OPINIÃO
06/05/2014 15:42 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02

As meninas do quarto 28: direito à justiça e à verdade

Sem prova, a verdade é uma abstração. Gestos assim é que garantirão, às gerações de hoje e do futuro, o direito de conhecer a verdade sobre o holocausto ocorrido durante a 2ª. Guerra Mundial.

Descobrir, preservar e divulgar a verdade é, no longo prazo, o mais poderoso dos modos de se fazer justiça. Achar e punir culpados nem sempre é viável; punições são individuais e acabam, constroem muito pouco, ou nada. Já a verdade é um bem coletivo, que pode perdurar. Mas como descobrir a verdade no que se passou? O mundo jurídico tem tentado responder a dúvidas assim. É para isso que existem os processos, que as leis regulam os meios de prova e os juristas criam critérios para avaliá-la.

A reconstrução futura da verdade seria frequentemente impossível se alguém, no momento exato, movido por um desejo profundo de justiça, não fizesse o gesto que preserva a prova. Sem prova, a verdade é uma abstração. Gestos assim é que garantirão, às gerações de hoje e do futuro, o direito de conhecer a verdade sobre o holocausto ocorrido durante a 2ª. Guerra Mundial.

A talentosa artista judia Friedl Dicker-Brandeis, que se formara na escola da Bauhaus e fora aluna de Paul Klee, é a protagonista de um deles. Foi pouco antes de entrar no trem rumo à morte, em outubro de 1944, no gueto de Theresienstadt, próximo a Praga, onde estivera confinada nos dois anos anteriores. Nesse momento extremo, ela ainda se sentiu capaz de um derradeiro gesto. Os anos no gueto tinham sido um turbilhão de angústia, privação e espanto, mas ela mantinha a lucidez - e por isso intuía o objetivo final da viagem: a eliminação física, o esquecimento, o escuro eterno, a mentira.

Daí o gesto magnífico, que preservou para sempre a verdade indispensável. 660 crianças do gueto tinham sido alunas de desenho de Friedl. Crianças com idade entre 10 e 15 anos, garotos e garotas que depois perderiam a vida nos campos de extermínio nazista. Entre elas, as que moraram no quarto 28 do abrigo para meninas L 410. Nesse quarto estiveram cerca de 60 garotas, que fizeram um juramento de amizade e criaram uma sociedade, com hino, lema e bandeira: a Ma'agal.

O gesto da professora Friedl impediu que se apagasse para sempre a humanidade colorida desse grupo de crianças. A professora escondia consigo, em duas malas, milhares de colagens e desenhos em que as crianças de Theresienstadt, orientadas por prisioneiras como ela, tinham aprendido arte enquanto sofriam, tinham registrado a dor, preservado sonhos ou recordado a casa e os pais, perdidos para o terror. Com sua explosão de criatividade e cores, com os muitos milhares de pequenos traços de liberdade infantil, as malas de Friedl poderiam ser companheiras de sua última viagem. Afinal, estava nelas o testemunho de sua alma de artista e dos vínculos de amor que criara com as crianças do gueto. Mas as malas não subiram ao trem. Antes de partir, Friedl optou por salvá-las em mãos seguras - um gesto pessoal de libertação e um grito ao futuro, por justiça - e a arte das crianças pôde sobreviver a elas próprias e ao tempo de guerra.

Décadas depois, vivendo no Brasil, Monika, a irmã de uma dessas meninas do gueto, sentia perder aos poucos até mesmo as lembranças da irmã, Erika Stránská, cada vez mais difusas no passado. Como teriam sido os dias de Erika no gueto, antes de ser enviada para a morte? Teve amigas? Teve saudades? Sentiu medo? Tinha talentos? Imaginava um futuro? Impossível saber a verdade. A pequena Erika fora levada para o gueto com a avó em 1942 e nunca voltou; e isso era tudo. Depois da eliminação física em Auschwitz, pouco antes de completar 14 anos de idade, o tempo ia fazendo o lento trabalho de apagar, até que chegaria o dia em que Erika jamais teria existido. Seria a vitória final da escuridão.

meninas do quarto 28

Por conta disso tudo, mesmo depois de tantos anos, não foi nada fácil para a irmã Monika, agora vivendo no Brasil, voltar à Tchecoslováquia e reencontrar a linda cidade de sua infância. Mas ela o fez. Era inevitável então que entrasse no Museu Judaico de Praga: ali estavam os fragmentos de uma grande comunidade, que em outros tempos fora feliz naquele país e naquela cidade, estavam os vestígios de tantas pessoas - quem sabe alguma conhecida? - e ali estavam ainda os símbolos da sua cultura, a milenar cultura judaica. Sentiu-se bem naquele espaço, interessou-se pelas peças, leu histórias nos painéis, voou no tempo. Havia ali um pouco da verdade com que precisava viver. Para isso servem os museus.

Monika certamente hesitou, perturbada, quando se deu conta: a ala do museu em que agora estava caminhando guardava lembranças dos pequenos de Theresienstadt. Mas foi impossível recuar. Era como um encontro marcado com o precioso conteúdo que se salvara, naquelas duas malas que jamais entraram no trem da morte. Ali, no Museu Judaico de Praga, estavam preservadas as colagens e desenhos do gueto, para testemunhar o sofrimento, o trabalho e a sensibilidade das crianças e de seus professores. Monika se deixou levar, emocionada pela força irresistível daqueles traços, pelas cores infantis que brotavam do papel, até que seus olhos líquidos finalmente encontraram (foi tanto o tempo de vazio e de silêncio...): ali estava o nome, uma imagem, a infância, a irmã. Era um desenho de Erika, a pequena artista, talentosa e tímida, que, arrancada da família, vivera sua solidão final no quarto 28. O elo com a verdade de um passado terrível enfim se recompunha.

Depois disso, ainda haveria muito a descobrir sobre a vida de Erika e de suas amigas de Theresienstadt. A partir de 1990, as últimas sobreviventes do quarto 28 - poucas a esta altura, espalhadas pelo mundo - tomariam a si a responsabilidade de refazer a sociedade que se formara no gueto. A Ma'agal renascia para resgatar a verdade: um empreendimento de alegria, de saudade e de justiça. Daí veio o belo livro "As Meninas do Quarto 28", de Hannelore Brenner, cuja tradução brasileira acaba de ser lançada (Editora Leya, 2014).

Agora, com o apoio do novo Museu Judaico de São Paulo (como são vitais os museus!), a história está sendo reconstruída em uma emocionante exposição, para que o público brasileiro possa sentir o ambiente do quarto 28 e conhecer as muitas personagens fascinantes de Theresienstadt - um lugar em que a arte e a sensibilidade conseguiram resistir, em pleno horror do holocausto. A exposição "As Meninas do Quarto 28" ficará aberta de 22 de maio a 29 de junho de 2014 no MUBE - Museu Brasileiro da Escultura, em São Paulo. É a arte como maravilhoso meio de prova, a serviço de nosso direito coletivo à justiça e à verdade.