OPINIÃO
12/01/2018 20:15 -02 | Atualizado 12/01/2018 20:15 -02

A violência nossa de cada dia

Olho por olho. Dente por dente. Rede de ódio que nos atravessa a cada dia.

wildpixel via Getty Images
Todos ao meu redor são inimigos em potencial. Ladrões de tempo, de dinheiro, de espaço, de minha fé

Todos os dias, acordo de mau humor; meu sorriso, ninguém merece.

Ando pelas ruas de cara fechada. Todos ao meu redor são inimigos em potencial. Ladrões de tempo, de dinheiro, de espaço, de minha fé, da minha chance de estar certo e massagear meu ego. Da minha vida.

Trato todas ameaças com uma pedra na mão; um traço de maldade, um troco na mesma moeda. Vingança é minha redenção.

Tanto faz, sou apenas um entre vários que se acostumaram a agir assim. Cada um prezando pelo seu, buscando o caminho mais fácil até o topo, doa a quem doer.

Fazer o quê, né? Uma vantagem aqui, outra ali, pra ficar um pouco menos miserável. Pelo menos enquanto estou por cima de alguém. Não aguenta? Bebe leite.

Tem que matar mesmo, lugar de delinquente é no inferno, cadeia nesse vagabundo. Vou estacionar aqui, ninguém tá vendo. Político ladrão, tem que matar uns 30 mil pra começar a dar certo.

Não te estupro porque não merece, fraquejei na última e veio uma mulher. Vai lavar louça e fazer um sanduíche.

Macho escroto tem que sofrer. Merece mesmo um linchamento virtual. Tem que ser estuprado na cadeia, pra aprender o que é bom. Tomar do próprio remédio, ser humilhado como nos humilha. O futuro é feminino.

Só tem viado na rede Globo; órgão excretor não reproduz.

Não doutrine nossas crianças, quero ter direito de ensiná-las a te odiar.

Se não bate com minha fé não deixo existir; que fique entre quatro paredes. Na minha frente, não. Pouca vergonha! Tem que ter é mais.

Se for meu vizinho não vai ter nada de amor; vou reunir o bairro todo pra fazer da sua vida um inferno até se mudar. Uma lâmpada não basta, tem que cortar em pedacinhos.

Filho meu não é viado, criei direito. Mas eu respeito, nada contra. Hétero escroto, masculinidade frágil. Excluo do meu Facebook. Não vem falar top pra cima de mim, não. Sai, hétero!

Não pense em crise, trabalhe. Tem que manter isso, viu?

Tem que ser um que a gente mata antes de delatar. Um grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo.

Contrato intermitente, 20 reais por dia aos fins de semana. Mas o desemprego vai diminuir. Talvez mês que vem.

Nada de escola e posto de saúde; a prioridade é pagar a dívida pública. Atrair investimentos. Enviar remessas de lucro.

Porcos capitalistas, só botando tudo no paredão pra resolver.

Espero que caia uma bomba em Brasília. Mito 2018. Voltem, milicos. Tortura neles!

Contra a pena de morte, morra opressor.

Direitos humanos para humanos direitos. Mas quem é "direito" que atire a primeira pedra.

Heterofobia, feminazi, racismo inverso, ódio de classe. Uma colher do seu próprio veneno. Imagine um oceano.

Olho por olho. Dente por dente. Rede de ódio que nos atravessa a cada dia. A quem cabe impedir seu trânsito corrosivo senão a todas e todos nós? O mundo também está dentro de nós e é de lá que vem a reprodução automática de suas injustiças, que eventualmente recebemos de volta.

Maioria ou minoria, capitalistas ou trabalhadores, homens ou mulheres, brancos ou negros, opressores ou oprimidos: o ódio é cego para a humanidade alheia e não tem critérios para escolher seus alvos. Todos dão, todos devolvem.

Nas entranhas de cada um, ele se aprofunda e cria raízes. Qualquer um que tenha sido tocado por seu golpe violento tende a dissipá-lo ainda mais violentamente. Pois cuidado: o ódio retorna como falso profeta, propondo-se a solução para seus próprios delitos. Quebremos este ciclo doentio!

Definitivamente, não é devolvendo na mesma moeda que encontraremos a nossa redenção. Estamos em rede, querendo ou não. E, em rede, tudo que vai, volta. Se o ódio cruzar teu caminho, desvie.

Odiar não é resistir.

Feliz 2018.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.