Opinião

O que de verdade estou buscando? O fato ou a distorção que mais me agrada e convém?

Minha vida ia ficar bem mais simples, eu saberia em quem votar, quem incriminar, onde comer, que livro ler, que transporte usar e por aí vai.

O que é, é, fatos são inequívocos e indiscutíveis. O que se pode distorcer é a interpretação de um fato ou a descrição do mesmo para terceiros. Um fato nada mais é do que um algarismo. Digamos, um número 2, se somado a outro fato, de valor 3, o resultado é inequivocamente um 5. Um fato em si é de fácil observação - o que pode comprometer a essência do fato nada tem a ver com seu conteúdo, mas sim a capacidade de interpretação daquele que o observa. Digamos, por exemplo, um ângulo de visão prejudicado, uma audição diminuída ou a própria capacidade cognitiva daquele que observa. Também existe a possibilidade de uma interpretação incorreta proposital, diretamente ligada à má fé de quem o recita, mas lembrem: o fato em si nunca é o responsável por uma interpretação incorreta, mesmo ele sendo um fato horroroso ou inadmissível.

David Hume, filósofo britânico do século 18, explicava de maneira primorosa este argumento.

"Se por um lado existem conexões lógicas que podemos estabelecer entre idéias, essas mesmas conexões informam apenas sobre as relações, não sobre os fatos. Isso significa que fatos e relações lógicas estão separados como as pontas de uma forquilha. Podemos associá-los em nossas mentes, mas são coisas diferentes. Fatos e relações lógicas não podem se unir para informar ao certo o que é a realidade".

Isto posto, quero aqui me estender para além dos fatos e falar daquilo que ando vendo por aí quando se trata da divulgação dos fatos num mundo onde todos hoje podem dar suas versões do cotidiano, especialmente quando lhes convêm. Vou tentar aqui usar um exemplo bem simples: um assalto a banco. Se leio "Assalto a banco deixa dois clientes baleados pelo assaltante criminoso", isso é notícia de um fato (dá para saber que houve um assalto, e deu para observar dois feridos pelo assaltante durante o ocorrido, tudo absolutamente empírico). Agora, se leio "Internação da mãe do assaltante deixou rapaz emocionalmente instável, causando o assalto", isso não é fato e portanto não é notícia. É no máximo uma opinião baseada em distorção da interpretação do fato. Não é porque a mãe do indivíduo foi internada no dia anterior ao assalto que o sujeito resolveu cometer um ato ilícito. A não ser que isso seja comprovado com outros fatos científicos como, por exemplo, laudos médicos baseados em exames precisos de detecção e medição de estados psicológicos, considerando que isso seja empiricamente possível. Caso contrário não há soma, portanto não há resultado, então não há notícia, há especulação.

Se você ainda estiver me seguindo, o que quero dizer é o seguinte: o errado é errado e o certo é certo, não tentem me convencer do contrário sem fatos concretos. Se um fato fala por si só, não consigo entender tantas discussões. Minha única conclusão? Está cada vez mais difícil encontrar gente disposta a relatar fatos sem uma distorção pessoal. Adoraria que todo e qualquer relato que estivesse disponível para consumo viesse com uma legenda: FATO ou INTERPRETAÇÃO. Minha vida ia ficar bem mais simples, eu saberia em quem votar, quem incriminar, onde comer, que livro ler, que transporte usar e por aí vai.

É fato que isso não vai rolar, portanto só me resta exercitar meu bom senso e refletir toda vez que eu, voluntariamente, procurar conhecer os fatos e questionar: o que de verdade estou buscando? O fato ou a distorção que mais me agrada e convém? Isso vale para tudo que esteja sujeito a um julgamento baseado em fatos; o menino assassinado pela madrasta; a banana jogada no campo de futebol; estupro; Pasadena; mensalão; aeroporto inacabado e o que mais o interessado desejar conhecer de fato. Pesquisas de opinião não entram nessa equação mesmo que se validem de números, pois elas nada mais são do que interpretações numéricas baseadas em perguntas e não fatos.