OPINIÃO
22/04/2015 17:31 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Com meus filhos aprendi a cozinhar

O incentivo é nosso sim. E demos autonomia pra isso. Precisa. É importante saber cozinhar sua própria comida e colocando a mão na massa, literalmente, cria-se vinculo com o alimento. A gente passa a conhecer melhor o sabor daquilo ali e pra que ele serve.

Primeiro nasceu o Pedro e nessa época nem empregada eu tinha. Uma pessoa ia na minha casa 2x na semana fazer faxina e tava de bom tamanho. Mas logo ele começou com as frutas e depois a comidinha e eu queria dar alimentos frescos. Sempre. Daí a Maria, cozinheira da família há mais de 20 anos, começou a vir em casa cozinhar pro Pedro. Tudo fresquinho e com o maior amor do mundo. Eu deixava ele se lambuzar totalmente. Pegava com a mão, passava no rosto, misturava...era um festival de cores e sabores, literalmente.

Logo depois veio o Lucas e quando ele entrou na papinha, o Pedro ja era maior, tinha quase 2 anos, e já precisava comer prato com arroz, feijão, carne e legumes. Então chamamos uma pessoa pra trabalhar em casa todo dia. A comida tinha que ser fresca. Esse sempre foi meu único requisito. Nada de dar congelados pros meninos. Nem suco de caixinha entra em casa. É fruta espremida ou batida na hora. Bom, e por último, na raspa do tacho, veio do Felipe. Não preciso nem dizer que por ele ser o terceiro ele não teve a fase da papinha ou dos legumes cozidos e separadinhos. Felipe foi direto pro prato de arroz feijão e legumes. Até ovo ele comeu logo cedo. E ta aí super hiper forte! Toda preocupação que a gente tem com o primeiro se dilui total quando chega no terceiro. No segundo já ajuda, mas o terceiro... vai sozinho. O que é bom demais porque a independência que ele têm os irmãos não têm nem se quiserem.

Bom, e daí com 3 meninos em casa claro que a Maria passou a vir em casa sempre e claro que eu também comecei a olhar pra comida de uma forma nova. Antes eu nem almoçava em casa. Passei não só a almoçar como a sentar com eles na mesa, ajudar a fazer o prato, ensinar a fazer o prato, a comer, a como se portar na mesa, a fazer a escolha dos alimentos...

Em casa tem regra: pelo menos quatro coisas no prato e sempre precisa de um verde, mesmo que seja só um fiapo de couve manteiga por exemplo (é que o Lucas é terrível pra comer verdes). E tinham os lanches da manhã ou da tarde também e precisava ter pão fresquinho, iogurtes, frutas e bolos caseiros. Maria começou a fazer pra eles e logo eles quiserem ir pra cozinha ajudá-la.

Desde pequenos, os três puxam a cadeira e encosta na pia ao lado dela pra ajudar a cozinhar. Se eu falo que eles estão bagunçando e mando sair a Maria fica brava comigo e diz "não! deixa eles aqui que eles me ajudam". Daniel meu marido também é da cozinha. Adora fazer um café da manhã caprichado com eles. Fazem omelete, tapioca e sucos. Agora que os meninos estão maiores (11, 9 e 7 anos), eles mesmo já fazem tudo sozinhos. Separam os alimentos, cortam o que for preciso e preparam a receita.

O incentivo é nosso sim. E demos autonomia pra isso. Precisa. É importante saber cozinhar sua própria comida e colocando a mão na massa, literalmente, cria-se vinculo com o alimento. A gente passa a conhecer melhor o sabor daquilo ali e pra que ele serve, quantas receitas podemos preparar com uma mesma fruta por exemplo.

Logo descobri uma escola de culinária perto de casa, e lá foram os 3 fazer curso de férias. Amaram! E pediram pra fazer mais aulas. Fizeram. E toda vez que dá eles vão aprender algo novo. Voltam super felizes. Querendo sempre cozinhar mais em casa.

Sexta-feira antes do feriado foram ao estúdio do Marcio Mussarela gravar um programa pro canal Gourmet Network sobre crianças na cozinha. Ficaram se achando, claro. E eu, confesso, toda orgulhosa. Já são super independentes na cozinha. Picam cebola pequenininha. ;)

E a mãe? Onde eu entro nessa história? Cheiros são das melhores lembranças que tenho. E lembrei das coisas que minha mãe cozinhava quando eu era pequena. Dos pratos que minhas avós faziam quando a gente chegava na casa delas. Tinha o creme amarelo que minha vó Norma fazia pra mim, o curau de milho que meu vô fazia e o bolo formigueiro da minha outra avó. Tempo aqui: quando fiz bolo formigueiro pela primeira vez pros meninos, eles acharam, de verdade, que tinha formigas no meio do bolo e não quiserem comer!!!

Minha mãe fritava o melhor bife! E ela que ensinou a gente a "tchuchar" pão na gema mole do ovo frito (bem italiano). E minha infância tem esses cheiros, entre tantos outros. E lembrei que infância tem cheiro de comida e que essa memória é forte demais. E por conta disso, eu, que nunca nem tinha fritado ovo, deveria entrar na cozinha.

Para fazer receitas que fossem crescer com a infância dos meninos e que, um dia, quando eles estiverem grandes, irão me pedir pra fazer. Um cheirinho de bolo que vai ser o cheiro da minha casa, cheiro do carinho e de aconchego.

E que eu vou poder fazer pros meus netos também. E me dei conta que por causa dos meus filhos eu aprendi a cozinhar. Porque vale demais cada vez que eu tento fazer uma receita pra eles e eles comem e dizem que é o melhor bolo que eles já comeram. Eles ficam orgulhosos e eu também. Porque tem muito amor em cada fornada. São receitas de família e isso tem um valor enorme nessa vida. <3