OPINIÃO
17/02/2014 12:53 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

Parabenos pra você

Qualidade de vida não se relaciona somente com a quantidade de exercícios que praticamos, ou a quantidade de gordura na nossa dieta. Um aspecto oculto que tem um impacto fundamental na qualidade de vida de toda a população do planeta é a exposição a compostos químicos. Me refiro a essa exposição como oculta pelo fato de que, na maioria das vezes, não somos nem temos como ser cientes do nosso contato com estes compostos, que são numerosos.

Um deles é o Parabeno, usado em cosméticos, cremes, desodorantes e xampus. Parabenos, assim como outros compostos comuns em produtos frequentemente utilizados por nós (como os componente dos plásticos Bisfenol A e Pftalatos, ou o fungicida Vinclozolina usado em lavouras), são chamados disruptores endócrinos. Isso significa que as moléculas desses compostos têm a capacidade de se unir aos receptores hormonais comuns que temos, em lugar dos nossos hormônios, produzindo efeitos fisiológicos alterados.

Por exemplo, existe enorme evidência hoje em dia, em animais de laboratório, que apontam que a exposição ao Bisfenol A durante etapas iniciais do desenvolvimento está relacionada com uma variedade de condições nos adultos, entre elas um aumento na incidência de câncer de próstata. O Bisfenol A é um composto que vem sendo proibido em vários países devido a essas numerosas evidências, entre eles o Japão e o Canadá. Essa proibição alcança principalmente as mamadeiras, porque a exposição ao Bisfenol A dos bebês é muito elevada devido ao fato de que a sua alimentação é quase exclusivamente por essa via e também de que o vazamento das moléculas deste composto é maior quando se esquentam esses plásticos.

O exemplo dos plásticos é somente um de numerosos outros. Não existe hoje em dia um consenso a respeito de se o uso de agrotóxicos é realmente inóquo nas quantidades finalmente absorvidas pelos seres humanos. Tristemente, países do terceiro mundo utilizam uma quantidade muito superior de agrotóxicos do que países desenvolvidos, devido às regulações legislativas desses últimos ser muito maior. Um exemplo disso é o caso da esterilização de trabalhadores agrários na Costa Rica entre os anos 60 e 80 devido ao massivo uso do nematicida di-bromocloropropeno (DBCP). Este composto foi proibido para uso nos EUA no ano 1977 (depois da esterilização de trabalhadores na Califórnia), mas a sua exportação não foi proibida e o uso aumentou em países do terceiro mundo, como a Costa Rica, onde pesticidas são massivamente usados mas plantações de banana ou café.

Outro produto agropecuário usado frequentemente é o fungicida vinclozolina, muito utilizado na indústria da uva. Recentemente tem sido demonstrado que a exposição maternal a esse composto pode produzir consequências na saúde da descendência imediata e na descendência da descendência. Embora as quantidades utilizadas tenham sido a níveis farmacológicos, existe o mecanismo biológico para que exposições maternais acarretem problemas de saúde tanto para os filhos, como para os filhos dos filhos.

Recentemente, um estudo em ratos demonstra que a exposição intrauterina ao famoso inseticida DDT estaria relacionada a tendências de obesidade em ao menos três gerações posteriores. Portanto, a exposição a disruptores endócrinos sintéticos, que vêm sendo usados progressiva e massivamente desde a revolução industrial, poderia ser um componente importante da atual epidemia de obesidade observada tanto em países desenvolvidos como em desenvolvimento.

Hoje em dia se sabe que a maioria das doenças não são de origem genética, mas sim relacionadas a exposições a compostos durante o desenvolvimento embriológico ou infância. Essas doenças incluem asmas, alergias, cânceres e obesidade. Cada dia que passa, um fato está ficando mais claro: a qualidade de vida dos nossos netos dependerá da nossa, assim como muitos aspectos da nossa saúde depende a que nossos avós e avôs foram expostos em suas vidas.

O que podemos fazer para diminuir nossa exposição a esses compostos?

  • Minimizar o uso de plásticos e não esquentar contâineres de plástico no microondas ou colocar líquidos quentes em copos ou recipientes de plásticos.
  • Preferir vidro para manter alimentos na geladeira.
  • Voltar ao uso das mamadeiras de vidro para os bebês.
  • Verificar se o seu xampu contém parabenos.
  • Lavar bem frutas e verduras antes de consumi-las.
  • Preferir alimentos orgânicos, quando possível.
  • Exigir das autoridades e legisladores regulações estritas no uso deste tipo de compostos.