OPINIÃO
10/04/2015 12:06 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Por que confrontar nossos medos pode nos levar a ser mais inovadores

Já é sabido que é importante reconhecer o erro como aspecto natural da inovação significando que riscos foram assumidos, e para assumir tais riscos e erros, precisamos fortalecer os indivíduos a viver esta frustração com uma nova postura de compromisso com a descoberta do que apenas com sua imagem.

Estudo e trabalho com empreendedorismo e inovação social há 15 anos. Este casamento de inovação com o desejo de um mundo melhor sempre existiu dentro de mim mesmo quando eu não entendia o que era (sendo que ainda continuo tentando entender suas facetas).

Uma das qualidades que mais me atraem em inovação é seu caráter além do racional e objetivo. Afinal, é impossível falar em inovação sem falar em criatividade, e não tem como falar em criatividade sem levar em consideração o comportamento humano, que, podemos concordar, é um tanto complexo e muitas vezes subjetivo.

Observando meu próprio comportamento e emoções, me tornei uma dessas pessoas que sempre busca o autoconhecimento. Esta jornada ficou séria mesmo há 8 anos. E foi este autoconhecimento e autoconfronto cotidiano que me ajudou muito a ser cada vez mais autêntica e a viver a minha criatividade natural no trabalho. Foi para mim muito libertador saber e aceitar que não era perfeita e que, na verdade, nunca seria. Livrou-me de uma tensão gigantesca de não errar e que me levou para um universo muito mais criativo do que poderia imaginar.

Para mim é certo, e tento defender a ideia aqui para vocês, que o autoconhecimento pode nos levar a sermos mais inovadores e empreendedores. Muitas vezes nós mesmos somos nossas grandes barreiras para alcançar nossos sonhos.

Vivi três experiências marcantes para mim. A primeira foi na Artemisia, organização pioneira no fomento do ecossistema de negócios sociais no Brasil, que oferecia oportunidades de autoconhecimento muito profundas aos empreendedores e equipe. A segunda, na Babson College, escola referência de empreendedorismo no mundo. Lá fiz um programa intensivo, e em uma das aulas o Professor Bob Caspe perguntou qual era a principal barreira para um empreendedor. Ele mesmo nos apresentou a resposta "medo". Não poderia concordar mais.

A terceira experiência que confirmou a importância desta trajetória de autoconhecimento, foi o Social Good Brasil Lab, que construí junto a equipe do Social Good Brasil e diversas organizações, pessoas apaixonadas e especialistas na área. Juntos desenhamos um ambiente real de inovação centrado nas necessidades humanas, em busca de solucionar problemas sociais e ambientais.

Para a inovação acontecer e continuar acontecendo, criar um ambiente tal como o Lab era fundamental. Explorar a dimensão humana é essencial, pois só com a mudança de comportamento a inovação é um processo natural, fluído e constante.

A partir das descobertas mais recentes de pesquisas baseadas em evidências, de celebridades do mundo da inovação, como Clayton Christensen, Tom e David Kelley, chegamos a 6 comportamentos-chave que inovadores apresentam:

  1. Não considerar que devemos ter vergonha de nossos erros, mas sim ter uma nova postura em relação a fracassos e medos;
  2. Entender como as coisas realmente funcionam e como poderiam funcionar, fazendo perguntas de crianças;
  3. Ter a atitude de fazer e experimentar em vez de planejar muito;
  4. A coragem de mudar o "status quo" é o que motiva, consertar algo errado ou atingir algo muito melhor;
  5. Conectar campos, ideias e problemas normalmente não-relacionados entre si, cruzando fronteiras geográficas, de disciplinas e indústrias;
  6. Buscar novas ideias por meio de networking com pessoas que oferecem uma visão radicalmente diferente da sua.

Entre eles, sempre me chamou muita atenção a nova postura em relação a fracassos e medos. No universo do empreendedorismo empresas de vanguarda já discutem mudança de cultura para criar ambientes mais encorajadores a inovação, o que considero incrível, mas acredito que é necessária uma reflexão ainda mais profunda. Já é sabido que é importante reconhecer o erro como aspecto natural da inovação significando que riscos foram assumidos, e para assumir tais riscos e erros, precisamos fortalecer os indivíduos a viver esta frustração com uma nova postura de compromisso com a descoberta do que apenas com sua imagem.

Não há como viver tais comportamentos na prática sem este autoconfronto de quais comportamentos eu vivo no meu dia-a-dia. No fundo, acaba sendo uma experiência extremamente libertadora de não mais buscar ser igual aos outros, mas ser você mesmo, ser genuíno, e assim, ser inovador até na trajetória da nossa própria vida. Por isso, não tenho dúvida que todos somos capazes de atos criativos e inovadores, pois admiro e respeito a história incrível de cada um de nós. Cabe a nós libertar e trazer nosso melhor para o mundo!