OPINIÃO
09/05/2014 16:46 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Drag Queen por um dia

Comecei pedindo um vestido emprestado pra minha mãe, que levou um susto quando eu perguntei se uma roupa dela caberia em mim. Depois, ganhei dois pares de sapato - graças a Deus eu uso 38 -, consegui uma peruca emprestada, cílios, sutiã com bojo, bolsa e joias. "Jura que você vai se montar?"

Reprodução/Facebook

Quando eu ainda era criança, creio que por volta de meus 6 anos mais ou menos, lembro-me vagamente de ir até o guarda roupas da minha mãe e experimentar um par de sapatos de salto dela. Logicamente, meus pés minúsculos não preencheram nem metade do sapato, mas eu pude realizar uma das tantas fantasias que passavam pela minha cabeça naquela época.

Sempre fui fã das heroínas. Mulheres fortes, corajosas e que geralmente exibiam suas curvas em trajes curtos ou colados ao corpo escultural. Em sua grande maioria, sempre de salto. Nas brincadeiras de criança, eu geralmente queria ser a Tempestade, a She-Ra, Mulher-Maravilha, Chun-Li, e etc.

Anos - ou meses, não me lembro exatamente - depois, lembro-me de subir no vaso do banheiro e colocar um laço que encontrei, na cabeça, imitando a Minnie Mouse. Minha mãe passou pela porta e me olhou com ar de desaprovação. O suficiente pra eu descer correndo e fingir que nada havia acontecido.

Desde então, fui notando que ser mulher não era aprovado pelos adultos e nem pelos meus amiguinhos da época.

A adolescência chegou e meus amigos se vestiram de mulher em diversos carnavais. Nunca me senti a vontade para fazer o mesmo, pois não queria ser um homem vestido de mulher como eles, e sabia que se levasse a sério, seria alvo de piadas, como em inúmeras situações da minha infância-adolescência.

Os anos se passaram, e muita coisa aconteceu na minha vida, inclusive a minha "saída do armário" aos 18 anos e uma coisa estava clara pra mim: eu gostava de homem, mas não queria ser uma mulher.

Hoje, aos 28 anos, realizei um desejo: ser mulher por uma noite.

Comecei pedindo um vestido emprestado pra minha mãe, que levou um susto quando eu perguntei se uma roupa dela caberia em mim.

Depois, ganhei dois pares de sapato - graças a Deus eu uso 38 -, consegui uma peruca emprestada, cílios, sutiã com bojo, bolsa e joias. A ideia era não gastar nada com a brincadeira, afinal não tinha a intenção de repetir.

Primeiro gasto: ajuste do vestido. Já que eu ia ser mulher, que fosse gostosa.

Foi então que começaram as perguntas com tom de tristeza "jura que você vai se montar?"

Quando comentei que ia de Drag Queen numa festa, várias pessoas - em sua maioria homens gays - começaram a me olhar como se eu tivesse adoecido.

E quando eu disse que ia tirar a barba?! Gente, as pessoas quase choravam! Tipo, minha barba volta mais rápido que amarração de amor, gente, calma!!!

Algumas desmaiaram quando eu disse que ia depilar as pernas, peito e braços. (mentira, ninguém desmaiou, mas foi quase isso)

Parecia que eu estava me tornando algo desprezível, inferior ao que as pessoas já conheciam de mim.

Alguns apoiaram, outros não botaram muita fé, mas como sempre, fiz o que eu tinha vontade, com o "foda-se" ligado.

Como na proposta do programa que me inspirou, "RuPaul's Drag Race", já que eu ia me montar, que fosse "for real". Aí começaram a aparecer mais gastos: meia arrastão, unhas postiças, base, cola para cílios, mais cílios, uma peruca nova, brincos... Primeira descoberta: ser mulher é caro pra caramba!

Por alguns dias experimentei o salto dentro de casa e, para minha surpresa, me saí melhor que o esperado. Segundo minha tia, eu estava andando melhor que muita mulher por aí.

Perguntei-me: por que homem não pode usar salto? Eu fico alto e com pernas torneadas! Meu sonho!

E usar vestido? Gente, entra um ventinho tão bom debaixo dele, acho um pecado nossa sociedade impor que só mulheres podem usá-los.

Quando finalmente chegou o dia da festa, comecei a preparação por volta das 15h. Primeira etapa, tirar todos os pelos do corpo. Saiu um gato de mim, de tanto pelo!!! Usei a máquina de barbear nos braços, mãos, axilas, peito, pernas e barba. Não parava de sair pelo. Depois usei a gilete. O mais legal foi ver como minhas tatuagens se destacaram.

Fiquei quase uma hora e meia no banheiro, pois ainda tinha que tirar a barba.

Aprendi que a meia calça deve ir por baixo da calcinha (no meu caso foi cueca mesmo), pois assim o "cavalo" da meia não fica perto do joelho a cada dez passos.

Mais tarde o queridíssimo Héber foi até minha casa para me maquiar. Gente, eu male má sei passar um batom!

Quase duas horas depois meu rosto já estava completamente diferente e pesado, de tanta coisa que tinha nele.

Traje completo, coloca peruca e cola as unhas. Demorei pra me acostumar com as unhas compridas. Obrigado, Fernanda, por me ajudar na primeira ida ao banheiro.

Quando já estava totalmente pronto, já me sentia outra pessoa. Como dizem os mais experientes, a "entidade" simplesmente vem. E é verdade. Leeloo Dallas (carinhosamente inspirada pel'O Quinto Elemento) chegou com tudo.

Na hora de sair de casa, bateu um frio na barriga. Uma mistura de ansiedade, medo, insegurança... O que esperar de um mundo machista e preconceituoso? Ia descobrir da porta do meu apartamento pra fora.

Primeiro contato: porteiro.

-- Marcelo, até que horas você fica aqui?

-- Até umas cinco. - responde ele com cara de choque disfarçada de "está tudo bem, isso é normal pra mim".

-- Então, como você pode ver, estou saindo assim -- ele me interrompe balançando a cabeça e afirmando que não tem problema nenhum com isso --, e preciso que se lembre quando eu voltar, para que você abra o portão para mim.

Ele ainda insistiu que não tinha problema nenhum com isso e todo um discurso de que cada um faz o que quiser da sua vida.

Pegamos um táxi (porque além de ser meio longe, eu não queria apanhar na rua) e quando chegamos à festa, ainda tentava me acostumar a usar palavras no feminino de maneira natural, como "obrigadA".

Uma paradinha para abrir a bolsa e retirar os ingressos, rebola daqui e um grito vem da fila "CAIO!". Nem dei confiança, afinal, naquela noite eu era Leeloo.

Já estava mais a vontade quando vi outras Drag Queens na fila. Na hora de entrar, dou de frente com duas seguranças mulheres e dois seguranças homens.

Em quem eu vou? -- a mulher sorriu e me chamou. Apalpou-me e pediu para olhar a bolsa. -- Olha, mulher, essa bolsa ta bem vazia, viu? Não tinha o que colocar dentro dela! Pensei em colocar papel pra fazer volume, mas imagina se me caem esses papéis lá dentro?! Não quero pagar esse mico, né?

Uma das melhores coisas da noite foi poder usar o banheiro feminino, que estava quase sempre vazio. E foi em uma dessas idas ao banheiro, dessa vez com algumas mulheres conversando, que gritei realizado de dentro da cabine "EU MIJO EM PÉ-É!". Só ouvi uns "cala boca, viado, vai tomá no cu". Rimos e saí linda.

Aliás, como era estranho segurar meu pinto com aquela mão feminina, cara!

Encontrei várias Drag Queens, sempre muito simpáticas e prestativas, como a maravilhosa Agatha Le Blanc, que me ajudou na troca de peruca - porque eu estava derretendo de tanto calor com aquele cabelo comprido e não podia borrar a maquiagem, além de ser uma desculpa pra mudar o visual -, e todas elas me elogiaram quando souberam que era minha primeira vez de Drag Queen.

Os homens não olhavam na minha cara. Sempre desviavam o olhar quando eu passava por perto.

Porém, para minha surpresa, durante a apresentação da JuJubee, um rapaz se aproximou de mim puxando papo pela minha tatuagem. Não sei se ele estava interessado em ficar comigo, mas notei que ele estava alcoolizado e preferi só fazer a simpática.

Duas horas depois do início da festa meus pés já latejavam. É uma dor na parte da frente, na sola, que olha... Entendi porque algumas mulheres tiram o salto no meio da balada. Mas Leeloo, muito fina, jamais desce do salto. (Dois dias depois e os pés continuavam doendo)

Rebolei, sensualizei e fiz tudo que uma mulher despreocupada com a opinião alheia faria. Em suma? Dei muita pinta mesmo! E como foi bom poder fazer isso. É maravilhoso você poder fazer o que tem vontade e não se preocupar com o que as pessoas vão pensar de você. Elas sempre pensam algo, é inevitável.

Foi divertidíssimo encontrar amigos que não haviam me reconhecido e outros que reconheceram pelo sapato.

Jujubee se apresentou fofíssima e super simpática, porém tratada pela casa como uma Madonna intocável.

Fiz lip sync, mas sempre cantando junto, afinal o som alto não permitia que as pessoas ouvissem minha verdadeira voz, e saí em várias fotos, sempre fazendo carão.

Voltamos pra casa destruídas mesmo, viu viado? Não via a hora de tirar aqueles sapatos! Fernanda foi um anjo que me ajudou a voltar a ser homem (não pensem besteira, sou um homem gay).

Uns dez lenços umedecidos e a maquiagem ainda insistia em permanecer no meu rosto. Andava pela casa parecendo uma idosa de 75 anos. Não conseguia apoiar os pés direito no chão, doía muito!

Minhas orelhas estavam marcadas pela pressão dos brincos (e a gotinha de Super Bonder), e o pânico bateu quando fui tentar tirar as unhas postiças. Elas simplesmente não saíram, então me lembrei da vendedora me dizendo que elas duram até uma semana.

Aliás, falando em vendedora, o mais engraçado era a cara das pessoas quando eu ia comprar algo de mulher e dizia que era pra mim.

Por fim, posso lhes dizer que é maravilhoso ser mulher, mesmo que por uma noite, e tiro meu chapéu (e qualquer outra coisa) para todas as mulheres e Drag Queens do mundo! Vocês são corajosas, fortes e simplesmente incríveis por passarem diariamente por tudo isso que passei.

Vocês têm meu respeito e profunda admiração. Parabéns!

E você, gay que insiste em querer se passar por hétero, na boa, se liberta, gato... É muito mais gostoso ser livre!

Como diz a maravilhosa RuPaul:

"If you can't love yourself, how the hell you're gonna love somebody else?"

E pra quem não viu, aqui está o álbum da Leeloo Dallas.