OPINIÃO
08/05/2015 19:13 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:03 -02

O que a gente ganha quando perde alguém?

daisee/Flickr
I love this detail from Klimt's 'Ages of Women' I used clippings from magazines to provide some of the flowers in the background and some in the mother's hair.

Uma reflexão sobre o presente de Dia das Mães.

De todas as marcações do calendário, duas, em especial, foram mais difíceis de atravessar. Menos de três meses depois da partida do José vieram Dia das Mães e meu próprio aniversário. Chorando, eu dizia a mim mesma: são apenas datas. Não devo me prender a elas!

Este trecho está no capítulo chamado "O tempo", no livro Até Breve, José, em que eu conto como foi viver a experiência da perda de um filho, que se foi tão cedo, ainda bebê com apenas onze dias. Pode ser que você seja o tipo de mãe que a-do-ra o Dia das Mães com seus presentes e almoços especiais, ou pode ser daquelas que acham que dia das mães é todo dia e que não devemos dar tanta ênfase a uma data comercial. Não importa. Quando perdemos um filho, todos os dias doem, e este dói mais ainda.

A perda de um bebê é muito particular. No livro eu conto como ela se apresenta - a dor daquilo que não vivemos: choramos pelas fraldas que não trocamos, pelos beijos que não demos, pelo choro que não ouvimos. Choramos pelos primeiros passos que não vimos, pelas risadas que não ouvimos, pela mãozinha que não seguramos. Sentimos pelos tombos que ele não levou, pelos tropeços que ele não deu, pelos dentes que não nasceram. Pela namorada que ele nunca vai ter, pela emoção que jamais sentirá, pela expressão da alegria que nunca conhecerei. Choramos pelos anos que não passaram e a alegria que ele não viveu.

Mas eu também conto como, em algum momento, graças ao nosso próprio esforço no processo de cura - e aqui tudo é válido como recurso, desde terapia até aulas de boxe - somada à contribuição do efeito apaziguador do tempo - a dor vai discretamente encontrando seu espaço, tornando-se coadjuvante e nos permitindo experimentar o prazer de viver novamente.

José, você está se tornando uma doce lembrança. Nossas conversas eram longas e cheias, agora estão ficando brandas, mais curtas e tranquilas. Estão virando cochichos.

E assim fui 'atravessando o deserto do luto' como eu costumo dizer, nas páginas do meu diário. Até Breve, José é este relato, desde a gravidez, encontrando de frente com a morte, até este momento em que, já mais leve, com emoção e saudade, consegui me despedir dele. Um ano depois de sua partida eu tive uma filha, Joana, que agora compõe uma linda dupla com Pedro, meu mais velho. Ele está com seis anos, ela com três e ambos falam com naturalidade sobre o "irmão do meio, que não vive aqui na Terra".

Então passou! Bom, talvez por isso possamos presumir que aqui na minha casa o Dia das Mães voltou a ser festivo? Para mim é uma daquelas ocasiões em que experimento e reconheço a preciosidade de cada instante - por ter meus filhos felizes saudáveis e presentes - mas que justamente por estarmos assim, juntos e plenos - é que aquela dor quase esquecida lá no armário ressurge. Dá um alô, e depois adormece de novo.

José se foi há quatro anos. O livro está publicado há dois meses. Desde então recebo diariamente mensagens de mães que viveram a mesma experiência. Eu já sabia que viriam e celebro o encontro com elas, me sinto realizada por meu livro ter voado longe e alcançado estas pessoas que estavam chorando solitárias, mas agora encharcam as páginas do meu livro e terminam gratas e aliviadas porque não se sentirem tão sozinhas. Eu também tenho chorado muito, nem tanto pelo José, mais pela Maria, Laura, Miguel, Pedro e tantas outras crianças que se foram tão cedo. É a nossa história.

José é o filho de todos que, de alguma forma, vivemos uma perda. E aqui preciso dizer que quase sem querer, graças aos leitores, encontrei o ponto mais surpreendente desta história real: não são apenas filhos. São irmãos, amigos, parentes, namorados, pai e mãe. São pessoas que se foram da vida de alguém (morrendo ou partindo) e deixaram um vazio. Como é esse vazio? O que cabe lá dentro? Como a gente preenche depois?

Estou caminhando na rua. Sinto um vazio. Não é propriamente uma tristeza. É apenas um vazio. Tateando os bolsos, me pergunto: esqueci algo, o que será? Ah, lembrei é a dor do luto, está deixando de me acompanhar.

Estes leitores que não sei quem são agora me contam com muita intimidade suas histórias tristes e me confirmam aquilo que eu já desconfiava quando perdi José - a vida é de verdade e não dá para ficar sempre tudo bem, embora a gente insista pateticamente em dizer o tempo todo, tudo bem.

Pode ser que a sua visita não seja da morte propriamente dita, talvez venha em variações dela, com formatos assustadores- como um incêndio esta semana em uma madrugada que arruinou a casa de uma mãe de três filhos. Ela salvou as crianças, mas agora precisa de cuidados. Por vezes é uma doença, uma tragédia, um acidente. Não é fácil contar e acompanhar estas histórias, momentos difíceis- que por vezes assustam ou mesmo afastam o leitor "quem vai querer ler sobre um filho que morreu?"- eu pensava, quando ainda me sentia em dúvida entre publicar ou não o livro Até Breve, José - e mesmo agora, me encontro aqui no dilema entre revelar ou não o quanto conheço sobre as criaturas da noite. Eu estava errada. Há milhares de pessoas interessadas no livro e outras milhares que estão acompanhando - e torcendo - pela recuperação da mãe que se feriu e pelo atendimento às vítimas do terremoto no Nepal.

Estes episódios nos oferecem justamente a dose de realidade que precisamos para sair daquele perigoso estado "comercial de margarina" em que acreditamos que devemos comemorar 'porque é Dia das Mães' ou porque fugimos do trânsito ou porque fechamos um novo contrato ou mesmo porque nosso vizinho finalmente desligou o aspirador de pó. O verdadeiro presente - acredite - é quando conseguimos estar felizes simplesmente porque estamos vivos.

Então neste Dia das Mães o que eu realmente desejo é que possamos alcançar, ainda que apenas por um instante, este estado de consciência em que reconhecemos que o que temos já é muito, já é lindo e já é vida. Não faz mal se não tiver um super almoço, ou se o presente for singelo. Que esta data seja um lembrete a todos que estão em alegria de que este momento também é temporário - então vamos aproveitar e agradecer. E, especialmente às mães de filhos que partiram e a todas as pessoas que estão em sofrimento, gostaria apenas de (re) lembrar - este dia também vai passar. Outros dias virão. Mais leves, talvez mais ordinários, menos simbólicos, e quem sabe, até mais felizes. Tristes e felizes ao mesmo tempo, como nós.