OPINIÃO
25/07/2018 18:24 -03 | Atualizado 25/07/2018 18:24 -03

Como resolver a burocracia na Ciência?

"Esta burocracia pune os cientistas honestos e não evita que os desonestos continuem a fraudar e desviar dinheiro."

Getty Images/iStockphoto

Se você estiver em uma roda de cientistas desconhecidos, a melhor maneira de quebrar o gelo é reclamar da burocracia. É garantia de horas e mais horas de lamentações, histórias bizarras e dramas reais. Isso não é por acaso, em 2017, o Cofies (Conselho Nacional das Fundações de Apoio às Instituições de Ensino Superior e Institutos de Pesquisa) estimou que a burocracia consome mais de 30% do tempo dos cientistas. Certamente parece mais.

Obviamente a burocracia é necessária para que Instituições grandes e complexas funcionem. Procedimentos devem existir, o dinheiro público deve ser justificado, as leis devem ser respeitadas. No entanto, a burocracia perde o sentido quando ela impede que a sua razão de ser - a descoberta científica, a inovação tecnológica - aconteça. O pior é que o martírio da burocracia científica é, muitas vezes, auto infligido.

Um exemplo: minhas atividades como docentes estão documentadas em relatórios de atividades anuais, relatórios bianuais, resumos destes relatórios, súmula curricular para ser mandada à FAPESP, meu currículo Lattes, meu CV (inglês e português), Google Scholar, ResearcherID e, em breve, em um memorial. Todos documentos gerados a partir das mesmas informações - minhas atividades como docente - e tive que gerar quase todos manualmente, pois informações diferentes em formatos diferentes são necessárias.

Outro exemplo: um afastamento para um congresso, que poderia ser resolvido com o preenchimento de um formulário online, necessita do pedido do afastamento, e depois de um relatório contendo as mesmas informações do pedido de afastamento preenchido em um formulário online e em uma carta contendo as mesmas informações, só que impressas, assinadas e digitalizadas! Ambos exemplos de burocracias geradas por cientistas para cientistas.

A coisa piora quando a burocracia é gerada por cientistas CONTRA cientistas! Muitos editais de contratação exigem que se tenha um diploma de graduação e pós-graduação em áreas determinadas. Ou seja, você pode ser um dos maiores nomes da área, ter um prêmio Nobel na área do concurso, mas se não possui um diploma em uma área determinada, você não pode se candidatar à vaga. Se for um diploma estrangeiro, pior, é necessário revalidá-lo em uma universidade brasileira, tempo e dinheiro desperdiçados. Não é possível me convencer que este é um exemplo de burocracia que age a serviço da Ciência brasileira.

Por fim, tem a burocracia gerada pelo Estado que afetam os cientistas. A importação de produtos para pesquisa é um pesadelo, principalmente porque geralmente lidamos com produtos novos cuja legislação muitas vezes não está preparada para lidar ou produtos perecíveis que precisam chegar rapidamente ao destino. Em um estudo, 46% dos cientistas consultados já haviam perdido material de importação. O SISGEN, nova plataforma para gestão do patrimônio genético brasileiro, é uma ideia interessante, mas foi feito de forma a gerar mais de 7 mil dias-trabalho extras só para atualizar os dados contidos no GenBank, banco de sequências de DNA. E essa é só a ponta do iceberg.

Acho que já ilustrei a razão do descontentamento do cientista brasileiro com a burocracia. A pergunta que nós devemos fazer é: como fazer a burocracia agir a nosso serviço?

Bom, dizem que a marca de um bom cientista é a habilidade de se fazer uma boa pergunta, mesmo que não se tenha a resposta. Infelizmente, creio que este seja o caso. Eu sei, no entanto, algumas práticas que devem levar ao alívio deste fardo:

1) Burocracias devem ser revisadas e reordenadas periodicamente - a existência de cada procedimento deve ser questionada, atalhos devem ser buscados, informações relevantes ao processo devem ser identificadas e exigidas apenas uma vez.

2) Transparência, transparência, transparência - muito da burocracia atual é necessária para se evitar fraudes e desvio de dinheiro público. Esta burocracia pune os cientistas honestos e não evita que os desonestos continuem a fraudar e desviar dinheiro. Colocar todos os gastos em pesquisa em um banco de dados único e de acesso universal reduziria muito os desvios e o desperdício de dinheiro.

3) Ativismo político - muitos dos entraves à Ciência criado pelo Estado poderia ser reduzido se os cientistas fossem consultados antes de uma Lei ser passada ou implementada. Só que tanto não há interesse de se consultar cientistas quanto há pouquíssimos cientistas que se disponibilizariam para consultas.

4) Internacionalização dos cientistas - pode parecer algo fora do assunto, mas não é. Ter experiência no exterior não só nos ensina muito sobre a prática da Ciência, mas também sobre práticas burocráticas alternativas. Isto não só nos possibilita a introdução destas práticas no país, mas também nos mostra como algumas práticas, normalizadas aqui, são absolutamente inaceitáveis.

O combate à burocracia na Ciência brasileira, como pode ser visto, deve ser feito em diversos níveis e de diversas formas. O cerne da questão, no entanto, é a de que os próprios cientistas são responsáveis por grande parte deste mal e somente pela nossa ação este problema se resolverá.

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Transmissão: Science Vlogs Brasil (Youtube), Dispersciência (Facebook) e HuffPost Brasil

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.