OPINIÃO
16/10/2014 17:41 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

A literatura contra a Literatura

Aliás, mentiram muito. Mentiram quando obrigaram a leitura do Eça de Queirós para o vestibular. Mentiram quando disseram que essas coisas eram a "Literatura", esse termo pomposo que se inicia com uma letra maiúscula.

Daniel Grill via Getty Images

Mentiram para você. Aliás, mentiram muito. Mentiram quando entregaram aquele Machado de Assis no oitavo ano. Mentiram quando obrigaram a leitura do Eça de Queirós para o vestibular. Mentiram quando ocuparam suas horas em elipses infernais sobre escolas literárias e outros que tais. Mentiram quando disseram que essas coisas eram a "Literatura", esse termo pomposo que se inicia com uma letra maiúscula.

Vamos começar bem do começo: Literatura, a instituição, não existe. Ao longo dos séculos, a literatura foi escorraçada da república platônica, foi tida como um mero jogo de interpretação, foi lida como história e foi deixada na sarjeta. Estados, governos e impérios a censuraram, mataram poetas e prosistas e só tentaram uma aproximação quando era seguro, isto é, quando podiam sustentar os escritores. A coisa mudou de figura no século XVIII francês, dentro das Academias. Foi quando a Literatura surgiu, atrelada, porém, ao mercado crescente, ao Estado e ao próprio conhecimento acadêmico. Dinâmica parecida ocorreu com as artes plásticas, em uma articulação que se toca no meio do XIX, quando Baudelaire escreve sobre os salões. A Literatura é, em último grau, uma criação ficcional da literatura.

A literatura, com letra minúscula, um substantivo como qualquer outro e não uma instituição, esteve sempre por aí. Quando em tempos pré-históricos, os homens e as mulheres se reuniam para contar histórias, estavam fazendo literatura (a qual, de forma alguma, necessita ser escrita). Ela é, entre muitas outras coisas, a junção de discursos díspares. Uma linguagem específica e sem controle. Não é, por necessário, os romances, os contos e os poemas. Tudo pode ser literatura, o que não quer dizer que tudo seja literatura. Vontade de poder, talvez.

Então, como eu ia dizendo, mentiram para você. Fizeram acreditar que a Literatura é a literatura. A Literatura, pelo seu caráter institucional, precisa ser regulada, definida e enquadrada. Ela precisa ser estudada e dissecada (e aí mora o motivo de muitas faculdades de Letras lembrarem o IML). Já a literatura, o domínio e o território das pequenas coisas, não carece de quase nada. No máximo, de um ou outro leitor guiado mais pelo prazer e pelo desejo de ler do que qualquer outro motivo. A literatura precisa ser estudada, porém longe do fantasma da Literatura. Um bom leitor de literatura sabe se enfiar nos meandros espinhosos do texto e sair de lá com algo a mais do que um "fulano de tal viveu em tal época e foi membro honorário de tal escola literária". A questão é que para virar um bom leitor de literatura, o primeiro passo é parar de escutar a lenga-lenga da Literatura. Domar o touro pelo chifre: tática de guerrilha anti-cartesiana, fugir de todo método e ler o que apetece. A literatura, como a política, não se aprende em gabinetes, mas no clima árido da rua.

Nada de novo sob o sol daqueles escolados em Barthes, Deleuze ou Rancière (ou daqueles que simplesmente têm bom senso), mas um alento para os prováveis leitores que estão sendo mortos neste instante por conta das características realistas nos romances do Machado. Novos e velhos, é preciso se revoltar contra a Literatura (e seus esquemas de editais, feiras descoladas, amor pelo Autor) na esperança de que a literatura seja salva.

(O que é uma tremenda de uma besteira, tendo em vista que o mais bonito sobre a literatura é que ela nunca precisou de nós, mas isso é outro assunto).

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