OPINIÃO
28/03/2016 17:10 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Somos produtos, somos produtores

Nós acostumamos, inclusive, a nova geração desde a infância a entender que é um órgão com funcionamento involuntário, que não podemos controlar ou gerir. Apresentamo-nos passivos a tecnologia até acreditar no ideal que somos guerreiros num local democrático. Onde treinamos a mente arduamente a desenvolver ideologias e manter o pensamento crítico. Guerreiros.

visualspace via Getty Images
People crossing the road in famous Shibuya crossroad, Minato Ward, Tokyo, Japan.

É a labuta do tão temido sol. A incessante abertura das chancelas a outra jornada. A rotina massante do cíclico. É o tom acalorado do verão aprisionando o sono remediado a uma noite de essências diferentes, relativas.

A luz proferindo feixes ao olhar preguiçoso se assemelhando a enxurrada de conteúdos midiáticos, que somos submetidos dia-a-dia numa teia de aranha ramificada aos sabores do cotidiano. Uma teia interativa prezando a troca de informações para manter uma constante.

Somos produtos. Somos produtores. Somos materiais brutos. Moldamo-nos ao relativizar filtros, construindo a - talvez perigosa - protecionista redoma, porém, nos libertamos de elos ao encontrar na divergência a básica forma de aprendizagem. Lapidados numa terra supostamente sem dono. E tão menos sem piedade.

Vivemos a geração do compartilhamento desenfreado como a maratona de automóveis - buzinando por atenção - na Avenida Fernandes Lima ao meio dia. Uma humanidade sem controle das rédeas da própria história. Tornamos-nos livros abertos para consumo de qualquer assíduo leitor. Sem gênero específico, para esclarecer, há sinopses de amor, de ódio, de momentos, de solidão. E assim vai.

Há quem encontre a especificidade na rede. Para acompanhar ou vivenciar. Alguns tratam a rede como psicólogo aos sofrimentos. Outros tantos encontram seus companheiros, seus pares, sua metade da laranja. Uma porção deposita o estresse em algo absurdo, numa notícia caluniosa. Há aquele grupo que busca o tratamento a doença. E quem copia e cola para complementar um trabalho? Google tornou-se doutor. É médico, é professor, é salva vidas. Haveria cátedras por tamanha especialização em anexar informações. Imagina só.

Ah, a internet! O espaço de essências inexploradas até profundamente na deep web. Algo chama atenção nessa perfumaria. Nessa chuvarada (ou tempestade) de numerosos aplicativos. O molde provocado pela segmentação de atividades. O Instagram é uma amostra prática dessa função ao capacitar os olhares, entre as pequeninas lentes, a enxergar detalhes despercebidos ao redor e provocar impacto ao impor - num formato 1x1, tradicionalmente - a beleza ao menosprezado pelos seres.

Desde tomates desperdiçados no CEASA a pichação de algo inteligente ou carregado emocionalmente na rua. O cotidiano virá arte contemporânea. Enquadrou, fotografou, editou e Instagram. O que renderá importância a fotografia para colecionar num reservatório de tantas memórias e recordações efêmeras.

Ou manterá esquecida num serviço de nuvem até ser revisitada como casa de adoção. Aparentemente bobo, tão bobo, que nos cegamos a acreditar no documental. É o registro do passado, do acontecido, do espaço. Uma vitrine luminosa aos amadores absorvidos a mobilidade.

Apropriando-se de gírias arcaicas e supostamente esdrúxulas em meados dos anos 70, a rede mundial de computadores sempre será pra "frentex". Florescia a curiosidade ao questionar dúvidas a sua complexa adaptação num terceiro mundo lapidando (ou escalando) a montanha do desenvolvimento. Agora somos emergentes.

A economia promissora onde a internet é realidade, porém, pagamos caro por serviços duvidosos oferecidos por gigantes. É a mutação da sociedade. Somos humanos, quase máquinas, por tamanho processamento de efemeridades. Prestamo-nos pela importância - e endeusamento - que criamos a esse "órgão" aderido a nossa massa como parte integrante ao corpo.

Nós acostumamos, inclusive, a nova geração desde a infância a entender que é um órgão com funcionamento involuntário, que não podemos controlar ou gerir. Apresentamo-nos passivos a tecnologia até acreditar no ideal que somos guerreiros num local democrático. Onde treinamos a mente arduamente a desenvolver ideologias e manter o pensamento crítico. Guerreiros.

LEIA MAIS:

- Para ser um bom líder, esqueça o tal do 'carisma

- O que fazer para não odiar seus problemas?

Também no HuffPost Brasil: