OPINIÃO
30/04/2014 15:22 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02

Infertilidade masculina e hábitos diários

Mudanças de hábitos podem ter um enorme impacto e devem ser consideradas antes de assumir que um problema de fertilidade existe. Diversos fatores cotidianos podem afetar a produção e a qualidade do esperma.

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A frustração por não poder ter filhos tem um grande efeito em casais. Há de se saber, porém, que este não é um fenômeno isolado, dado que a infertilidade masculina está em aumento tanto em países desenvolvidos como em aqueles em desenvolvimento. Indicadores de qualidade do esperma mostram que homens destes países progressivamente estão apresentando células espermáticas danificadas e produzidas em menores números. Consequentemente, a procura por clínicas de fertilidade tem explodido nos últimos anos, o que também se deve à aparição de novas técnicas de fecundação auxiliada e a massificação do seu uso.

Entretanto, mudanças de hábitos podem ter um enorme impacto na fertilidade masculina e devem ser consideradas antes de assumir que um problema de fertilidade endógeno existe. Diversos fatores cotidianos podem afetar a produção e a qualidade do esperma. Por exemplo, estudos indicam que ficar sentado por períodos prolongados tem relação com a diminuição do número e da qualidade de espermatozoides, devido ao fato que, nessa posição, não há circulação térmica suficiente para reduzir a temperatura dos genitais. Outros hábitos que atuam de forma similar são: a imersão prolongada em banhos com temperaturas superiores aos 37⁰ C, o uso de computadores sobre o colo, ou mesmo tomar sauna com temperatura muito alta e por períodos prolongados. Em geral, deve-se evitar ao máximo o aquecimento prolongado dos genitais. Curiosamente, o aquecimento dos genitais masculinos, inclusive, tem sido estudado como um possível método contraceptivo.

Outros estudos em humanos propõem que o campo eletrostático gerado por cuecas fabricadas com poliéster também teria efeito na redução do número de espermatozoides. O uso desse material em sua fabricação também tem sido estudado como um possível método contraceptivo.

Outros fatores que contribuem com a redução da qualidade do esperma têm a ver com a dieta. A obesidade, por exemplo, está relacionada com a redução tanto do número, como da motilidade espermática. Estudos calculam que entre os homens com problemas de infertilidade, existe um número três vezes maior de obesos do que não obesos.

Quanto ao uso do álcool, somente o consumo exagerado e crônico teria consequências negativas, enquanto que o consumo moderado teria, inclusive, um efeito favorável na fertilidade, em comparação com a abstinência total.

A respeito do tabagismo, embora o consumo de tabaco tenha um efeito negativo sobre a fertilidade dos homens que fumam, os maiores efeitos negativos ocorrem nos filhos de mães que consumiram tabaco enquanto grávidas. Quando chegam à idade adulta, esses filhos tendem a ter o número de espermatozoides bem reduzido.

O consumo de certas drogas e medicamentos também está relacionado com a redução dos parâmetros de fertilidade. Existe evidência, tanto em humanos como em animais de laboratório, que indica que o uso crônico de drogas como marijuana, cocaína, metanfetaminas, narcóticos opioides ou anabólicos androgênicos produzem efeitos relacionados com a redução da fertilidade. Esses efeitos incluem redução tanto da qualidade como do número de espermatozoides, e redução nos níveis de hormônios importantes para a fertilidade, como a testosterona. De fato, em um estudo, mais de um terço dos homens que consumiram marijuana em forma crônica apresentaram oligospermia. Ou seja, o número de espermatozoides muito reduzido.

Pelo lado dos medicamentos, estudos demonstram que antidepressivos e certos compostos naturais usados como antidepressivos (como a erva de São João) produzem toxicidade em células espermáticas em animais de laboratório, o que também afetaria o número de espermatozoide.

Em casos de problemas de fecundidade, vale a pena tentar mudar alguns hábitos e esperar uns três meses para ver os resultados, tendo em conta que o processo de geração e desenvolvimento dos espermatozoides (espermatogênesis) em humanos dura 74 dias. Pequenas mudanças podem fazer uma grande diferença em vários aspectos da qualidade de vida, principalmente no aspecto reprodutivo.

Leitura científica relacionada:

Environmental epigenetics and effects on male fertility. 2014. Advances in Experimental Medicine and Biology, 791:67-81. Guerrero-Bosagna C & Skinner MK.

Citalopram at the recommended human doses after long-term treatment is genotoxic for male germ cell. 2013. Food and Chemical Toxicology, 53:281-5. Attia SM & Bakheet SA.

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