OPINIÃO
19/09/2014 20:04 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Brasil S/A, de Marcelo Pedroso

Seguindo o modelo de dois curtas e um longa em sua Mostra Competitiva, a segunda noite do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro mais uma vez provou que o cinema pernambucano é um que vem afinando cada vez mais seu diálogo crítico e poético.

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Seguindo o modelo de dois curtas e um longa em sua Mostra Competitiva, a segunda noite do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro mais uma vez provou que o cinema pernambucano é um que vem afinando cada vez mais seu diálogo crítico e poético. Entre o curta Sem Coração, de Nara Normande e Tião e o longa Brasil S/A, de Marcelo Pedroso, ambos produzidos no Recife, o pueril curta brasiliense Crônicas de uma Cidade Inventada, de Luísa Caetano, terminou por demais insuficiente à criação de um debate. Seguem então os textos sobre dois filmes que, de maneiras muito distintas, aqueceram a noite já bastante quente de Brasília neste mês de setembro.

Em 2013, o cineasta pernambucano Marcelo Pedroso apresentou o que era até aquele momento o seu trabalho politicamente mais contundente, o curta-metragem Em Trânsito. Nele, a imagem do então governador de Pernambuco, Eduardo Campos, era posta em cena como um agente de um projeto desenvolvimentista do país (e as acusações resvalavam também na presidenta Dilma Rousseff) onde os carros se tornavam protagonistas de uma sociedade à mercê da máquina. As Leis da Robótica de Isaac Assimov todas quebradas. Um ano depois, Pedroso conclui seu terceiro longa-metragem, uma ficção documental, ou documentário ficcional, lírica e trovadora que, de forma muito clara, expande os temas e as cenas de Em Trânsito. Brasil S/A, o filme sobre a história de um país que virou CNPJ, maximiza, aumenta o volume e sobe ainda mais a câmera para filmar em tons operísticos as sombras dessa zeitgeist nacional.

A sequência inicial, uma montagem épica sobre a chegada de um navio ao porto, de onde desembarcam tratores que são locomovidos por rodovias e nelas ficam escoltados pela polícia como se chefes de estado fossem, dá o tom epopeico e, claro, irônico e cínico, sendo esses últimos elementos uma constante na filmografia do diretor. Em helicópteros, gruas, trilhos e tripés, a câmera está sempre fixa e as sequências de imagens são, portanto, tão firmes e precisas quanto a própria ideia do desenvolvimento pujante da economia, essa entidade vigorosa e robusta. Sustentados por uma trilha sonora orquestrada, igualmente opulenta, esses movimentos de quadro vão buscar dar conta de vários elementos do passado, presente e futuro de um país escravocrata, sexista, classista, religioso, vertical e carrocrata. O personagem-eixo é um trabalhador do corte da cana que, em algum momento, se vê substituído por uma máquina e termina indo trabalhar como operador de um trator, o que na leitura burlesca do filme, é recodificado como um astronauta dentro de uma nave espacial.

Entre a cana e o trator-nave, há o homem-caranguejo, a realeza do maracatu simulando a Casa Grande/Versailles em sua brancura, as idiossincrasias da classe média fadada a nascer, viver e morrer dentro de um carro, as pessoas-maquetes de condomínios fechados, os fieis tomados pela dádiva divina. Todos vivem à sombra dessa enorme bandeira verde e amarela, flamejante num céu não de estrelas, mas de muitos edifícios. Pedroso joga em várias frentes de tempo, espaço e símbolos e sua narrativa está concentrada em fazer do filme uma sobreposição de imagens que, mesmo sendo parte de um recorte crítico ao modelo de desenvolvimento da ex-colônia, têm significados isolados nelas mesmas. "Mas se a parte o faz todo, sendo parte, não se diga, que é parte, sendo todo", diria Gregório de Matos.

Sem se utilizar de qualquer diálogo, a montagem caminha como uma sinfonia de três movimentos, um adágio introdutório com a dança dos tratores e da colheita da cana, um andante intermediário com a exposições de vários extratos sociais, e um allegro final com o desfecho dramático que começa com uma sequência já experimentada com Em Trânsito - a sinfonia dos carros regidos por um homem marginal se transforma aqui em tratores regidos por uma modelo vestida de biquíni - e termina com um, digamos, ensaio de apocalipse.

As escolhas de Pedroso são arriscadas, a amplitude de sua artilharia crítica é imensa, mas não deixa de ter uma coesão que dá uma unidade forte ao filme. A pontuar que, de todas as esferas desse ser e estar brasileiro abordadas como alegorias pelo filme, uma não deixa de reverberar com mais força ao fim da sessão. No momento que parece ser o mas estritamente documental do longa (posso estar enganada), vemos closes de mulheres e homens rezando dramaticamente numa igreja. A trilha é The Sound of Silence, de Simon & Garfunkel. "Olá escuridão, minha velha amiga. Vim conversar com você de novo, pois uma visão um pouco horripilante deixou sementes enquanto eu dormia. E essa visão que foi plantada em meu cérebro ainda permanece dentro do som do silêncio."

Brasil S/A parece querer calar esse silêncio de um país que, nas visões (horripilantes) de seu diretor, vive em estado de delírio da ordem e progresso a qualquer custo.

Sem Coração, de Nara Normande e Tião

Com vista pro oceano, há uma piscina seca e abandonada. Essa imagem está no centro emotivo de Sem Coração, um filme sobre aquele momento da primeira vazão de água, quando o desabitado começa a ser preenchido pela liquidez das descobertas afetivas de adultos saindo dos seus casulos de crianças. Numa praia de Alagoas, uma menina que não tem coração se apaixona por um menino que acaba de descobrir a primeira aceleração de seu músculo cardíaco. Ela é o mar volumoso, ele a piscina vazia. E num ambiente de violências de gênero institucionalizadas, em que a mulher precisa ceder e o homem precisa invadir, esse filme é um dos contos mais lindos já vistos sobre o instante em que ela inunda ele.

Os elementos de descoberta e estranhamento estão por toda parte. Léo é da cidade, do fone de ouvido, dos prédios desenhados no reflexo da janela de um carro com ar condicionado. Numa viagem de férias à casa do primo, no litoral de "interior" onde o playground de condomínio se torna praia deserta, ele passa por rituais de iniciação da adolescência. Um deles consiste em levar uma menina, que pelo marca-passo que carrega no peito é conhecida como Sem Coração, para dentro dessa piscina abandonada onde ela é, na consensualidade violenta do machismo, silenciosamente penetrada pelos meninos da região. No instante em que Léo é intimado a cumprir com a mesma prática, algo de novo é trocado entre eles.

O elemento neorrealista das crianças locais que se tornam bons atores no curta - primeiro trabalho como preparadora de elenco da atriz Maeve Jinkings - anda de mãos dadas com uma poética da imagem que encerra nela mesma vários símbolos, muito presente no primeiro curta de Tião, Muro. Juntos, essas referências criam um álbum de fotografias. A presença física do filme em película é essencial a essa construção da materialidade da memória.

Premiado na Quinzena de Realizadores em Cannes deste ano, Sem Coração compartilha essas reminiscências de um período quase sempre traumático na vida de ex-meninas e meninos, e o faz com leveza de uma narrativa preocupada em dar ao ambiente suas marcações psicológicas, na porosidade de uma imagem granulada tal qual o desbotamento de nossas lembranças. E como na cena de uma baleia encalhada na areia, é um filme também sobre resistir até o final ao que a natureza impõe - a imagem da cicatriz no peito dela -, ao que os arquétipos sociais determinam - a impossibilidade de um beijo na boca dele - e ao que o tempo nos força - o esquecimento.

Texto publicado originalmente no blog fora de quadro.

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