OPINIÃO
19/08/2014 17:07 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Maktub

EVARISTO SA via Getty Images
Former Pernambuco State governor Eduardo Campos, candidate of the Brazilian Socialist Party (PSB) for October's presidential election, speaks with businessmen at the National Agriculture Confederation headquarters in Brasilia, on August 6, 2014. Campos will face Brazil's President Dilma Rousseff, candidate of the Workers' Party (PT) and Senator Aecio Neves, candidate of the Brazilian Social Democratic Party (PSDB). AFP PHOTO/EVARISTO SA (Photo credit should read EVARISTO SA/AFP/Getty Images)

Tem gente que acredita em "Maktub". Tem gente que não. Aos descrentes, e para aqueles que ainda não tem familiaridade com o termo, tentarei explicar seu significado. "Maktub" é uma palavra tirada do árabe que significa "está escrito". Em momentos como este, onde nos deparamos com o inesperado, o quase sobrenatural, como a morte do candidato à presidência pelo PSB, Eduardo Campos, me vejo refletindo sobre o significado de "Maktub". Ao longo da minha vida lembro muito do meu pai usando a palavra, quando algo que inesperadamente me alegrava ou entristecia, que me motivava ou desanimava; nessas horas ele simplesmente dizia "Maktub", e acrescentava "veja, se não fosse Maktub, todo o nosso esforço nesta vida, que termina em morte, seria simplesmente uma grande piada de mal gosto, uma existência sem sentido".

Então, se meu pai estava certo sobre "Maktub", devo presumir que, toda ação não necessariamente resultará na consequência desejada, e que de fato nada está sob nosso controle. Verdade, mas, se eu parar para pensar naquilo que ele dizia logo a seguir, então tudo tem um motivo de ser. Vejamos: a expressão "está escrito" remete a uma narrativa, um livro. "Maktub" não quer dizer "estava escrito" (premonição), quer dizer "está escrito", no presente, e aquilo que está escrito precisa de palavras, palavras que se conectam umas às outras, a partir de uma caligrafia constante formada por letras individuais. Estas letras isoladamente não querem dizer absolutamente nada, e sozinhas não determinam a narrativa; mas, uma vez colocadas juntas, começam a delinear uma história. Então, "Maktub" é tudo aquilo que estamos escrevendo juntos, seja nas palavras que determinaram o acidente aéreo que motivou a morte, não só de Eduardo Campos, mas de todos que estavam com ele, seja nas palavras que definirão em tempo real os próximos capítulos dessa história.

Muitos, erroneamente traduzem a palavra "Maktub" como sendo o equivalente a "destino", e é aí que a coisa desanda. Nesse caso gosto de fazer a seguinte analogia: destino é quando entramos num carro sem rumo e simplesmente vamos dirigindo; onde a gasolina acabar e pararmos é o destino; quantas vezes fazemos isso? Já "Maktub" significa que não importa para qual direção girarmos o volante, e não importa o tempo que dirigirmos, o lugar onde vamos parar está definido, ironicamente, por nós mesmos coletivamente. Quer dizer que de nada adiantam meus esforços solitários pois o lugar onde eu parar será sempre aquele previamente apontado pelo "Maktub" escrito por todos nós, onde o meu esforço individual, mas como parte do coletivo, é essêncial na definição do trajeto. Isso significa que eu dependo obrigatoriamente das palavras, e que sozinho não chego a lugar algum, mesmo que eu saiba exatamente para onde eu gostaria de ir. No caso do carro, ao qual tento dar um rumo, tudo dependerá das estradas que me foram abertas, pois sem elas não adianta eu forçar o carro para onde não existe caminho.

E assim é a história da humanidade. Não funcionamos isoladamente, somos todos elos que fazem parte de uma grande corrente planetária, que se juntam como palavras para escrever uma narrativa. Não há nada de sobrenatural nisso, mas certamente há algo que nos programou para funcionarmos assim. Se a morte de Eduardo Campos faz parte desta narrativa é porque nós como corrente temos, em algum ponto, elos que assim determinaram, e para a qual devemos dar a devida atenção, como para todos os acontecimentos que gerem nossas vidas.

E é para isso que serve o "Maktub". Para ressaltar os fatos que diariamente respondem à pergunta que nos fazemos vez ou outra: "para que existir ou ter existido?" Para aprender, porque como todo livro "Maktub" ensina, é baseados no aprendizado que temos a capacidade de preservar a vida e a escrever os próximos capítulos. Nossa vida é um "Maktub", um ensinar e aprender contínuo, que nos permite escrever essa maravilha que é existir ou ter existido nos capítulos anteriores. Termos essa consciência é aquilo que dá sentido à existência e nos protege das frustrações e do sentimento de impotência.

Que a morte de Eduardo Campos intensifique essa consciência e nos faça pensar no coletivo. Nada garante que isso mudará o nosso destino, mas certamente nos fará continuar a escrever a história, da qual ele foi e continuará parte essencial, e da qual não podemos fugir.

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