OPINIÃO
28/04/2014 11:11 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02

Enquanto isso, lá no terceiro setor...

Hoje os poucos que optam, no Brasil, por fazer doações conscientes, aqueles que doam sem pensar nos "comos" e "porquês", são os verdadeiros heróis sociais do setor privado e merecem reconhecimento.

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caring woman hands over elderly ...

É fato, o Brasil não é uma nação com cultura de doação. No estudo recente "World Giving Index 2013 - Uma visão global das tendências de doação", divulgado no Brasil pelo Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) e produzido pela britânica Charities Aid Foundation (CAF), o Brasil aparece com a 91ª colocação dentre 135 países doadores pesquisados; caímos em oito posições desde o último estudo e ficamos ao lado da Venezuela como país menos solidário na América do Sul. Este é o pior resultado desde 2009, quando se iniciou o estudo mundialmente.

O fato é que o "abandono" no qual se encontra o terceiro setor (a filantropia, o trabalho social de organizações não governamentais) vem se tornando cada vez mais evidente quando o tema é doações financeiras do setor privado e parcerias com o setor publico, que aliás parecem mais ser concorrentes do que parceiros. Muitos dirão que esses dados não podem ser reais se formos levar em conta a aparente índole do povo brasileiro, mas faz todo o sentido, sim, pois, apesar de sermos um povo benevolente, assistencialista e generoso no seu comportamento, isso não tem se refletido em resultados concretos para as melhorias necessárias nas áreas sociais; boas intenções não enchem barriga, não curam doenças nem dão diploma.

Para aqueles que têm algum interesse no assunto, vai aqui uma pequena e rudimentar explicação da situação no Brasil. Hoje em dia, quem desejar se envolver em alguma causa social dependente de regulamentação encontrará as seguintes realidades - muitos já ouviram falar da Lei Rouanet (que beneficia as artes e a cultura) ou da Lei de Incentivo ao Esporte. Afinal, quando a palavra "lei" aparece, tudo que se refere ao assunto ganha mais relevância. Essas leis permitem que um doador doe e tenha benefícios do governo no seu imposto de renda com sua doação (o famoso incentivo). As leis dessas duas categorias são claras e qualquer doador pode encontrá-las, mas se beneficiar delas é complicado, uma tarefa quase herculana para as instituições necessitadas. Isso, claro, quando (e se) a instituição é legítima e a área beneficiada for realmente uma questão social e não ligada a interesses pessoais.

Agora, se alguém desejar ajudar o idoso encontrará um mecanismo arcaico e praticamente oculto. Ajudar uma comunidade como um todo, então, nem pensar. Esse tipo de benefício nem consta em agendas sociais públicas. E se você quiser ajudar uma criança ou um adolescente poderá recorrer ao FUMCAD. Alguém conhece? Certamente algumas pessoas engajadas conhecem, mas a maioria da população nunca ouviu falar; afinal não é uma lei, é também um mecanismo na lei. Um mecanismo de doação tão complicado de se acessar no imposto de renda que na segunda linha da explicação o doador já desistiu e o trabalho que dá nem compensa o mísero benefício que o mesmo oferece. Mas a via crucis não termina aí; os valores doados só serão repassados para a organização cadastrada depois de seis meses, e em parcelas. Quer doar para a saúde? Parabéns, se você é um daqueles que conseguiu é porque realmente tem bom coração e muita determinação. Nem vou cansar vocês com mais explicações.

Mas vá lá, imaginemos a seguinte situação: sou um empresário sentado no meu escritório, bate à minha porta um grupo de pessoas que trabalha no terceiro setor. Esse grupo vem solicitar que minha empresa destine uma quantia de seus lucros para uma ação filantrópica que visa dar uma qualidade de vida no mínimo digna para idosos no fim da vida. Muitos desses idosos sobrevivem do escasso dinheiro dos filhos que se sentem na obrigação de ajudar os pais, optam por tirar um filho da escola para poder arcar com esses custos. Analiso o projeto, acredito nele, me comovo, quero sim doar, e considero seriamente dar para essa instituição; peço alguns dias para fazer minhas contas, sei que este dinheiro sairá do meu caixa.

Preciso pensar se vou reaplicar na empresa ou se com ele vou pagar parte dos meus impostos descabidos. Na mesma tarde recebo na minha sala dois outros grupos, com dois outros projetos. Um fala de um show de música brasileira em Nova York e outro fala de um desfile de modas em Paris. Penso: "Legal, mas o que tenho a ver com isso?" Na hora me contam a resposta. Terei um desconto no meu imposto de renda, coloco minha marca em evidência, e ficarei próximo de muita gente poderosa. Não preciso nem doar tudo, o que sobrar ainda invisto na minha empresa.

"Hum...", penso eu, "essa ideia está cada vez mais atraente". Deixo de lado minha consciência, ignoro meu verdadeiro desejo de ajudar aqueles velhos, seus filhos e seus netos. Me sinto mal, fico na dúvida, mas não tenho muitas opções, ou será que tenho? A coisa anda difícil, estou com problemas de caixa na empresa e essa não é hora de agir de acordo com minha consciência, não posso me deixar levar pela emoção, preciso ser pragmático. Pronto! Escolhi o desfile em Paris.

Tempos depois assisto o mesmo na televisão, vejo cada um dos vestidos apresentados, e penso... esse é um idoso que espera a morte no seu leito, esse é o trabalhador que não consegue fechar as contas do mês, e essa é a criança que não foi para a escola.

Ufa, até eu já cansei só tentando explicar. Hoje os poucos que optam, no Brasil, por fazer doações conscientes, aqueles que doam sem pensar nos "comos" e "porquês", são os verdadeiros heróis sociais do setor privado e merecem reconhecimento; porém esse reconhecimento é ainda pouco replicado e não gera escala. Enquanto a parceria com o poder público não vem, vamos torcendo para que esses heróis não desanimem, para que acreditem. Aquilo que eles têm doado faz diferença, e muita, mas o Brasil precisa de muito mais. A união do setor privado com o poder público é determinante nessa equação.

Talvez se mais gente doar e se engajar sem esperar muito em troca (lá vamos nós outra vez), o governo acaba reconhecendo a importância desse setor e pense "opa, quero ser parte disso". Garanto que o político que abraçar essa causa vai ganhar muito votinho... É só pensar, fazer melhorias com o recurso dos outros. Pode dar certo, afinal lá fora muitos governos já tiveram essa sacada. Bill Gates e Warren Buffet que o digam: o maior e mais recente mapeamento da filantropia norte-americana aponta que, no últimos anos, em média, os EUA doaram cerca de US$ 300 bilhões.

Enquanto isso, aqui no terceiro setor brasileiro comemoram-se as famosas caixinhas nas lojas onde se pode depositar a nota fiscal que será revertida em liquidez para algumas poucas ONGs que conseguem colocação das mesmas em estabelecimentos de evidência. Não vou nem contar em detalhes a loucura de como isso funciona, pensem em formigas trabalhando. Para conseguir essa arrecadação as instituições precisam contratar funcionários que farão o recolhimento das lojas de todas essas urnas, mas saiba que mesmo que você tenha sido uma das pessoas solidárias que deixou sua nota fiscal, a entidade beneficiada ainda precisa cadastrar uma por uma dessas milhares de notinhas, sem errar um número sequer na hora de digitar, e então esperar, e esperar e esperar depois de apertar o botão "Enter". Não dá mais para esperar, mas dá para lembrar que lá atrás, no final do século 19 e idos do século 20, os americanos também não tinham benefícios nem mecanismos eficientes, mas doaram, doaram para hospitais, escolas, faculdades, bibliotecas, museus e por aí vai. Hoje eles conquistaram o direito de ter muitos incentivos como reconhecimento pelas suas doações, inclusive como deferência merecida dada pelo poder público; os famosos "endowments" ou fundos patrimoniais são responsáveis por grandes conquistas em setores de saúde, educação e pesquisa.

Finalmente, quero dizer que não doar por medo é sinônimo de povo submisso, uma desculpa que serve somente para atrasar o progresso de uma democracia, pois a questão social pertence a todos nós.