department and the mud hole is made with approximately 200 tons of topsoil and 20,000 gallons of water. (Photo by Bill Pugliano/Getty Images)
Bill Pugliano via Getty Images
ESTLAND, MI - JULY 7: Kelli Yokom (left), 13, of Redford, Michigan and her friend Stephanie Janssen (right), 9, also of Redford, play with hundreds of other children in a giant lake of mud at the annual Mud Day event July 7, 2009 in Westland, Michigan. The event is sponsored by the Wayne County Parks and Recreation Department and the mud hole is made with approximately 200 tons of topsoil and 20,000 gallons of water. (Photo by Bill Pugliano/Getty Images)

Sinto o cheiro de sabonete nas gavetas de roupas da minha avó. Quando a gente pegava a toalha para o banho, vinha aquele cheirinho típico dela. O sabonete era o Francis. Eu achava ele lindo! Vê se pode...achar um sabonete lindo. Mas era o cheiro da minha vó, da casa dela, das coisas dela.

E quando começavam as férias íamos direto pra lá. Às vezes meu pai levava, às vezes ele colocava eu e minha irmã no ônibus e meu avô nos pegava as 5h da manhã na rodoviária. Eu amava o ônibus leito. Amava. Mas pensa só como eram outros tempos...até descíamos na rodoviária para tomar lanche sozinhas. Hoje em dia eu me pergunto quando vou deixar meu filho de 10 anos ir sozinho até a padaria. Isso que eu sou uma mãe tranqüila, sem grandes neuras.

E quando a gente chegava, minha vó já estava esperando acordada com o bolo formigueiro dela. Hum...cheiro de bolo formigueiro...ele é tão forte na minha memória que acho que sou capaz de dizer a quantidade de granulado que ela colocava na massa. O coco fresco ralado e aquela calda fininha por cima de chocolate. Minha vó furava o bolo com palito para a calda escorrer pra dentro e ficar todo molhado. Quando minha vó vinha para São Paulo ela também fazia o mesmo bolo. De vez em quando a Maria, cozinheira da família há 20 anos, faz o mesmo bolo formigueiro em casa. Meus filhos nem gostam tanto, mas eu peço por questões tão obvias. Eles amam o bolo de cenoura que a Maria faz. Toda semana é o mesmo bolo, a mesma massa e o mesmo cheirinho saindo do forno. Eles puxam a cadeira pra perto da bancada da cozinha e ajudam a bater a massa, provam, colocam o dedo sujo e a Maria sempre defende eles dizendo que pode por o dedo sujo sim.

De uma avó íamos para a casa da outra, que era na fazenda. Privilégio poder passar meses e meses das férias numa fazenda. Sem tempo algum como limite. Aliás, o único limite que tínhamos era o trilho de trem que passava dentro das terras. Aquilo era o máximo de delimitação que tínhamos. Passar dali só de carro. Mas carro lá só pegávamos o trator para ir na cafezal ajudar a colher café ou levar comida pros colonos. Mas a graça era voltar na carreta do trator pulando e se afogando no café. Depois quando o café ia para as casas de moinho onde seriam ensacados, a gente (eu, minha irmã e minha prima), subíamos nas escadarias que tinham lá e pulávamos nos montes. Sinto o cheiro do pó que ficava nos cafés. Sinto as teias de aranha que encontrávamos nos montes. Saíamos todas sujas. Muito sujas. E entrar em casa era proibido. Tínhamos que tomar banho no banheiro de fora da casa, junto à área de serviço. Era gelado e tinha uma perereca que morava no vaso. Ninguém sentava lá. Aquele banho tinha um cheiro de noite tão forte! A essa altura o céu já estava tão estrelado, tão estrelado que fazia a gente deitar no alpendre e ver as estrelas. Minha tia descascava cana de açúcar pra gente chupar. Às vezes vou na feira e peço cana pra lembrar do sabor que a memória tem. O sabor de infância que isso tem é indescritível. São comidas de alma que crescem com a gente e ficam guardadas no coração, mais do que no paladar.

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