OPINIÃO
18/02/2014 15:13 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

Festa estranha com gente esquisita

Festa infantil em buffet já é quase sinônimo de pouca diversão. Imagine em casa então. Chega a ser ultrapassada, velha. Coisa de gente antiga. Pais e mães, numa velocidade totalmente inconsequente, têm proporcionado vivencias e experiências um tanto quanto inapropriadas a seus pequenos.

A filha de uma amiga tinha uma festa domingo à tarde num ônibus. Em movimento. Aposto que você não entendeu, então vou explicar: uma criança de 10 anos foi convidada para uma festa de aniversário de outra criança, com a mesma faixa etária, em um ônibus em movimento pela cidade de São Paulo, num domingo à tarde (claro, afinal tudo é mais tranquilo). A ideia é ficar dançando, batendo papo, circulando (por um corredor estreito diga-se de passagem -- desculpem o trocadilho), paquerando (sim, porque nesta idade já se paquera), enquanto se comemora um aniversário de criança.

Outra filha de amiga fez a festa da menina numa Limousine cor-de-rosa choque. Isso mesmo. Aposto que agora você já entendeu. O carro parou na porta da escola e o motorista buscou a pequena e suas amigas que foram papear dentro de um carro chique, como pequenas patricinhas. Tomaram guaraná na taça de champanhe, fizeram o cabelo e as unhas com uma profissional exclusiva que transitou pela cidade com elas. E cantaram parabéns ao som de One Direction. Meninas de 7 anos.

Ainda mais uma conhecida levou filha e amigas para um Day Spa num salão chique de bairro. As crianças precisavam descansar, estavam estressadas. Provavelmente com a escola, porque duvido que sejam muito contrariadas em casa. Entre os afazeres básicos de um salão, as meninas também fizeram escalda pé e massagens. Com direito a toalhinha quente, cremes, luz baixa e música ambiente. Tudo para relaxar profundamente. Afinal ser criança é algo extremamente estressante hoje em dia.

Ser criança no mundo de hoje exige que você brinque menos e saiba mais. Vive menos a infância e pula direto à fase adulta. Imagine só: os filhos de hoje precisam estudar nas melhores escolas, ter as tardes preenchidas por atividades físicas, aulas de música, reforço de matérias em escolas especializadas e mais um monte de blablablá. Agenda cheia não é novidade para ninguém aqui. A touch generation, como eu chamo, mais sabe baixar apps e jogar joguinhos do que subir em árvore. Conto nos dedos os filhos de amigos que sabem subir em árvore. Tudo bem. Você que está lendo esse artigo deve estar pensando porque subir em árvore pode ser mais importante que saber baixar apps, nos tempos de hoje. Te explico. É simples. Porque subir em árvore exige habilidade física, controle emocional, dá a possibilidade de fazer escolhas (entre pisar num galho ou outro, por exemplo) -- e toda escolha tem consequências -- correr riscos, desenvolver a coragem... Quando uma criança sobe numa árvore ela vivência fisicamente, não só as emoções e sensações, como também o aprendizado. Este passa a ser orgânico e não mental. Uma criança que aprende vivenciando interioriza o aprendizado. Diferente da teoria, do virtual, do mental. Quando fazemos essa opção estamos tirando da frente de nossos filhos a possibilidade de aprenderem a fazer escolhas.

E fazer escolhas, se não for a mais, é uma das mais importantes e nobres tarefas dessa dona Vida. Precisamos ter critérios para fazer nossas escolhas. Precisamos ter maturidade para saber que não se pode ter tudo. Precisamos deixar possíveis escolhas para trás e ter a certeza do que levar para frente. Das coisas mais simples, como escolher uma cor, as mais complicadas, como decidir entre o ir e vir, exigem que a gente pense e repense e avalie nossos valores e use critérios para decidir. Critérios estão enraizados nos valores da pessoa. Quem na educação não recebeu valores dos pais, dificilmente conseguirá fazer escolhas. Tarefa difícil nos dias de hoje. Em que pais e mães já não sabem mais porque dizem sim ou não, simplesmente dizem! E quando um adulto fala sem intenção, sem verdade na fala, a criança não acata. Ela desacata. E ela começa a se preencher animicamente de vontades e "querer". Pais preenchem com fazeres. E fazem festas em ônibus, em Limousine, em spa... Festas vazias de valores, de critérios, de possibilidades de escolhas, de aprendizado. Festas vazias de criança, de infância.