OPINIÃO
08/08/2014 20:22 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:46 -02

Pai de todas as idades

Na escola, quando ia me buscar, perguntavam se ele era meu avô. Hoje ele cuida muito bem do seu neto cachorro, vai para academia 6 vezes por semana e insiste em amarrar a gravata na testa em todo casamento que vai.

Camila Braga

Quando eu nasci ele já tinha quase todos os cabelos brancos. Na escola, quando ia me buscar, perguntavam se ele era meu avô. Ainda assim, seis anos depois, ele fabricou minha semi-cópia, a irmã mais nova, no auge dos seus 47 anos de idade.

Hoje seus amigos, também com setenta e poucos, tem filhos com cabelos brancos (salva pela tintura), netos terminando a faculdade e vivem uma rotina mansa de médicos e uma e outra viagem de navio. Ele? Cuida muito bem do seu neto cachorro, vai para academia 6 vezes por semana e insiste em amarrar a gravata na testa em todo casamento que vai. A idade pode ser a mesma, mas o espírito, esse insiste em disputar comigo o campeonato de jovialidade.

Sim, todos envelhecemos. Depois dos 30 não temos ressaca, ficamos doentes. Depois dos 70 não exageramos na comida, temos um estoque de chá de boldo. E insistimos que os anos de carteira nos permitem virar a esquerda sem dar a seta. Ou na ideia que ainda dá para aproveitar aquele velho "PC 486" com tela de tubo que está mais conservado que o ipod recém trazido dos Estados Unidos para a filha (e realmente está). Paciência não é uma virtude, é uma necessidade.

Virtude é a alegria e gana de viver. De se esconder atrás da poltrona quando a filha passa em casa para te desejar feliz aniversário, ficar procurando como louca, "uai, mas o pai não estava em casa?" e saltar num grito "te peguei!". De trollar, mesmo sem saber o que essa palavra significa, a filha dizendo que aquele resto de wasabi na bandeja de isopor é sorvete de pistache, e que ela poderia comer à vontade.

Claro que temos os maus momentos. Em que a teimosia impera, ninguém quer dar o braço a torcer, nenhum dos dois arreda o pé. Já chegamos a combinar de correr com a condição de que o primeiro que cansasse avisaria o outro e ambos parariam. Quase paramos no hospital, mas nenhum desistiu.

Enquanto a minha geração é rápida, ágil e ávida por tudo para ontem, a dele é centrada e desconfiada, com os dois pés atrás. Pensar e repensar, enquanto eu quero agir. E nesse embate de décadas o caminho da felicidade não está na conciliação. Nem em provar um ponto. Está em abrir mão da razão pela felicidade. Ao invés de horas de argumentação, um bom abraço, regado a um vinho português, um cochilo com seu neto cachorro e uma selfie fazendo careta. Porque de momentos assim que é feita uma paternidade, com 30, 40 ou 74 anos.

Feliz dia dos Pais.

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