OPINIÃO
24/03/2016 18:09 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Em 'Batman vs Superman', quem rouba cena é a Mulher-Maravilha

Misture na mesma tigela um filme que serve de sequência para um anterior, a introdução de um novo personagem que deve ter tanto destaque quanto o outro protagonista e a pretensão de ser dramático e épico a cada segundo. Em meio ao quebra-quebra e à testosterona, só a Mulher-Maravilha para melhorar a situação

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Este texto NÃO tem spoilers.

Misture na mesma tigela a necessidade de fazer um filme que sirva de sequência para um anterior, a introdução de um novo personagem que deve ter tanto destaque quanto o outro protagonista e a pretensão de ser em cada aspecto, por menor que este seja, dramático e épico.

O resultado é Batman vs Superman: A Origem da Justiça (Batman v Superman: Dawn of Justice, 2016) que estreia nos cinemas nesta quinta-feira (24).

No aguardado longa dirigido por Zack Snyder, os super-heróis mais importantes da DC Comics, o primeiro interpretado por Ben Affleck e o segundo por Henry Cavill, se enfrentam após serem colocados um contra o outro pelo megalomaníaco Lex Luthor (Jesse Eisenberg).

Este pedacinho de informação sobre o enredo é um dos poucos que você pode saber antes de assistir ao filme sem ter qualquer surpresa estragada.

Ok, à essa altura você já deve ter lido várias críticas negativas a Batman vs Superman, mas eu lhe asseguro: o investimento no ingresso é válido, sim. Ainda mais se você escolher a sala com a maior tela, em IMAX, com o melhor som e o melhor 3D. Confie em mim: é nessas condições que o épico-máquina caça-níquel de Snyder vale ser visto.

Dito isso, é importante entender o filme como uma engrenagem dentro de um contexto: a Warner Bros. tem os direitos de adaptação da DC - a editora faz parte do grupo empresarial - e quer unir vários de seus personagens em um universo cinematográfico só, assim como a Marvel tem feito, e muito bem, com os Vingadores.

Tardiamente, o estúdio decidiu investir de maneira robusta para concorrer com seu principal rival. No entanto, disputas tolas à parte, a casa de personagens icônicos, como Superman, Batman, Mulher-Maravilha, Coringa e Mulher-Gato, é tão importante quanto e passível de render ótimas adaptações para outros meios quanto sua concorrente.

A iniciativa teve seu primeiro passo dado com o retorno do Superman às telonas, O Homem de Aço, em 2013. Batman vs Superman serve como sequência para este, uma introdução para o novo Batman e prólogo para os dois longas da Liga da Justiça que virão em 2017 e 2019, respectivamente. Até lá, veremos Esquadrão Suicida (estreia no Brasil em 4 de agosto deste ano), e aventuras de Mulher-Maravilha, Flash, Aquaman, Shazam, Cyborg e Tropa dos Lanternas Verdes.

Ou seja: Batman vs Superman tem a função de dar continuidade e abrir mais caminhos com o megaprojeto da Warner.

E é apenas essa função que ele honra. Como filme, ele dá diversos escorregões.

Embora seja, por vezes, impressionante a riqueza de seus efeitos especiais e fotografia, o duelo dos dois heróis não vai muito além disso.

Preocupadíssimo com manter a seriedade, Snyder impede de vir à tona a diversão sem compromisso que a plateia pode buscar. É só na batalha final que o diretor torna a experiência mais leve e envolvente, mas cai na própria armadilha: de repente, o filme assume outro tom. E, nesse momento, parece que apenas os fãs hardcore dos personagens foram lembrados. Snyder é ótimo nisso: muito da construção visual nas mirabolantes cenas de ação lembra a linguagem dos quadrinhos e videogames, mas nem todos que vão ao cinema pertencem ao grupo dos nerds.

Há muito drama e repetição de drama. Muitos minutos desnecessários, o que torna a projeção, que dura aproximadamente duas horas e 40 minutos, arrastada e cansativa. Muita pretensão filosófica e política. Muito lenga lenga.

A Lois Lane da sempre ótima Amy Adams carece de função em meio ao deus nos acuda - é tão rasa quanto todos os outros personagens. Uma pena, porque o elenco é extremamente capaz, com talentos do porte de vencedores do Oscar como Holly Hunter, no papel da senadora Finch, e Jeremy Irons, vivendo o mordomo Alfred. Eisenberg, entretanto, como Lex Luthor, chega a provocar humor involuntário no retrato do personagem como um jovem mimado e desequilibrado. Uma caricatura.

É importante fazer uma ressalva: se não fosse pela presença do roteirista Chris Terrio no projeto, tudo poderia ter sido pior. O vencedor do Oscar pelo ótimo Argo (2012) reescreveu o roteiro de David S. Goyer - o mesmo responsável pelo texto de O Homem de Aço.

Terrio, ao contrário de Goyer, tem habilidade para a construção de roteiros mais consistentes. Seja nos diálogos - que, às vezes, parecem ter ambição literária - ou no encadeamento azeitado de acontecimentos. A evolução, em termos narrativos, de Homem de Aço para B v S é perceptível: se o primeiro não define com clareza a que veio, assim como os pontos de começo, meio e fim, o segundo cumpre essas tarefas - e com raciocínio mais ágil e menos preguiça.

Em meio ao redemoinho, os melhores momentos são, sem sombra de dúvidas, os roubados pela Mulher-Maravilha. A atuação simples, concisa e sutil da carismática (e linda de doer) Gal Gadot é um alívio ao jorro de testosterona, melhora as cenas de ação e mostra ter mais colhões e senso de humor que os homens grandões que ela defende do monstrengo Apocalypse. Pena que a presença dela é mal explicada.

Seria injusto culpar Snyder ou Terrio: a demanda de mercado fez Batman v Superman acontecer. E como colocar em apenas uma história tantos elementos? Sozinhos, eles poderiam render experiências muito mais interessantes; juntos, são uma experiência quase confusa.

Mas não se preocupe: não é um filme ruim. A dica é simplesmente se entregar e curti-lo pelo que ele é: um grande espetáculo visual.

O que promete ser bacana mesmo é o filme da Mulher-Maravilha, que chega em 2017. Aqui está uma amostra:

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