OPINIÃO
01/02/2015 17:28 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Quem tem medo da inveja?

Se a sabedoria popular defende que é necessário tomar cuidado com a inveja dos outros, especialistas defendem exatamente o contrário. O sentimento faz mal para quem o tem. Ele pode ser destrutivo, em especial quando o indivíduo passa a viver em função do que o outro é ou possui. Pode inclusive caracterizar-se como uma doença psíquica. A inveja pode causar o adoecimento ao se tornar uma fixação.

Daniela Viveros Ruíz.
Florencia Cárcamo/Flickr
Daniela Viveros Ruíz.

Dos pecados capitais a inveja parece ser o mais constrangedor. Poucos se esforçam em demasia para esconder a gula, a preguiça e até mesma a avareza. Mas a inveja é um outro departamento que, embora humano, funciona como um sótão onde ninguém penetra - por vezes nem mesmo o dono da casa.

Para os que defendem sua própria inveja como 'branca', a psicanálise é clara: inveja é uma só, sem tipos ou subtipos. Na teoria, consiste no desejo de possuir aquilo que pertence a outro - seja um bem, uma qualidade ou uma relação. Na prática, pode tomar forma mais vil, a do desejo de que o outro não possua o objeto da inveja. Em bom alemão esse sentimento ganhou nome, schandenfreude, sem equivalência na língua portuguesa. É uma espécie de prazer proveniente do sofrimento alheio.

Se a sabedoria popular defende que é necessário tomar cuidado com a inveja dos outros, especialistas defendem exatamente o contrário. O sentimento faz mal para quem o tem. Ele pode ser destrutivo, em especial quando o indivíduo passa a viver em função do que o outro é ou possui. Pode inclusive caracterizar-se como uma doença psíquica. A inveja pode causar o adoecimento ao se tornar uma fixação.

A palavra inveja vem do latim, invidere, que significa "não ver". Para alguns o sentido é absoluto, até porque na maior parte das vezes o que se inveja não é exatamente o que se vê do outro, mas sim aquilo que foi idealizado. O jornalista Zuenir Ventura, autor do best-seller "1968 - O Ano que não terminou", dedicou uma obra completa ao tema - diga-se de passagem, de texto e conteúdo invejáveis. Intitulado "Inveja: Mal Secreto", o livro foi escrito após intensa pesquisa. Ele buscou confissões de invejosos e ouviu gente que diz ter estado no alvo do controverso sentimento, como a socialite Vera Loyola. A loira afirmou ao autor em claro e bom tom: "O verdadeiro amigo não é o que é solidário na desgraça, mas o que suporta o seu sucesso".

Curioso mesmo é o resultado da pesquisa citada por Ventura. Realizada pelo Ibope a enquete apontou que 73% dos brasileiros sabem o que é inveja, mas 84% declararam jamais tê-la experimentado. Parece que os entrevistados engrossam o coro de Nelson Rodrigues, que disse: "Há coisas que o sujeito não confessa nem ao padre, nem ao psicanalista e nem ao médium depois de morto". E a inveja certamente esta no topo dessa lista.

Uma das máximas do autor circula pela internet em incontáveis reproduções. "A inveja é um vírus que se caracteriza pela ausência de sintomas aparentes. O ódio espuma. A preguiça se derrama. A gula engorda. A avareza acumula. A luxúria se oferece. O orgulho brilha. Só a inveja se esconde". Mas, até certo ponto, porque muitos são tão arduamente atingidos por ela que chegam a mudar de comportamento. Há quem comece a reproduzir o estilo e o jeito da pessoa invejada.

Para sorte dos humanos, alguns atribuem à inveja uma função evolutiva. O psiquiatra e analista junguiano Carlos Byington afirma em sua obra "A inveja criativa" que negar esse sentimento implica em negar o desejo e condenar-se à estagnação. Cazuza teria sentido tanta inveja de Renato Russo por conta da letra da música "Que país é esse?" que compôs "Brasil". Sorte a dele, que transmutou o sentimento em um impulso realizador.

A doutora em Psicologia da Saúde Cristiane Decat reconhece esse potencial criativo. "Há uma inveja que poderíamos chamar de natural. É aquela que deve ser encarada como função normal e importante para o desenvolvimento da consciência. Ela estimula o ser a buscar o novo, a crescer e a se desenvolver", descreve.

Ao que parece a questão não é o sentimento em si, mas o que se faz com ele. Dra. Decat explica: "Vivemos o tempo do 'ter'. Hoje, as pessoas querem soluções imediatas, realizações instantâneas. Deixam de perceber que o que o outro alcançou é resultado de seu próprio percurso. Para alguns, 'derrubar' uma pessoa parece mais fácil do que investir no próprio desenvolvimento pessoal". Ela destaca ainda que a satisfação de quem constrói suas conquistas é plena e retroalimenta a busca por novos patamares, diferente daqueles que as obtêm por vias transversas. "Nesse caso, a satisfação é fugaz".

Uma pesquisa publicada na revista Science ganhou imensa repercussão mundial. O tema? A inveja. Cientistas japoneses demonstraram, através de testes psicológicos, que são as mesmas as áreas cerebrais ativadas no processo da dor física e da 'dor' de assistir o sucesso do outro. Eles evidenciaram ainda que a percepção do infortúnio alheio ativa o mesmo circuito de recompensa cerebral que experimentamos diante de uma situação prazerosa, por exemplo. Ou seja: o schandenfreude equivale no cérebro a uma boa barra de chocolate.

Os neurocientistas lembram, o tempo todo, que o comportamento animal é recheado de atributos competitivos, como a disputa por território, por comida e por parceiros sexuais. Cada ser humano carrega institutos arcaicos em diferentes graus. Pesquisadores defendem que, desde que bem modulados, sentimentos como inveja e ciúme colaboraram para a evolução da espécie.

Bertrand Russell disse: "Se você deseja glória, deve invejar Napoleão. Mas, Napoleão invejou César, que invejou Alexandre, que invejou Hércules, que nunca existiu". Talvez seja hora de acolher esse sentimento pois, ao que parece, ele sempre esteve por aqui e por um bom tempo ainda estará.

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