OPINIÃO
26/06/2015 18:02 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:34 -02

Me disseram que minha mãe, lésbica, era 'depravada'. Hoje é para nós duas

Hoje, com a Suprema Corte decidindo que todos os americanos têm o direito de se casar com quem quiserem, as ruas vão estar cheias de depravados comemorando não só o direito de participar da mais convencional das instituições, mas também o direito de viver além do estigma e da vergonha.

Margaret Wheeler Johnson

Artigo publicado originalmente no Bustle

Margaret Wheeler Johnson

Tinha quase 17 anos quando me disseram pela primeira vez que minha mãe era depravada. O começo daquele verão não foi nada auspicioso. Para incrementar meu currículo antes da universidade, tinha me inscrito num curso de uma semana da American University. A promessa era apresentar aos alunos as complexidades do processo legislativo. Não fiz nenhum amigo, não entendi nada do sistema de comitês do Congresso e tive uma queimadura solar de segundo grau no Mall, em Washington. Na quinta-feira, entrando no ônibus para mais um dia de visitas a pontos turísticos, seminários com assessores parlamentares de pouca importância e redação de leis de mentira, mal podia esperar o fim do curso.

Foi naquele dia que nos levaram para uma sala de conferências de hotel para um painel sobre casamento gay - algo que, na época, parecia um exercício teórico. Era 1999. A probabilidade de aprovação do casamento gay nos Estados Unidos era mais ou menos a mesma de elegermos um presidente negro.

Uma das participantes do painel era uma advogada obviamente lésbica, de um grupo nacional de defesa dos direitos LGBT. A outra era uma jovem lobista representando um think tank conservador. Não me lembro dos nomes delas nem de quem era o moderador, possivelmente porque não me ocorreu que o painel tinha alguma coisa a ver com minha vida.

Dois anos antes, minha mãe tinha finalmente saído do armário para a família, mas não falávamos do assunto. Cresci em New Orleans, não na parte laissez-les-bonnes-temps etc. Havia uma grande chance de que amigos da família que conheciam minha mãe havia 20 anos a rejeitassem se ela se abrisse. Eles diriam que o catolicismo não lhes dava alternativa. A mãe de uma criança na sala da minha irmã tinha descoberto e contou para a filha, que contou para o resto da quinta série. O resultado foi que minha irmã, antes cercada de amigos, se tornou uma pária. Aprendemos bem que, mais cabeça fechada e maldosos que as crianças, só adultos ameaçados pelo diferente.

Portanto, não me identificava como filha de uma mãe gay, muito menos como alguém que pudesse ser gay. Sentia compaixão pela minha mãe, mas disse para mim mesma que a orientação sexual dela não era meu problema. Estava encaminhada para estudar numa universidade de elite e para fazer o que quisesse da vida. A história da minha mãe não era a minha, pensei - até o momento, naquele painel, em que a representante do grupo conservador começou a falar de casamento gay.

Ela provavelmente tinha 30 e poucos anos, cabelos pretos brilhantes e bochechas altas. Estava vestida impecavelmente. Falava com tanta confiança que parecia desafiar alguém a contestá-la. Devia ser ótima na frente das câmeras. Ela era exatamente o tipo de mulher que eu queria ser, pensei, e por um instante fiquei tão paralisada com essa comparação que parei de prestar atenção ao que saía da boca dela.

Ela disse que gays que queriam casar eram depravados. Estavam pedindo que a sociedade acomodasse relacionamentos envolvendo sodomia, que era ilegal em vários Estados. Disse que era ridículo pedir proteção constitucional para uniões, se é que poderíamos chamá-las assim, que ameaçavam minar o tecido social da nação.

Aquela palavra, "depravados", me pegou. Por um lado, soava tão antiquada, coisa da época da Grande Depressão. Também era, literalmente, um termo sem sentido. Depravado é aquele cujo comportamento se desvia das normas. De uma forma ou de outra, vale para todos nós. Mas ela não estava usando a palavra no sentido literal. Ela a brandia por suas conotações horríveis - um depravado, alguém com preferências sexuais perigosas. Ela poderia muito bem ter usado a palavra "pervertido".

Não consegui superar a facilidade que ela tinha para dizer aquilo. Mas ela não sabia.

Ela não sabia como os pais da minha mãe a tiraram da faculdade para mulheres quando ela se apaixonou por uma garota. Ela não sabia como, naquele verão, ela foi mandada sozinha, várias e várias vezes, para um psiquiatra de Dallas que disse poder curá-la. Ela não sabia como experiências como essa convencem uma pessoa de que ela nunca vai ser amada se admitir quem realmente é.

A fanática no púlpito não sabia que é assim que você acaba com um marido e filhos que sabem de tudo, mas estão tão devastados que não conseguem falar. E ela também não sabia como minha mãe conseguiu encontrar a felicidade durante aqueles anos todos, em meio à alienação e ao segredo. Ela não sabia como minha mãe nos preparava margaritas sem álcool, participava do rodízio de carona da escola usando roupa de ginástica (até hoje ela pratica pelo menos três esportes) e nos levava para o alto de um morro no parque e nos fazia descer de bicicleta, gritando "Tawanda"!

Ela não sabia de nada. E, de repente, eu precisava que ela soubesse.

"Minha mãe é gay", disse eu no microfone, quando chegou a hora das perguntas. Era apenas a segunda ou terceira vez que dizia isso em voz alta. Deixei a frase pairar por um segundo, a verdade, reverberando no sistema de som. "Como você pode dizer que ela não deveria ter o direito de casar com quem ama?"

Eu estava jogando uma isca, e sabia muito bem disso. Nunca tinha considerado a possibilidade de minha mãe casar de novo e não tinha ideia se ela teria interesse. Não tinha ideia do que eu sentiria a respeito. Mas não era esse o ponto. Não estávamos falando de casamento. Estávamos falando de intolerância.

A mulher olhou para mim e parou. Achei por um instante que ela estava invocando, se não empatia, pelo menos um desejo de não parecer insensível diante de uma plateia de futuros eleitores. Achei que ela pudesse responder que eu estava numa situação complicada, que talvez sugerisse que eu pedisse conselhos a algum adulto de confiança. Achei que ela fosse fazer algo para parecer afetuosa, e eu, histérica.

Ela realmente pareceu escolher as palavras com muito cuidado.

"Você tem de entender", disse ela para a menina de 16 anos no microfone, "que sua mãe está envolvida em comportamentos depravados".

Ninguém da mesa ou da plateia se manifestou. As pessoas ficaram em silêncio, chocadas. Finalmente, a advogada lésbica pigarreou e observou que estávamos muito longe das questões constitucionais em discussão. Ela estava fazendo o que tinha sido treinada para fazer. Não se envolva emocionalmente. Atenha-se ao tema.

Não me importei. Saí da sala e durante anos não contei para ninguém o que tinha acontecido, nem mesmo para minha mãe. Não precisava.

Esqueci do episódio, para falar a verdade. Só lembrei de novo em 2013, quando a Suprema Corte derrubou o DOMA (lei de defesa do casamento, na sigla em inglês) e semanas antes de eu me casar com uma mulher. Também sou depravada, no fim das contas. Tão depravada que temos uma filha. E hoje, com a Suprema Corte decidindo que todos os americanos têm o direito de se casar com quem quiserem, as ruas vão estar cheias de depravados comemorando não só o direito de participar da mais convencional das instituições, mas também o direito de viver além do estigma e da vergonha.

Estava pensando que tudo isso vai forçar a mulher do painel a finalmente entender como ela estava errada. Mas vi o olhar dela. Captei a hesitação. Ouvi o silêncio que a recebeu.

Ela já sabia na época.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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