OPINIÃO
24/04/2014 12:19 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:24 -02

Mãe ameaça deixar filho

Mães sem autoridade alguma vivem um dia-a-dia estafante com seus filhos. E filhos vivem um dia-a-dia estafante sob a falta de autoridade e condução das mães. A famosa bola de neve em que crianças pedem, suplicam aos pais firmeza e direção.

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Mãe ameaça deixar filho em padaria. Mãe ameaça deixar filho em supermercado. Mãe ameaça deixar filho em casa. Mãe ameaça deixar filho no clube. Mãe ameaça deixar filho no vestiário da natação. Mães ameaçam! Ameaçam a todo rodo porque perderam (ou nunca tiveram) o poder sobre essas pequenas criaturas que são seus filhos.

"Rodrigo, a mamãe não vai mais te trazer aqui". "Rodrigo, a mamãe vai embora e vai te deixar" - isso depois de uns 10 minutos rodando a padaria atrás do moleque que não tinha mais de 3 anos e, obviamente, não a obedecia. "Rodrigo, vem. Você não quer uma língua de gato? Vamos comprar". A mãe apelou - notoriamente.

"Gustavo, seu pai está ali no restaurante esperando. Você precisa vir" - nisso o Gustavo entra embaixo de uma arara de roupas na qual estou vendo uma peça. "Gustavo, eu tô indo e você vai ficar aqui sozinho com a moça". "Gustavo, vamos. Eu te dou uma bala." Pensar em pegar o Gustavo pelo braço e se fazer autoridade, nunca, né? Deixa ele mandar que eu ameaço e, se não der certo, eu compro um doce.

"Gabi, por favor levanta! A mamãe precisa pegar seu irmão" - Gabriela está sentada no chuveiro do clube. "Gabi, a mamãe está atrasada e você não está me obedecendo e seu irmão vai ficar na escola sozinho por sua culpa" - vejam: a culpa é da criança e não da mãe, que isso fique bem claro! "Então a mamãe vai embora e você fica aí sozinha no clube" - fecha a mãe com chave de ouro.

Mães sem autoridade alguma vivem um dia-a-dia estafante com seus filhos. E filhos vivem um dia-a-dia estafante sob a falta de autoridade e condução das mães. A famosa bola de neve em que crianças pedem, suplicam aos pais firmeza e direção. E pais, sem controle algum, ameaçam seus filhos constantemente para conseguir que eles façam o que é preciso. E mesmo assim muitas vezes não conseguem. Precisam de uma moeda de troca e começa a ingestão de doces e guloseimas nas crianças. Sacrificante para ambas as partes uma vez que o fazer torna-se penoso e doloroso. A mãe passa a ter medo dos ataques do filho em lugares públicos e é conduzida por ele em suas atitudes. A criança sente a falta de controle e insegurança da mãe e deita e rola, literalmente. A mãe perde mais o controle e fica com vergonha pública e, para não prolongar a exposição social, logo ameaça para tirar o filho de cena. Obviamente nada disso funciona e vamos somando falsos pequenos tiranos em nossa sociedade. Falsos porque é falsa a ilusão de achar que essa geração vai mandar em alguma coisa. Para saber mandar (ou para mandar bem), é preciso, primeiro, ter sido mandado.

Limite é a educação da vontade. Essa vontade desenfreada que as crianças têm e que pede o controle dos pais. Limite é como uma margem de rio que ajuda a dar direção, a guiar. É através do papel do adulto, da autoridade, que a criança receberá a imagem do mundo. O adulto é a referência máxima para ela. Existe uma admiração profunda. Ou seja, os valores e ideais que o adulto possui podem beneficiar ou prejudicar a formação e visão do mundo infantil. Ou seja, se existir a falta da autoridade, a criança será conduzida por uma extrema expiração do mundo. Às vezes tão exagerada que a criança passa a desconhecer não só os seus limites como o das pessoas com que ela convive.

E a criança na primeira infância é egocêntrica. Reconhecer porque a criança testa seus limites, procurar a intenção, é extremamente importante. Até porque entre a ameaça e a recompensa existe um caminho do meio e é ai que as mães precisam atuar. É o caminho da consequência, do sentido. Consequência é o que faz sentido no contexto. Precisa colocar no lugar certo. Isso com calma, segurança e coerência. Quem dá a ordem, no caso a mãe que fala "vamos filho", precisa falar e agir. Se a mãe fica só na fala ela perde a confiança da criança. É como não cumprir uma promessa. Educação só existe a partir da autoeducação. E o educador é uma autoridade = auto idade. Sem ameaças. ;)