OPINIÃO
09/04/2015 18:29 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:46 -02

Brincar é coisa séria

Transitar entre o brincar individual e o coletivo dá a criança a possibilidade de ser verdadeira e espontânea. E são essas raízes da infância e essa autonomia no brincar que efetivam a base de transformação da vida social no futuro. A arte de brincar na infância se transforma na arte de viver quando adultos.

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Eu sei que já fizeram 50mil textos sobre a importância do brincar, do deixar a criança livre, da expressão pelo brincar e vários outros pontos. Mas prometo que esse aqui será diferente. Pelo simples fato de que minha proposta é que a gente, pais e educadores, olhemos a criança e o brincar como partes pedagógicas do seu desenvolvimento infantil e de um futuro adulto. Vamos lá que vou explicar.

Quando a criança brinca ela nada mais está colocando e resolvendo suas questões com o mundo. Ali ela pergunta o que quer perguntar, ela diz o que sente, resolve conflitos ou gera, e esboça o que está absorvendo do mundo/ do ambiente ao seu redor. A criança olha o mundo, observa e a partir das suas percepções, entra em atividade = ela brinca. E enquanto brinca tem a possibilidade de transformar tudo que está ao seu redor, seja uma situação ou um sentimento. O brincar abre a possibilidade de viver algo sobre outro papel. Quase como colocar um adulto para fazer teatro.

E para que aconteça um brincar saudável e plenamente lúdico, a criança precisa ter autonomia sobre a brincadeira. Isso significa que os adultos não podem interferir, não podem colocar regras ou dizer como se faz. Porque pelo medo que temos em deixar nossos filhos experimentar colocamos "senões" como "cuidado pra não cair! Não sobe aí senão você cai. Aí está alto demais. Esse menino eu não gosto, não quero que brinque com ele", e por aí vai. Podar a espontaneidade na brincadeira da criança encurta a infância, objetivamente. Como pais, deveríamos ser a antítese do que o mundo têm nos mostrado. Não conduzir e educar pelo medo e sim pela coragem. Os peixes não nadam contra a maré na piracema? É assim que se gera vitalidade.

A educadora e etnomusicóloga Lydia Hortélio tem uma frase que deveria ser mantra de todos os pais e educadores que diz assim: "O brincar é o ultimo reduto de espontaneidade da humanidade". Uou! Um choque, eu acho. Porque nos coloca de frente a uma questão tão essencial e primordial que deveria ser o cuidado e a preservação da infância e sua integridade como vida. Por isso precisamos controlar nossas medos e dar/gerar possibilidades à criança para que ela tenha um ambiente saudável e uma atmosfera favorável ao brincar. O que isso significa? Que não adianta nada vocês estarem fazendo uma aventura no sítio, por exemplo, se você, como educador, fica falando "não mexe nesse matinho. Não pega esse galho que pode ter espinho. Cuidado que ali está muito escuro". O adulto precisa criar o clima para que a criança brinque em paz. Dessa forma a sua espontaneidade estará livre, leve e solta, literalmente.

Num ambiente favorável e com a atmosfera necessária, a criança tem condições de perceber o mundo e o que ela tem ali em volta para brincar e, de verdade, atuar sobre eles e transformá-los a partir da sua espontaneidade. Esse processo começa de forma totalmente individualizada e vai até os 3 anos, mais ou menos, e é quando a gente fala que a criança está moldando o próprio mundo. Depois ela passa a brincar no coletivo, como a música. Para existir a brincadeira aqui é preciso ter regência de quem faz o que, quem é quem, os papéis de cada um. Precisa ter fala e escuta. Existe ritmo e harmonia. E as regras são determinadas ali mesmo, antes de tudo começar e podem ser reestabelecidas a cada nova brincadeira. Aprende-se a reconsiderar, a soar diferente, a cada brincar. Imagine como seria libertador para nós, adultos, se a cada novo dia nós pudéssemos mudar as regras e tentar de outra forma. Ufa. Isso seria um alivio. O trabalho certamente teria muito menos peso.

Transitar entre o brincar individual e o coletivo dá a criança a possibilidade de ser verdadeira e espontânea. E são essas raízes da infância e essa autonomia no brincar que efetivam a base de transformação da vida social no futuro. A arte de brincar na infância se transforma na arte de viver quando adultos. E inevitavelmente isso reflete na forma como conduzimos nosso trabalho, seja individual ou em equipe. O paralelo aqui é claro: uma infância de livre brincar (livre no sentido da espontaneidade), naturalmente edifica um adulto pleno de suas capacidades de viver em sociedade. Gandhi dizia que a mudança que queremos ver no mundo, primeiro começa em nós. Nós, eu diria, é aqui na infância.